sábado, 23 de fevereiro de 2019

As palavras e os preconceitos





As palavras correm o mundo, faladas ou escritas. Há aquelas que são passageiras como o vento – batem asas e se vão. Há outras que estacionam nas conversas e, de tanto se repetirem, tornam-se cacoetes irritantes. Enfim, tal como os seres humanos, palavras são boas ou más dependendo de seu uso, oportunidade e senso do ridículo. Não são seres divinos.
O jornal O Pasquim colocou em circulação, no final dos anos 1960, uma dessas palavrinhas que tinha o poder de estabelecer parâmetros na conversa e deixar claro de que lado se estava e o que se pensava. Tratava-se do pontual “seguinte:”, assim mesmo, acompanhado de dois pontos. Vivíamos uma época em que era preciso estabelecer limites e clareiras entre os discursos que circulavam militarmente por aí, sendo também um pedido de direito à palavra.
Era uma época complicada.
Hoje há em circulação uma palavrinha-síntese da qual, devo confessar, não gosto muito. Trata-se do “entendo”. Todas as conversas são pontuadas por sucessivos “entendo”. Quando meu filho começou a usar essa expressão, confesso que levei um susto. De início me pareceu uma expressão demasiado dura e seca. Parece significar que já se entendeu tudo, ponto final. Conversando com meu filho e seus amigos, meu susto aumentou. A todo momento pintava um “entendo” na conversa e eu pensava: essa geração diz que entende; eu, com algumas décadas a mais nas costas, ainda não entendi nada.
Temos, assim, uma geração cheia de certezas que evita questionamentos mais refinados. E uma geração, ai de nós!, que cultivou a hesitação e a dúvida – e que até hoje não entendeu nada.
Há outras palavras que parecem sintetizar uma quantidade grande de pensamento, mas é só aparência. Me refiro ao termo afrodescendente.
Evitando complicar, diria que para pensar são necessários conceitos. De alguma maneira a filosofia não é mais do que a busca e o burilamento de conceitos, desde os pré-socráticos até Deleuze.
Ocorre que afrodescendentes é um não-conceito. É apenas noção descritiva.  Existem afrodescendentes, como meu filho, com pele claríssima, cabelos castanhos claros e crespos. Ocorre que meu bisavô era negro, donde eu e meus filhos sermos afrodescendentes. Mas os avós maternos de meu filho são italianos.
Desta forma, sendo noção descritiva nada tem de conceitual e que possa sustentar qualquer argumento inteligente.
E a razão é simples. Tal uso se baseia numa concepção racial do ser humano, sendo que raça é noção que foi abandonada por todos os cientistas sérios ao longo do século XX. Só os nazifascistas a levam a sério. E pensamento se faz com conceitos ou não se faz.
O que prova haver abuso da palavra é que o termo afrodescendente não estabelece parâmetros para nada. Foi o caso dos gêmeos ocorrido na seleção de alunos para ocupar cotas nas universidades. Um deles foi aceito como afrodescendente, e o outro, não. O grande argumento “científico” usado pela banca julgadora foi a cor da pele. De fato, um era mais claro. Como se vê, uma tolice.
A cor da pele não é conceito explicativo de absolutamente nada.





terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Lembranças de tio Mário









Todos o tratavam como tio Mário, numa época em que só os irmãos dos pais eram chamados de tios. Era casado com uma prima de minha mãe.
Um brasileiro autenticamente português, troncudo, cabeçudo, irascível, de humor rude. Poderia ter sido boxeador, pelo tipo e temperamento, mas era carpinteiro e católico devoto.
Excelente carpinteiro. Ao lado de sua modesta casa, que ele mesmo construíra, havia uma carpintaria. Uma mesa de trabalho sempre coberta de cepilho. Pelas paredes dependurava as ferramentas das quais ninguém podia se aproximar. Depois de anos fabricando móveis, agora trabalhava para a Igreja de Nosso Senhor dos Passos, ao lado do bairro Saco dos Limões, em Florianópolis.
Era carola como só se fazem em Trás-os-Montes. Homem de sizo fechado, mãos calejadas e fortes, tinha convicções inabaláveis, ou seja, todos os dogmas católicos e versículos da Bíblia. Não ria jamais – ou não me lembro dele rindo. Saía cedo para o trabalho e voltava ao final do dia, exausto.
Sentava num banquinho colocado no quintal da casa. Levantava as pernas das calças e sua mulher, a doce e miúda tia Celina, vinha lhe tirar as meias, deixando expostas as imensas varizes que transformavam suas pernas num enodoado de raízes, de veios e de veias, de nódulos e calombos – um território devastado. Tia Celina lavava suas pernas com algodão umedecido, passava pomadas enquanto ele mirava um ponto qualquer no infinito, fingindo não sentir dor e só movendo a cabeça quando nós, as crianças, passávamos em correria e aos berros. Ele resmungava:
- Essas pestinhas não ficam quietas!
Era um homem bom? Um homem mau? Não sei. Sei que era um homem carrancudo. Com certeza um homem triste. Tomado por convicções inamovíveis, tinha do mundo e dos homens ideias muito bem definidas.
Por exemplo: quando, em 20 de julho de 1969, Neil Armstrong pisou na Lua, tio Mário saiu do mutismo e soltou a língua. A razão era essa: o feito do astronauta abalava uma convicção que enunciava com o indicador em riste: o homem jamais chegará à Lua! E arrematava: como é que o homem poderá pisar num astro feito por Deus?
Eu, abusado, bati com os pés no chão de barro do quintal:
- Eu não estou pisando em uma coisa feita por Deus, tio Mário?
Ele bufou. Oscilou os ombros de boxeador, mas conteve-se. Foi se trancar na marcenaria. Americanos passeando na Lua era coisa de ateus.
- Esse astronauta dando pulinhos é truque de Hollywood!
Mas as lembranças mais fortes que tenho dele são as procissões. Tio Mário surgia numa imensa bata negra, segurando uma vela gigante, na procissão de Nosso Senhor dos Paços. No rosto, uma determinação absoluta e assustadora. Eu, naquela noite escura, respingada pelo tremular das velas, me encolhia junto à minha mãe. Era um espetáculo sinistro. Um Cristo esquálido retorcido na cruz, rios de sangue brotando dos ferimentos, enquanto mulheres entoavam em tom agônico cantos que pretendiam nos conduzir além das nuvens, ao domínio de anjos e santos, lá onde estariam os limites em que terminavam o mundo e as coisas sabidas pelos homens.

sábado, 26 de janeiro de 2019

É a lama, é a lama, é a lama.




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A tragédia ocorrida em Brumadinho fez com que eu lembrasse uma lição que foi dada a mim e a meus colegas de ginásio por um professor irrequieto e inteligente chamado frei Odorico Durieux, que lecionava língua portuguesa no colégio Santos Antônio, em Blumenau.
Nós fomos em comitiva perguntar ao frei Odorico se ele poderia nos dar aulas particulares, pois estávamos em segunda época e a situação era crítica.
O frade, que era dado a muitos cacoetes, empinou o charuto na boca, enfiou as mãos na manga da batina e de lá retirou um lenço, com o qual enxugou com aflição o suor do rosto e da careca brilhante. E disparou, furioso:
- Vocês não tomam jeito! Só depois de a criança cair no poço, pensam em fazer uma tampa!
Estava dada a bronca, com o que aceitou dar as aulas particulares que nos salvaram, pois naquela época reprovação era para valer.
Pois em Brumadinho ocorre esse fenômeno no qual o Brasil parece se especializar. As tragédias não apenas ocorrem com regularidade como repetem tragédias anteriores. Uma xerox do ocorrido ontem. Um clone do desastre anterior. Um cover do fracasso da véspera.
Em várias situações temos visto a reprise do mesmo filme. Brumadinho replica Mariana, que repete os desabamentos em Niterói, os viadutos que desabam em São Paulo, o incêndio na boate gaúcha.
Os leitores não estranhem misturar um desastre numa boate com o deslizamento de terras ou de lama. Ocorre que, em todos os casos – e são muitos – há a presença de um fator desencadeante único.
Por falta de um cuidado necessário, uma desgraça ocorre. Isso é comum no Brasil, onde se pensa mais em tirar foto da inauguração do que em preservar a integridade do que foi feito. Os bombeiros não vistoriaram a boate Kiss como deveriam. As barreiras não foram avaliadas conforme era norma, tanto em Mariana quanto em Brumadinho. O poço foi deixado sem tampa por alunos displicentes.
Muitos barcos naufragam no rio Amazonas, onde, no entanto, outros barcos continuam saindo rio afora nas mesmas condições de insegurança, sem salva vidas e com superlotação criminosa. E novos desastres ocorrem, é claro.
Não se trata de acidente, portanto. Acidentes são imprevisíveis. Um tsunami ou a explosão de um vulcão ou um terremoto surgem sem controle e sem previsão. Por isso são acidentais.
Essas tragédias brasileiras, aí incluídas quedas de viadutos, o incêndio de um prédio ocupado caoticamente por sem tetos, a boate atopetada de revestimentos altamente inflamáveis, são fatores controláveis aos quais não de se deu a atenção e o cuidado devido.
Mas há outro fator. A leniência não só das autoridades, mas da própria sociedade brasileira, que tem horror às punições. A Vale do Rio Doce, os donos da boate Kiss, os líderes oportunistas do movimento dos sem teto, quem atestou que as represas eram seguras, são os responsáveis pelas tragédias e devem ser punidos, o que não ocorreu nos casos anteriores. Agora será diferente?
Eis o que precisamos mudar no país. Não se trata de questão episódica que envolva picuinhas partidárias ou pseudo-ideológicas; é uma questão visceral, interna à sociedade brasileira, sempre imersa na leniente cordialidade tal como analisou Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil.
Enquanto não nos convencermos do valor central do cuidado com a coisa pública e da exigência de que a punição aos que a ferem tem que ser exemplar, estaremos sujeitos à censura de um pequenino frade franciscano chamado frei Odorico, meu professor.
- Tomem tento! ralhava ele.









terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Mitologias e Mitomanias na presidência brasileira




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Uma das características dos mitos é a banalidade. De tanto tropeçar neles, somos levados a julgar que são naturais. De fato, naturalizamos os mitos. Com o que eles adquirem vida própria.
Explicando o que penso: é nas fantasias que criam a respeito de si mesmas que as nações e os povos se retratam mais fielmente.
Penso em três figuras míticas criadas pelos brasileiros: Jânio Quadros, Fernando Collor e Jair Bolsonaro.
Jânio era apenas um tipo extravagante que naquelas eras anteriores à internet parecia circunscrito aos limites de São Paulo. Era hábil em fazer caretas e usava um vocabulário que seria música aos ouvidos de outro mito nacional, Rui Barbosa. Tratava-se de uma linguagem supostamente erudita, cheia de mesóclises, adornada com penduricalhos arcaicos e vocábulos raros, algo semelhante à gíria que falam os advogados em geral. Bebedor profissional, era um individualista. Não se filiava a nada nem a ninguém. Como se sabe, o mito é autossuficiente. Surgiu e desapareceu no cenário da política brasileira com a velocidade dos relâmpagos. Era muito jovem para um presidente, 44 anos.
Fernando Collor tinha os mesmos olhos fixos e nervosos de Bolsonaro. Olhar insano.  Chegou jovem à presidência, 40 anos. Era um desconhecido das longínquas Alagoas. Apresentava-se como um “caçador de marajás”. Encantou multidões, inclusive uma estação de TV poderosa. O que pensava e qual seu norte ideológico? Ninguém sabia. Sabia-se apenas que seria um caçador de marajás capaz de fazer uma limpa na política brasileira. O que Jânio ameaçara varrer com a sua vassourinha moralista, Collor faria com seu olhar incendiário.
O terceiro mito dispensou disfarces, catalogando-se como o Mito e arrastou seguidores e adoradores. Donde veio? Da caserna e de mandatos legislativos em seu estado natal, o Rio de Janeiro, que não tem produzido políticos de alto nível. Não tão jovem quanto os outros dois, chega à presidência com 63 anos. Tem língua solta, tal como Jânio e Collor, se bem que seu léxico e sua sintaxe não possam concorrer com o homem da vassoura, estando muitos degraus abaixo. Fala aos arrancos. Dispara chavões. Bem analisado, domina um vocabulário ralo e tem uma bagagem intelectual feita de verdades prontas, como soe acontecer aos egressos da caserna.
Esse mito tem origem paradoxal: se tornou possível pelas trapalhadas e vigarices do partido que acumulou o maior número de desastres em nossa história, o PT, sem o que seguiria circunscrito aos limites da Guanabara.
Bolsonaro não tem nada que possa ser considerado um ideário filosófico e político. Sustenta-se em máximas da direita, as mesmas que Trump adotou. Dispara frases e palavras, algumas óbvias, outras disparates. Mas todas ao gosto de eleitores que, carentes de tudo, agarram-se ao durão da vez.
Três extravagâncias que têm em comum a reencarnação do Sebastianismo, mito nacional que prolonga o mito português. Dom Sebastião, como se sabe, morreu em 1578 na batalha de Alcácer-Quibir. Ferido, seu corpo não foi achado, o que deu origem à crença de que estaria vivo e que voltaria para salvar Portugal. Nascia o mito do herói messiânico que iria redimir a nação.
Quanto a mim, lembro Millôr Fernandes: “País que precisa de um salvador não merece ser salvo”.





sábado, 8 de dezembro de 2018

Malucos e zumbis




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Há não muito tempo, cada cidade tinha seus malucos de estimação, com os quais a população convivia em paz. Eles faziam parte do folclore local.
Ainda criança, conheci um tipo desses em Blumenau. Era um mulato alto, forte, de rosto muito bonito. Carregava um saco de aniagem nas costas e todos o tratavam pelo apelido, Guarapuvu, nome de árvore notável pelo porte e beleza. Falava pouco, mas, quando falava, construía frases bem pensadas e elegantes, além de ter um vocabulário de muito boa qualidade.
No entanto, morava na rua, dormia nas calçadas. Vivia do que lhe davam.
Alguns juravam que tinha formação universitária, tendo sido professor da rede pública, o que na época era coisa da mais alta qualidade.
Ocorre que certo dia ele voltou para casa mais cedo e encontrou a mulher naquilo que Lupicínio Rodrigues descreveu como “nos braços de um outro qualquer”.
Foi quando começaram suas andanças pelo mundo.
Em Curitiba também tivemos malucos folclóricos e admiráveis. O mais genial e extravagante de todos foi Gilda, nome sob o qual residia Rubens Aparecido Rinque. Ele - ou melhor, ela – era divertida, dava gargalhadas e debochava de todo mundo, aprontando correrias ao ameaçar um beijo na boca de algum passante. Pintava os lábios com batom vermelho vivo, com o qual besuntava não apenas os lábios, mas seus arredores, produzindo um bocão exuberante.
Pois Gilda era alegre, muito antes que o termo gay se generalizasse. Era divertida, abusada, debochada, irreverente, desrespeitosa, lambendo os próprios lábios com gulodice, anunciando ser sedenta de sexo e de orgias. Encontrou a morte em 1983, talvez numa briga, numa casa abandonada da Desembargador Motta.
Gilda era amada por muitos, mas despertava a fúria dos machões e colocava em xeque o caráter provinciano da cidade.
Já o Esmaga era um homem pequenino, com cara de sátiro, cheio de malícia e astúcia. Circulava pela Boca Maldita a pedir trocados para tomar café. Conhecia a todos e era reconhecido por todos, entre eles governadores, políticos, intelectuais, artistas. Com sua fala malandra e seu sotaque ingênuo, protagonizou causos que causaram embaraços a poderosos de então, embora ele não fosse contestador do ponto de vista político. Um tipo esperto, que sabia das patifarias humanas naquele centro de fofocas que era a Boca Maldita. Sabia como desmontar poses de pretensos artistas, cineastas, escritores, políticos e picaretas em geral. Esmaga, sem eira nem beira, dizia e fazia coisas do arco da velha.
Hoje não encontramos nada de parecido. Ao invés de personagens que viravam pelo avesso os costumes e crenças urbanas, o que vemos são zumbis, fantasmas de si mesmos. Criaturas doentias, de roupas imundas, sacudindo-se com gestos mecânicos de robô, a circular de um lado para outro produzindo apenas espanto. Não sabem onde estão nem que cidade é essa, corpo e alma corroídos pelas drogas.
Os doidos de algumas décadas atrás faziam parte da vida de todos. Essas almas penadas atuais são destroços humanos dos quais não sabemos os nomes e o que representam, já que eles próprios não sabem quem são e o que suas figuras denunciam.




quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Saudades de Sérgio Porto e do Brasil





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Há quem tenha saudade dos tempos da infância, dos quitutes da vovó ou da primeira ida ao cinema. Mas há também saudades de coisas físicas que, com o tempero do tempo, se transformam em coisas metafísicas. O álbum de figurinhas, a bola de futebol que meu pai me deu imaginando alimentar o talento de um futuro craque.
Minha mãe era uma senhora hábil em coar o melhor café, além de criar um surpreendente pudim de leite moça. Até hoje não resisto. Um tanto pelo sabor e outro tanto para anunciar, ao termino da degustação, que minha mãe faria melhor. Era imbatível.
Mas a saudade da qual eu queria falar não era nem de coisas, nem de comidas, nem mesmo da vizinha chamada Marlene, professora de educação física. Aliás, tinha uma educação física notável. Moleque ainda, eu me pendurava na cerca e puxava conversa enquanto ela levantava uns pesos, corria e dava uns pulinhos cheios de graça. Um espetáculo.
O que me fez suspirar um profundo “ai, que saudade!” foi o reencontro com um livro que está comigo há muitos anos e, numa arrumação que estou fazendo, me caiu nas mãos.
O autor é Sérgio Porto, que se tornou mais conhecido pelo pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, sendo o compositor da notável marcha-rancho “O samba do Crioulo Doido”, sátira genial que tira sarro ao mesmo tempo dos temas e das letras dos sambas enredo e do estado de choque cultural em que se encontrava o Brasil em 1968, plena ditadura militar. Era um estado de confusão analfabética, digamos assim.
Aliás, um momento cultural semelhante ao que atualmente sofremos.
O livro é uma reunião de crônicas, misto de sátira e humor refinado, e leva o título de Garoto Linha Dura. Não é o melhor de Sérgio Porto. Ele escreveu outros, entre eles As Cariocas, reunindo seis novelas que mostram que não tinha apenas facilidade para criar textos de humor, sendo também um escritor de alta qualidade. O livro que o consagrou foi O Festival de Besteiras que Assola o País. Podemos imaginar como se divertiria tivesse à disposição o Brasil atual.
Faleceu ainda jovem, aos 45 anos, naquele fatídico 1968, fulminado por um ataque de coração.
O Garoto Linha Dura é o retrato de um tirano quando jovem: autoritário, aproveitador, um pequeno canalha. Um tipo violento e dedo duro capaz de atribuir aos coleguinhas de rua traquinagens que cometia.
Pois certa vez Sérgio trabalhava, debruçado sobre a máquina de escrever, quando, súbito, deu um pulo e correu até à janela. Gritou:
- Aí, careca!
O careca rodopiou, desconcertado, lá na calçada, e devolveu uma banana para ele, que retornou de imediato à máquina de escrever, no rosto o sorriso de quem havia cometido uma deliciosa molecagem.
Eis onde eu queria chegar. O Brasil perdeu o humor, perdeu o brilho e a graça. Já não podemos fingir que somos um povo alegre, capaz de fazer piada de tudo. Azedamos. Temos olhos em fúria. O dedo duro na cara do adversário. Um povo triste.
Em 1968, mesmo sob o choque da ditadura militar, sabíamos satirizar e sorrir. Hoje nem sabemos no limiar do que estamos. Todos querem vingança, custe o que custar.





terça-feira, 9 de outubro de 2018

O bom ladrão


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Começava a anoitecer, mas o caminho já era iluminado por algumas lâmpadas preguiçosas, dessas que fazem mais sombra do que luz. Os dois homens passaram um pelo outro e um deles, mais baixo e usando óculos, cumprimentou:
- Boa tarde!
O outro homem, alto e forte, parou num tranco e se aproximou:
- O senhor disse?
- Boa tarde. É verdade que é quase noite, mas...
- Tá bom. Olhe aqui.
O baixinho olhou na direção da cintura do grandão e viu um cabo de revólver.
- Um revólver? – o baixinho olhou em volta, mas correr não lhe pareceu um bom negócio, as balas seriam mais rápidas do que suas pernas; arriscou: Que mal lhe pergunte, vai fazer o quê com ele?
O outro sorriu:
- Assaltar o senhor.
- Mas isso...
- Sinto muito, doutor, mas tô precisado. O chato é que o senhor me deu boa tarde.
- Desculpe-me. Mas por isso vai me assaltar?
- Não – o grandão chegou a rir – Por isso estou em dúvida. O povo passa por mim e nem me vê, quanto mais dizer boa tarde.
O baixinho respirou aliviado:
- Desistiu, então?
- Não sei.
O baixinho aproveitou:
- Veja. Eu sai para caminhar, estou aqui de bermuda, camiseta e tênis. Não há o que roubar de mim. Que tal deixar para outro dia? Prometo trazer a carteira.
O sujeito tirou o revólver da cintura, olhou em volta e disse:
- Senhor é engraçado.
- Nem tanto.
- Dá boa tarde a quem não conhece, anda por aí quando está anoitecendo e não tem nada no bolso?
O baixinho suava frio, mas manteve a pose:
- Já ouviu falar em Pixinguinha?
- Sim. Eu toco cavaquinho no conjunto lá da vila.
- Pois então. Um dia ele foi abordado por um assaltante. Quando explicou que era o Pixinguinha, o ladrão desistiu do assalto. E Pixinguinha o levou para jantar na casa dele.
- O senhor é compositor?
O baixinho mentiu:
- Sou.
- Tem um rango legal em casa?
- Tem. Vamos lá?
Foi quando passou por eles um sujeito com uma pasta debaixo do braço.
O assaltante pediu:
- Espera aí. Vou ver o que tem naquela pasta e já volto.
O baixinho não esperou.