O terno branco
Roberto Gomes
Ele já não tinha nome.
Era conhecido pelos
apelidos, que eram muitos, dependendo de onde estivesse, dos amigos a sua
volta, se era madrugada e estava numa boate, se anoitecia e estava num boteco.
Só não tinha um apelido para as manhãs, quando passava dormindo, roncando
demasiado alto para seu corpo pequeno, produzindo um estardalhaço sonoro que
parecia capaz de quebrar vidraças.
Acordava pontualmente às
duas da tarde, a boca queimando, os olhos vermelhos, que dizia infestados por
espinhos, não tem mesmo um espinho neste olho?, perguntava, abrindo as
pálpebras com dois dedos em alicate. Saía da cama gemendo, ia ao banheiro,
enfiava a cabeça debaixo da torneira e, num mesmo gesto, esticava a mão para
apanhar a garrafa de conhaque que deixava no armário ao lado. Bebia no gargalo
e estalava os beiços.
Sempre vestido de preto.
Uma calça e duas camisas
pretas e puídas, que fediam a mil noites e muitas mulheres da vida. Só permitia
que fossem lavadas às segundas-feiras, quando não acordava às duas horas da
tarde e seguia roncando pelo resto do dia. Saía da cama quando já era noite. Pedia
um café embora soubesse que ninguém o atenderia e, cruzando o corredor rumo à
cozinha, declarava:
- Segunda-feira é mesmo um dia que não presta pra nada!
Tomava café frio, olhava com
desinteresse para a televisão, diante da qual a mulher e a filha estavam
plantadas como duas samambaias. Ia ao banheiro com algum estrondo, empestando
os ares da casa, batia portas, deixava cair os sapatos quando tentava calçá-los,
atrapalhava-se com a camisa do pijama, que enroscava nos braços. Depois desta
encenação que repetia com uma precisão de relógio, dizia puta que o pariu
que ninguém fala comigo nesta casa! e, parado no meio da sala, decretava,
com ênfase:
- Segunda-feira é mesmo um
dia que não presta pra nada!
E voltava para a cama, onde
se punha a fazer cálculos na tentativa de descobrir há quantos anos ninguém o
ouvia, há quantos séculos não tinha notícias da filha, que estava lá plantada
no sofá, como era mesmo o nome da desinfeliz?, há quanto tempo não
conversava com o filho, que cuspia para o
lado quando cruzava com ele? E a mulher, quem era ela?
Depois, dormia aos
solavancos até mergulhar num sonho onde havia uma mulher que lhe dizia: vem.
Ele ia, sentava-se à mesa, contava casos, anedotas, pregava apelidos em quem
estivesse por perto e fazia com que todos rissem muito e batessem nas suas
costas dizendo que era mesmo um sujeito admirável, uma figura. Acordava na
terça-feira, às duas horas da tarde, pontualmente. E recomeçava.
No mais, terminava certas
noites emborcado numa calçada, acordava com dois policiais cutucando suas
costelas com o coturno. Noutras, abria os olhos numa casa desconhecida, no meio
da madrugada, diante de uma cortina de plástico que era um escandaloso campo
coberto com flores vermelhas e amarelas. Ou era erguido por dois braços fortes
e jogado na rua, onde quebrava um dente contra o meio-fio. Ia até a farmácia,
passava mercúrio cromo na boca, nos braços, na testa, pregava alguns
esparadrapos pelo corpo e entrava no primeiro boteco.
Foi assim até o dia em que
chegou em casa num domingo à tarde, provocando alvoroço na vizinhança, o que
ele fazia em casa àquela hora?, o que estava acontecendo? Atravessou
a curiosidade daquela gente cretina sem se deixar abalar e entrou em casa com
um pacote muito jeitoso debaixo do braço. Cumprimentou a todos, não recebeu
resposta alguma, a filha na frente da televisão, a mulher fabricando os
biscoitos com os quais sustentava a casa, o filho cuspindo para os lados como
se fosse um preto velho de macumba.
Entrou no quarto e, como
sempre, deixou a porta aberta. Todos viram quando abriu o pacote com cuidado e
dele retirou um terno branco, claríssimo, e uma camisa também branca. Viram
quando estendeu o terno sobre a cama e dependurou a camisa num prego ao lado do
armário. Despiu-se, jogando no chão o terno preto e a camisa preta, e estava
nu, pois não usava cuecas, uma de suas implicâncias. Viram sua exibição
inocente de carnes flácidas, a bunda murcha, o sexo desatento entre as pernas.
Então ele vestiu a camisa
branca, as calças brancas, o paletó branco. Olhou-se no espelho balançando a
cabeça e, quando se virou para a porta, a mulher, a filha e o filho fizeram de
conta que não estavam olhando e mergulharam de novo na tela da televisão. Ele
veio até a sala, perguntou se ninguém ia lhe oferecer um café. Não teve
resposta. Foi à cozinha e tomou um copo de água, derrubou uma caneca e, quando
retornava ao quarto, disse:
- Amanhã é segunda-feira e
segunda-feira não serve mesmo pra nada.
Quando entrou no quarto, os
três observaram o modo cerimonioso como ajeitou o terno branco no corpo,
acomodou os punhos da camisa, aprumou o colarinho, alisou os lençóis, afofou o
travesseiro e se deitou na cama. Ficou muito reto, parecendo maior do que era,
as mãos sobre o peito, os sapatos apontando para o teto, o nariz muito fino
interrogando contra a janela ao fundo.
Logo estava roncando aos
arrancos. O filho fechou a porta do quarto, a filha aumentou o volume da
televisão. Estranharam quando ele não acordou ao anoitecer da segunda-feira,
pedindo café e reclamando que segunda-feira não serve mesmo pra nada. Só às
duas horas da tarde de terça-feira abriram a porta do quarto.
- Acho que não roncava desde
as dez horas de ontem, a filha explicou ao médico que foi chamado às pressas.
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Passou a vida em preto, escolheu morrer de branco. Numa segunda-feira, que não servia pra nada. Muito bom.
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