terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Mitologias e Mitomanias na presidência brasileira




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Uma das características dos mitos é a banalidade. De tanto tropeçar neles, somos levados a julgar que são naturais. De fato, naturalizamos os mitos. Com o que eles adquirem vida própria.
Explicando o que penso: é nas fantasias que criam a respeito de si mesmas que as nações e os povos se retratam mais fielmente.
Penso em três figuras míticas criadas pelos brasileiros: Jânio Quadros, Fernando Collor e Jair Bolsonaro.
Jânio era apenas um tipo extravagante que naquelas eras anteriores à internet parecia circunscrito aos limites de São Paulo. Era hábil em fazer caretas e usava um vocabulário que seria música aos ouvidos de outro mito nacional, Rui Barbosa. Tratava-se de uma linguagem supostamente erudita, cheia de mesóclises, adornada com penduricalhos arcaicos e vocábulos raros, algo semelhante à gíria que falam os advogados em geral. Bebedor profissional, era um individualista. Não se filiava a nada nem a ninguém. Como se sabe, o mito é autossuficiente. Surgiu e desapareceu no cenário da política brasileira com a velocidade dos relâmpagos. Era muito jovem para um presidente, 44 anos.
Fernando Collor tinha os mesmos olhos fixos e nervosos de Bolsonaro. Olhar insano.  Chegou jovem à presidência, 40 anos. Era um desconhecido das longínquas Alagoas. Apresentava-se como um “caçador de marajás”. Encantou multidões, inclusive uma estação de TV poderosa. O que pensava e qual seu norte ideológico? Ninguém sabia. Sabia-se apenas que seria um caçador de marajás capaz de fazer uma limpa na política brasileira. O que Jânio ameaçara varrer com a sua vassourinha moralista, Collor faria com seu olhar incendiário.
O terceiro mito dispensou disfarces, catalogando-se como o Mito e arrastou seguidores e adoradores. Donde veio? Da caserna e de mandatos legislativos em seu estado natal, o Rio de Janeiro, que não tem produzido políticos de alto nível. Não tão jovem quanto os outros dois, chega à presidência com 63 anos. Tem língua solta, tal como Jânio e Collor, se bem que seu léxico e sua sintaxe não possam concorrer com o homem da vassoura, estando muitos degraus abaixo. Fala aos arrancos. Dispara chavões. Bem analisado, domina um vocabulário ralo e tem uma bagagem intelectual feita de verdades prontas, como soe acontecer aos egressos da caserna.
Esse mito tem origem paradoxal: se tornou possível pelas trapalhadas e vigarices do partido que acumulou o maior número de desastres em nossa história, o PT, sem o que seguiria circunscrito aos limites da Guanabara.
Bolsonaro não tem nada que possa ser considerado um ideário filosófico e político. Sustenta-se em máximas da direita, as mesmas que Trump adotou. Dispara frases e palavras, algumas óbvias, outras disparates. Mas todas ao gosto de eleitores que, carentes de tudo, agarram-se ao durão da vez.
Três extravagâncias que têm em comum a reencarnação do Sebastianismo, mito nacional que prolonga o mito português. Dom Sebastião, como se sabe, morreu em 1578 na batalha de Alcácer-Quibir. Ferido, seu corpo não foi achado, o que deu origem à crença de que estaria vivo e que voltaria para salvar Portugal. Nascia o mito do herói messiânico que iria redimir a nação.
Quanto a mim, lembro Millôr Fernandes: “País que precisa de um salvador não merece ser salvo”.





sábado, 8 de dezembro de 2018

Malucos e zumbis




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Há não muito tempo, cada cidade tinha seus malucos de estimação, com os quais a população convivia em paz. Eles faziam parte do folclore local.
Ainda criança, conheci um tipo desses em Blumenau. Era um mulato alto, forte, de rosto muito bonito. Carregava um saco de aniagem nas costas e todos o tratavam pelo apelido, Guarapuvu, nome de árvore notável pelo porte e beleza. Falava pouco, mas, quando falava, construía frases bem pensadas e elegantes, além de ter um vocabulário de muito boa qualidade.
No entanto, morava na rua, dormia nas calçadas. Vivia do que lhe davam.
Alguns juravam que tinha formação universitária, tendo sido professor da rede pública, o que na época era coisa da mais alta qualidade.
Ocorre que certo dia ele voltou para casa mais cedo e encontrou a mulher naquilo que Lupicínio Rodrigues descreveu como “nos braços de um outro qualquer”.
Foi quando começaram suas andanças pelo mundo.
Em Curitiba também tivemos malucos folclóricos e admiráveis. O mais genial e extravagante de todos foi Gilda, nome sob o qual residia Rubens Aparecido Rinque. Ele - ou melhor, ela – era divertida, dava gargalhadas e debochava de todo mundo, aprontando correrias ao ameaçar um beijo na boca de algum passante. Pintava os lábios com batom vermelho vivo, com o qual besuntava não apenas os lábios, mas seus arredores, produzindo um bocão exuberante.
Pois Gilda era alegre, muito antes que o termo gay se generalizasse. Era divertida, abusada, debochada, irreverente, desrespeitosa, lambendo os próprios lábios com gulodice, anunciando ser sedenta de sexo e de orgias. Encontrou a morte em 1983, talvez numa briga, numa casa abandonada da Desembargador Motta.
Gilda era amada por muitos, mas despertava a fúria dos machões e colocava em xeque o caráter provinciano da cidade.
Já o Esmaga era um homem pequenino, com cara de sátiro, cheio de malícia e astúcia. Circulava pela Boca Maldita a pedir trocados para tomar café. Conhecia a todos e era reconhecido por todos, entre eles governadores, políticos, intelectuais, artistas. Com sua fala malandra e seu sotaque ingênuo, protagonizou causos que causaram embaraços a poderosos de então, embora ele não fosse contestador do ponto de vista político. Um tipo esperto, que sabia das patifarias humanas naquele centro de fofocas que era a Boca Maldita. Sabia como desmontar poses de pretensos artistas, cineastas, escritores, políticos e picaretas em geral. Esmaga, sem eira nem beira, dizia e fazia coisas do arco da velha.
Hoje não encontramos nada de parecido. Ao invés de personagens que viravam pelo avesso os costumes e crenças urbanas, o que vemos são zumbis, fantasmas de si mesmos. Criaturas doentias, de roupas imundas, sacudindo-se com gestos mecânicos de robô, a circular de um lado para outro produzindo apenas espanto. Não sabem onde estão nem que cidade é essa, corpo e alma corroídos pelas drogas.
Os doidos de algumas décadas atrás faziam parte da vida de todos. Essas almas penadas atuais são destroços humanos dos quais não sabemos os nomes e o que representam, já que eles próprios não sabem quem são e o que suas figuras denunciam.




quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Saudades de Sérgio Porto e do Brasil





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Há quem tenha saudade dos tempos da infância, dos quitutes da vovó ou da primeira ida ao cinema. Mas há também saudades de coisas físicas que, com o tempero do tempo, se transformam em coisas metafísicas. O álbum de figurinhas, a bola de futebol que meu pai me deu imaginando alimentar o talento de um futuro craque.
Minha mãe era uma senhora hábil em coar o melhor café, além de criar um surpreendente pudim de leite moça. Até hoje não resisto. Um tanto pelo sabor e outro tanto para anunciar, ao termino da degustação, que minha mãe faria melhor. Era imbatível.
Mas a saudade da qual eu queria falar não era nem de coisas, nem de comidas, nem mesmo da vizinha chamada Marlene, professora de educação física. Aliás, tinha uma educação física notável. Moleque ainda, eu me pendurava na cerca e puxava conversa enquanto ela levantava uns pesos, corria e dava uns pulinhos cheios de graça. Um espetáculo.
O que me fez suspirar um profundo “ai, que saudade!” foi o reencontro com um livro que está comigo há muitos anos e, numa arrumação que estou fazendo, me caiu nas mãos.
O autor é Sérgio Porto, que se tornou mais conhecido pelo pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, sendo o compositor da notável marcha-rancho “O samba do Crioulo Doido”, sátira genial que tira sarro ao mesmo tempo dos temas e das letras dos sambas enredo e do estado de choque cultural em que se encontrava o Brasil em 1968, plena ditadura militar. Era um estado de confusão analfabética, digamos assim.
Aliás, um momento cultural semelhante ao que atualmente sofremos.
O livro é uma reunião de crônicas, misto de sátira e humor refinado, e leva o título de Garoto Linha Dura. Não é o melhor de Sérgio Porto. Ele escreveu outros, entre eles As Cariocas, reunindo seis novelas que mostram que não tinha apenas facilidade para criar textos de humor, sendo também um escritor de alta qualidade. O livro que o consagrou foi O Festival de Besteiras que Assola o País. Podemos imaginar como se divertiria tivesse à disposição o Brasil atual.
Faleceu ainda jovem, aos 45 anos, naquele fatídico 1968, fulminado por um ataque de coração.
O Garoto Linha Dura é o retrato de um tirano quando jovem: autoritário, aproveitador, um pequeno canalha. Um tipo violento e dedo duro capaz de atribuir aos coleguinhas de rua traquinagens que cometia.
Pois certa vez Sérgio trabalhava, debruçado sobre a máquina de escrever, quando, súbito, deu um pulo e correu até à janela. Gritou:
- Aí, careca!
O careca rodopiou, desconcertado, lá na calçada, e devolveu uma banana para ele, que retornou de imediato à máquina de escrever, no rosto o sorriso de quem havia cometido uma deliciosa molecagem.
Eis onde eu queria chegar. O Brasil perdeu o humor, perdeu o brilho e a graça. Já não podemos fingir que somos um povo alegre, capaz de fazer piada de tudo. Azedamos. Temos olhos em fúria. O dedo duro na cara do adversário. Um povo triste.
Em 1968, mesmo sob o choque da ditadura militar, sabíamos satirizar e sorrir. Hoje nem sabemos no limiar do que estamos. Todos querem vingança, custe o que custar.





terça-feira, 9 de outubro de 2018

O bom ladrão


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Começava a anoitecer, mas o caminho já era iluminado por algumas lâmpadas preguiçosas, dessas que fazem mais sombra do que luz. Os dois homens passaram um pelo outro e um deles, mais baixo e usando óculos, cumprimentou:
- Boa tarde!
O outro homem, alto e forte, parou num tranco e se aproximou:
- O senhor disse?
- Boa tarde. É verdade que é quase noite, mas...
- Tá bom. Olhe aqui.
O baixinho olhou na direção da cintura do grandão e viu um cabo de revólver.
- Um revólver? – o baixinho olhou em volta, mas correr não lhe pareceu um bom negócio, as balas seriam mais rápidas do que suas pernas; arriscou: Que mal lhe pergunte, vai fazer o quê com ele?
O outro sorriu:
- Assaltar o senhor.
- Mas isso...
- Sinto muito, doutor, mas tô precisado. O chato é que o senhor me deu boa tarde.
- Desculpe-me. Mas por isso vai me assaltar?
- Não – o grandão chegou a rir – Por isso estou em dúvida. O povo passa por mim e nem me vê, quanto mais dizer boa tarde.
O baixinho respirou aliviado:
- Desistiu, então?
- Não sei.
O baixinho aproveitou:
- Veja. Eu sai para caminhar, estou aqui de bermuda, camiseta e tênis. Não há o que roubar de mim. Que tal deixar para outro dia? Prometo trazer a carteira.
O sujeito tirou o revólver da cintura, olhou em volta e disse:
- Senhor é engraçado.
- Nem tanto.
- Dá boa tarde a quem não conhece, anda por aí quando está anoitecendo e não tem nada no bolso?
O baixinho suava frio, mas manteve a pose:
- Já ouviu falar em Pixinguinha?
- Sim. Eu toco cavaquinho no conjunto lá da vila.
- Pois então. Um dia ele foi abordado por um assaltante. Quando explicou que era o Pixinguinha, o ladrão desistiu do assalto. E Pixinguinha o levou para jantar na casa dele.
- O senhor é compositor?
O baixinho mentiu:
- Sou.
- Tem um rango legal em casa?
- Tem. Vamos lá?
Foi quando passou por eles um sujeito com uma pasta debaixo do braço.
O assaltante pediu:
- Espera aí. Vou ver o que tem naquela pasta e já volto.
O baixinho não esperou.








segunda-feira, 13 de agosto de 2018

As mulheres, sempre as mulheres







Nem o olhar mais distraído deixa de perceber que, entre os filósofos, as mulheres sempre estiveram, para usarmos de delicadeza, em segundo lugar.
Alguns deles foram acidamente críticos quanto ao chamado belo sexo. Schopenhauer dizia que seriam seres de cabelos longos e ideias curtas. Vale lembrar que ele é, entre todos os filósofos, o mais rabugento, sendo que a rabugice não é rara entre essas criaturas que se dedicam ao pensamento abstrato. Compreende-se assim sua aversão ao feminino. Afinal, mulheres são seres concretos. Muito concretos. Demasiadamente concretos, segundo alguns.
Lembro-me de uma charge de Millôr Fernandes na qual a mulher de Pitágoras lhe passa uma esculhambação:
- Mas que bobagem é essa que você rabiscou aqui na toalha de mesa?! Que droga é essa de que o quadrado da hipotenusa é a soma de não sei quê?
Se as mulheres são seres concretos, os filósofos são criaturas cuja cabeça parece errar (nos dois sentidos) quilômetros acima do chão no qual pisamos.
Como, graças aos céus, tenho leitoras do sexo feminino, devo alertar que não estou criticando essas doces criaturas – estou em sua defesa, por isso falo (sem duplo sentido) dos seus inimigos e as defendo como posso.
É bom lembrar que nascemos de uma mulher, tendo ficado nove meses em seu ventre, lugar seguro e quentinho e de onde fomos retirados a custa de muito suor e lágrimas. E cabe dizer que somos criaturas indefesas, salvos pelas mulheres de morte certa.
Vejamos. Entre os animais, os recém-nascidos têm como se defender. As girafinhas nascem com pernas enormes, mas de imediato se colocam de pé. Cães e macacos nascem sabendo nadar e as tartaruguinhas chegam ao mundo sabendo onde está o mar. E enfrentam as ondas com a classe de um surfista tarimbado. Um recém-nascido humano morre em seguida se não for acolhido pelo colo de uma mulher. Se depender de um homem, salvo casos raros, terá problemas.
Somados, passamos mais tempo junto delas do que deles – o que, devo admitir, é uma delícia.
Freud, sólido germânico, além de ter dito, já no final da vida, que não sabia o que queriam as mulheres, inventou de atazaná-las com suas ideias a respeito do que chama de inveja do pênis. Ou seja, as mulheres se sentiriam inacabadas e sem os poderes que um pênis lhes daria. Fantasias, é claro, delas e do Freud.
Como podem ver, acho que as mulheres foram um grande achado. Mas ando ruminando coisas na minha pobre cabeça. Me refiro ao tal empoderamento. Começa que, do ponto de vista estético, é um palavrão de mau gosto. É pesado, sólido, parece um bloco de concreto armado desabando em plena conversa.
Imitar o que há de pior nos homens não me parece boa ideia. Poder é coisa masculina e temo que seu sucesso permitiu aos homens compensar sua eterna dependência das mulheres. Sentem-se poderosos e posam de donos do mundo.
Enfim, as mulheres poderiam encontrar conceito melhor para garantir a sua, a meu ver, inegável excelência.
Em resumo, Schopenhauer e Freud não sabiam de nada.




quarta-feira, 1 de agosto de 2018

O mundo não começou quando você nasceu.







As frases feitas podem até mesmo ser interessantes em alguns casos, mas não é raro que escondam uma visão simplista do mundo.
No mundo pré-Facebook, acontecia de alguém comentar a respeito de um livro ou artigo de jornal e perguntar se os que participavam do papo haviam lido.
Como se vê, era um mundo diferente. As pessoas participavam de papos ao ar livre, geralmente em calçadas, sendo que algumas delas liam livros e os colocavam em discussão com os amigos.
Mas sempre havia na roda um tipo posudo, metido a leitor, que, enquanto os demais respondiam se haviam lido ou não, se emplumava e dizia:
- Já vi, sim.
Já viu? Como assim? eu perguntava, pois já nessa época eu era dado a perguntas impertinentes.
Ocorre que o tipo não aceitava dizer que não lera, mas também não podia se comprometer dizendo que lera, pois poderia se ver desafiado a falar sobre o livro.
Então, despistava. E, como era comum na época, acendia um cigarro e jogava a fumaça para o alto, desfazendo da conversa.
Hoje, lamento informar, a coisa continua a mesma, apesar das diferenças de época.
É o caso do famigerado "curtir" que acompanha textos e fotos no Facebook. Foi postado, por exemplo, um texto ou um comentário sobre um livro, discutindo tal assunto, e lá está o ícone salvador: curti. Basta aproximar o mouse e clicar. Pronto, curtiu. Não leu, é claro, embora alguns leiam. Não tem nada a acrescentar, mas faz de conta que está por dentro. Portanto, viu.
Sei de sujeitos que colecionam curtidas. Dizem:
- Meu post recebeu tantas curtidas.
E dizem isso com orgulho evidente. No mundo da rede é comum encontrarmos sites que tiveram curtidas na casa dos milhares e milhões. Claro, normalmente a respeito de bobagens. Questões mais sérias ou textos mais robustos não merecem tantas curtidas.
Assim segue o mundo. Dizem que Marx – o Karl, não o Groucho – ao ler as tragédias gregas, se surpreendeu com o fato de que, dois mil anos depois, tendo sido escritas em uma sociedade com estrutura e organização social completamente diferentes, ainda fossem inteligíveis, ainda sábias, ainda divertidas, capazes de nos comover, de nos levar ao riso ou ao choro.
Embora suas próprias teorias o impedissem de achar uma resposta, Marx humildemente reconhecia valor e sensibilidade rara nos escritores da Grécia clássica. Já os habitantes do século XXI, internautas entre eles, descartam a questão e fulminam o passado:
- Isso não é do meu tempo.
Trata-se de uma ignorância bestial. Para essas criaturas, o mundo iniciou no dia em que elas nasceram.
É por isso que para elas basta curtir.
Por exemplo: o sujeito curte uma foto – mas a foto é de um incêndio ocorrido em Portugal ou de um vulcão que explodiu na Guatemala. Isso significaria que curtiu o incêndio devastador, a desgraça havida, a arte do fotógrafo, ou apenas deixou um recado: “estive aqui”?
Creio que se trata do último caso. A ligeireza com que os olhos sobrevoam fotos e textos na internet, misturando datas e nomes ou aproximando ideias e conceitos irreconciliáveis como se fizessem parte da mesma lógica, é espantosa.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

O celular e o canivete suíço





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Talvez alguns leitores não saibam o que seja um canivete suíço, criado pelo cuteleiro Karl Elsener em 1894, sujeito que deveria ser muito ansioso, pois queria ter nas mãos todos os instrumentos que pudesse precisar.
Tento explicar.
Quando menino nossas brincadeiras eram como ondas no mar. Iam e vinham em moto contínuo. Mas, embora as ondas sejam previsíveis, as brincadeiras não eram. Surgiam do nada, contaminavam a todos, virando mania. Depois, sumiam.
Havia o jogo de clica (ou bolinha de gude), o pião, coleção de figurinhas, a pandorga (ou papagaio), futebol de botão, sendo que a única brincadeira que não vinha em ondas e nem sumia sem explicação era o futebol de rua, jogado em chão de barro, com qualquer coisa que se assemelhasse a uma bola. Enfim, uma festa.
Perdi o rumo.  Deixei de explicar o que era o canivete suíço.
Era canivete, mas não era só isso. Os donos de um canivete suíço gostavam de abri-lo com orgulho, demonstrando as suas várias funções. Podia ser saca-rolha. Ou tesourinha de cortar unha. Lixa de unha, lupa, serra, alicate e, além de outras mil utilidades, canivete.
Confesso, um tanto constrangido, que nunca me interessei pelo canivete suíço. Pode ser uma falha geológica na minha formação, mas nada posso fazer.
Mas lembro do entusiasmo dos meus amigos manipulando o canivete suíço com a agilidade e elegância com que John Wayne sacava o revólver. Felizmente era apenas um objeto para exibicionismo. Feria no máximo a pose do garoto adversário que tinha um canivete menos espetacular.
Pois estava eu a pensar nessas inutilidades quando me veio à mente o celular. Esse besouro irritante surgiu numa onda incontrolável que ainda não parou de crescer. Virou mania, pois todo sujeito que se preze tem o seu e o exibe como pode, grudando o nariz na telinha, desinteressado do mundo em volta.
Podemos imaginar um sujeito que não use cueca ou uma mulher que não use sutiã. Tenho um amigo que jamais usou calça jeans por ser inimigo jurado dos EUA. Mas não podemos imaginar alguém sem celular. No futuro, imagino, os seres humanos sofrerão uma mutação e, no lugar de uma das orelhas, lhes nascerá um celular.
Pois o celular tem, além desse caráter maníaco-obsessivo, outras semelhanças com o canivete suíço.
Ele pode ser um calendário - que antes era de papel e ficava em cima da geladeira. E pode ser relógio, que ficava no pulso, ou despertador, que dormitava na mesa de cabeceira. Mas também pode ser rádio, capaz de alcançar estações mundo afora. E também agenda com todos os endereços e telefones de seus contatos, sendo que hoje nenhum de nós sabe mais o número do telefone de ninguém.
Com ele fazemos compras e nem precisamos ir ao banco para cuidar de nossos trocados, escutamos música, vemos vídeos, assistimos a filmes, escolhemos roteiros no trânsito e também trocamos diálogos inconfessáveis que deixo aos leitores imaginar.
Mas tem um porém. O canivete suíço, quando era usado como canivete, funcionava. Capaz de cortar, picar fumo ou servir de arma. Já o celular, quando o usamos como telefone, é um verdadeiro desastre. Ronca, fuça, chia, guincha, desliga, congela.
E custa caro.