
Aparentemente
o país das Bruzundangas, como dizia Lima Barreto, está mergulhado num profundo
debate político. É o que dizem jornais e televisões e a chamada voz das ruas.
Pois
me parece o contrário. Esse triste espetáculo que estamos assistindo não vai
além de uma troca de xingamentos, chavões, palavras de ordem, quando não
palavrões cabeludos.
O
que não é privilégio de qualquer dos partidos ou grupos envolvidos. Todos têm o
mesmo comportamento e a mesma concepção obtusa de debate político. Nas ruas e
nessa janelinha perversa chamada de redes sociais, é fácil sentir o que se
passa e receber o bafo do analfabetismo político brasileiro.
Um
de meus “amigos” (jamais entenderei que sentido tem essa palavra no facebook) faz
um chamado a democratas verdadeiros, de boa índole e consciência integra para
que se não se omitam e manifestem seus pensamentos. E fecha o texto assinando
como “poetas contra o golpe”. Daí se deduz que democratas verdadeiros são
contra o golpe, sendo que golpe é o processo de impeachment da presidente. Os
equívocos são abundantes. Primeiro “não vai ter golpe” é palavra de ordem, não
é pensamento, não é argumento. Segundo, quem tem cérebro em atividade, sabe que
impeachment não é golpe. Está previsto em lei e até o momento obedece às regras
nelas estabelecidas.
E
garanto que esse meu “amigo” não é rapaz bobinho. É poeta, autor de livros,
pesquisador, professor universitário, participa de organizações de intelectuais
etc. Mas comete essa joia de primarismo lógico e político. O PT e demais partidos
se pautam por palavras de ordem, não por análises e argumentos. Tais ordens colocam
de um lado os “bons” e, de outro, os “maus”. Essa palavra de ordem, no entanto,
só hipnotiza a adeptos do PT. Esses bravos militantes precisariam providenciar
argumentos que levassem a uma análise diferente dos desastres cometidos pela
presidente e por Lula.
A
isso devemos somar o outro lado da moeda, onde estão os políticos do PSDB e os
desembarcados do PMDB.
Mesmo
diante da fragilidade intelectual, administrativa e política de Dilma, essa
oposição não consegue desenvolver nenhum programa convincente. Não consegue nem
mesmo fazer o que políticos sempre desejam: liderar os movimentos sociais. Como
sabemos, as passeatas – exceto as do PT, que são digamos oficiais – recusam a
participação de políticos e de partidos, mesmo se esses pretendem apoiar suas reivindicações.
Temos
então uma oposição que é chutada das manifestações de rua e manifestações a
favor de Dilma onde a cor vermelha, as bandeirinhas, as palavras de ordem, os
sanduíches distribuídos, os ônibus etc., estão diretamente ligados a um partido
que está no centro das denúncias.
Não
bastasse, e para resumir, encontramos ainda outro agrupamento – graças aos
deuses, minoritário – onde se homiziam os que clamam contra o “comunismo”.
Todos
sabemos que nem a China e nem Cuba são mais comunistas, mas esses idiotas acham
que o PT é comunista. Entenda-se. Com tal pretexto paranoide pedem o retorno
dos militares ao poder. Só muita ignorância histórica para sustentar apelos
desse tipo. O PT não é comunista. É um espelho de Lula, um político pragmático,
sem convicções éticas, sem projetos de nação. Lula revelou-se um populista que
manobra os sem terra e sem teto a custa de uma concepção assistencialista do
poder.
No
entanto, uma direita absolutamente anacrônica urra desejando regime ditatorial no
poder.
Eis
os três grupos que se digladiam, entre xingamentos, nisso que não é debate
político algum. Já escrevi várias vezes: o Brasil é um país sem ossatura
filosófica, portanto incapaz de desenvolver convicções ideológicas consistentes,
análises históricas objetivas, políticas que sejam debatidas tendo em vista o
chamado bem comum.
Aliás,
o que mais falta nesses tempos nebulosos é bem comum. Cada um luta pelo seu
próprio bem. A presidente se agarra ao poder com unhas e dentes. Partidos
políticos esgotam-se em lutar pelo poder. E alguns trogloditas, de convicções nazifascistas,
anseiam por um estado militarista.
Não
é de estranhar. Analisando as últimas quatro décadas de história brasileira, é
fácil perceber que nosso triste país tropical foi submetido a um processo
deliberado de emburrecimento cultural e político. O resultado não poderia ter
sido outro, infelizmente.