terça-feira, 16 de junho de 2020

O louco sempre tem razão

 Troubadours' look to inject Chesterton's joy, humor into a ...

Gosto muito de um autor inglês, Gilbert Keith Chesterton, que, sendo também um exímio humorista, era não apenas um grande escritor como um escritor grande. De físico volumoso e avantajado, se movia com a agilidade de um jovem potro, sobretudo quando se tratava de esgrimir com ideias.

Não é sem motivo que Chesterton tenha passado despercebido pelos quatro ou cinco leitores que restam no Brasil. Ocorre que, além de gordo, ele era confessadamente um conservador, um pensador católico – se autodenominava um católico ortodoxo – fiel às concepções filosóficas de Santo Thomas de Aquino, seu santo de devoção, que, aliás, era também um tipo muito gordo, de barriga imensa, tanto que em sua mesa de trabalho foi recortada uma meia lua na qual ele se inseria pacientemente para poder ler e escrever – caso contrário não alcançaria nem os seus livros nem seus lápis. É o que consta a respeito desse pensador em cuja obra Chesterton busca se ancorar.

Cabe aqui um parêntesis.

Certa vez estava eu escolhendo livros numa livraria (claro, me refiro a um tempo em que havia livrarias, ou seja, um lugar onde era possível pesquisar assuntos, livros e autores) quando chegou um amigo, professor de filosofia, que de imediato veio bisbilhotar um dos livros escolhidos por mim.

- Ah, lendo autores da direita!

Não digo o nome do professor porque é um grande amigo, embora vítima de um equívoco político que já vicejava robusto no Brasil de todos os equívocos.  Militantes acham que devem ler só livros com os quais concordam – a esquerda com seus prediletos e a direita idem. Pois eu acho o contrário, com o que já entro no motivo pelo qual comecei citando Chesterton. Ao amigo, respondi assim:

- Como no futebol, é preciso saber o que pensam os adversários.

Pois Chesterton está entre os meus adversários que mais admiro. É um homem culto, inteligente, intelectualmente honesto – e que tem todo o direito de discordar de mim, pobre mortal. Por isso fico estarrecido quando vejo políticos e militantes esbravejando xingamentos uns contra os outros, muitas vezes sem ter a menor ideia do que o outro está dizendo. Bastam os chavões, as palavras de ordem, os berros histéricos. Nesse circo dos horrores, as divisões são claras: de um lado está a verdade, do outro não há verdade alguma.

Tento me explicar melhor. Um dos jornalistas que eu mais admirei foi Paulo Francis, o feroz polemista. Seu texto era um ringue, sobravam diretos de direita e de esquerda. No entanto, eu discordava de 80% do que o Francis escrevia. Mas ele era brilhante e isso me bastava. Era com o que eu arejava minhas próprias ideias.

Agora vamos ao Chesterton. Grande criador de frases fulminantes que não eram jogos gratuitos de palavras, mas estocadas que sintetizavam longas reflexões, com o que ele combatia os medíocres lugares comuns que circulam nos debates políticos e filosóficos.

Um desses lugares comuns reza que o louco é alguém que perdeu a razão. Diante da obviedade, Chesterton tragava prazerosamente seu inseparável charuto e fulminava:

- Não. O louco é alguém que perdeu tudo, exceto a razão.

Como não se pensou nisso antes? O louco sempre tem razão. O louco sempre tem na ponta da língua a solução para todos os problemas do mundo. Seja para acusar os judeus de todas as desgraças que nos abatem, como para apontar os negros como raça inferior. O louco, com duas pequenas ideias coletadas em alguma apostila ou manual, acusa genericamente a todos que não pensam como ele. É simples. Ele está certo e o resto do mundo está errado. Axioma primeiro da cloroquina.

Aliás, é curioso. O socialismo, tal como idealizado no século XIX, fracassou, a não ser que achemos que China, Rússia, Venezuela, Cuba, sejam modelos de países socialistas. Portanto, a direita no Brasil combate um mero fantasma, que tem como utilidade criar a paranoia coletiva do medo do comunismo. Da mesma forma, a esquerda, viciada em suas razões, perdeu o rumo e está perplexa. Desde que uma de suas estrelas sapateou num palco declarando que odiava a classe média, ela calou-se e, pelo que parece, não reflete mais.

Direita e esquerda, que estupidificam o debate de ideias no Brasil, são nossos loucos preferenciais. Estão cheias de razão, tudo sabem e tudo explicam.

Diante do que Chesterton soltaria uma baforada irônica de seu charuto e diria:

- Estão vendo? Perderam tudo exceto a razão. Estão cobertos de razão.

Portanto, o louco não perdeu a razão. Ele perdeu a solidariedade, o convívio fraterno, o humor, o respeito ao outro, a generosidade, a empatia, o reconhecimento e a aceitação do outro, com suas igualdades e diferenças.

Enfim, o louco já não sabe o que é amar.

 

 

 

 


sábado, 23 de maio de 2020

Sabe o apelido de caserna do Bolsonaro?








Confesso que minha vontade seria continuar espichado no sofá lendo esse delicioso livro de Voltaire, O filósofo ignorante. Enquanto isso a chuva, nessa sexta-feira chuvinhenta, continuaria caindo lá fora, tricotando o silêncio escuro, filtrado pela luz anêmica de um poste.
Ocorre que escrever implica, nesses tristes dias que correm, em falar de figuras repugnantes que dominam a cena política brasileira. Essas inutilidades abjetas seriam ignoradas por nós, exceto se tropeçássemos neles em alguma ruela escura.
Bolsonaro, afinal, continua o mesmo - o que não é muita coisa e nem deve ser difícil para ele. Esbraveja, escoiceia, rosna, resmunga. É o campeão de grosserias e de perdigotos por minutos jogados sobre a mesa de reunião. Enfim, corresponde ao apelido que recebeu quando ainda era apenas um soldado a mais no quartel: Cavalão.
Eis aqui algo de interessante nesse deserto de ideias em que se transformou o Brasil. Os apelidos.
Ninguém sabe ao certo quem aplicou pela primeira vez o apelido em tal pessoa. Podem até circular anedotas a respeito, mas a verdade é que o apelido é obra coletiva, não tem autor nem assinatura. Mesmo quando existe um duvidoso autor a obra é coletiva, pois é preciso que o apelido seja consagrado coletivamente. E, podem observar, o apelido já nasce burilado, perfeito, acabado, pronto para o consumo por parte da chacota dos grupos onde se originou.
E eis aí o que eu quis dizer e que me interessa. Não a chacota, mas o apelido em si. São raros os que não são perfeitos. Eles caem bem como uma luva ou uma caricatura. Tanto que todos, ao saberem do apelido, se surpreendem: como não pensei nisso antes? Estava na cara, quer dizer, na caricatura.
Acontece que a caricatura, ao contrário da maioria dos retratos, é a verdadeira cara do retratado, a sua alma gráfica, a quinta essência de seu corpo e alma, pois tanto quanto o apelido fisga exatamente isso: a verdade do sujeito. Vale observar que, com o tempo, os caricaturados se tornam cada vez mais parecidos com as suas caricaturas. O exemplo no anedotário da história da pintura é o retrato de Gertrud Stein feito por Pablo Picasso. Durante semanas ele sofreu, fazendo e refazendo sem sucesso o retrato em intermináveis tarde de trabalho. Até que certo dia ele colocou algumas pinceladas aqui e ali e decretou: está pronto.
Gertrud saiu da poltrona onde estivera como modelo e veio olhar o quadro. Espiou daqui e dali, aproximou-se, afastou-se e, mulher decidida como sempre, não deixou por menos:
- Mas não parece comigo, Pablo.
Picasso observou:
- Não se preocupe. Com o tempo você vai se parecer com o retrato.
Eis aí. E foi o que se deu. Com o tempo Gertrud Stein se tornou parecidíssima com o retrato, que ela guardou com muitos cuidados, saboreando, como se fossem para ela, os aplausos que o quadro recebia.
No Brasil, Delfim Neto, esse ministro eterno da economia do país, acertadamente se envaidece e ama ser caricaturado. E, é fácil verificar, ele foi, com o tempo, se tornando cada vez mais parecido com suas caricaturas, que coleciona.
Pois o mesmo que se dá com os apelidos. Quando acertados eles grudam no personagem apelidado e não o largam mais. Apelido bom é para sempre.
A razão, como já disse, é simples: o apelido é a verdade, o indivíduo sem persona que o encubra, sem máscara que o disfarce.  Dele ninguém escapa.
No caso do Jair, segundo seus colegas de quartel, o apelido que nele se eternizou foi Cavalão. É a sua verdade. Cavalão. Seu ego verdadeiro e indelével. Aquilo que nenhuma maquiagem poderá disfarçar. Pode levar facada, ficar décadas incógnito numa cadeirinha de deputado estadual no Rio de Janeiro, ser eleito presidente, que o sujeito, quando bem apelidado, não se livra do próprio.
Continuará, de alma e de corpo, incorporando o apelido, que passa a ser o ego mais indelével de sua personalidade.
Pois tudo isso, nesta sexta feira que termina pluvimedonha, como diria Drummond, súbito percebo o sentido da pornográfica reunião de Bolsonaro e seus asseclas numa sala obscura do Alvorada. Ele está dando vazão a seu apelido de caserna, fisgando seguidores e cúmplices, espalhando-se país afora tal como o novo coronavírus.





domingo, 17 de maio de 2020

Fiquem calmos. Terminada a pandemia tudo voltará à mesma anormalidade de sempre.


quarta-feira, 25 de março de 2020

O Alienista rumo ao abismo





Região News - Jornal americano coloca Bolsonaro com Hitler em charge


  
Todo brasileiro deveria, antes de completar vinte anos, comprovar que leu a novela de Machado de Assis O Alienista, sem o que não poderia gozar de seus direitos de cidadão. Trata-se de obra excepcional e definitiva, o que é atestado, inclusive, pelas várias encarnações que teve na vida política brasileira.
O caso mais notório foi o de Delfim Moreira, que ficou no cargo de novembro de 1918 a junho de 1919. No entanto, comparado com os malucos que o antecederam e o sucederam, era uma espécie de maluco manso que súbito entrava num mundo paralelo e lá ficava a delirar inteiramente desligado do cargo para o qual fora eleito. Enquanto durasse o seu devaneio, ele era substituído por Afrânio de Melo Franco, pai de Afonso Arinos, que cuidava de papeladas, cerimônias, decretos, reuniões etc.
O Alienista é o que se pode chamar de obra perfeita. Escrevi sobre essa novela um ensaio que foi publicado como introdução à edição da Nova Fronteira, Rio, 2017. Obra-prima notável, é herdeira da tradição do romance picaresco inaugurada por A vida de Lazarilho de Tormes, (que traduzi para a L&PM) e parente da obra do mestre russo Gogol. Conta a história de Simão Bacamarte, que se imagina a grande encarnação do sábio que tem por destino dirigir os passos do povo, essa massa ignara.
Ele é possuído pela ideia fixa de separar razão e ciência, mas na verdade o que ele tem como obsessão é o poder, no caso, o da ciência e dos governantes. Com maestria, Machado não diz muito a respeito de seu personagem, não dá opiniões, apenas foca sua atenção de ficcionista em alguns traços do personagem, sobretudo seus olhos.
Os olhos de Simão Bacamarte faíscam, querem saltar de seu rosto feito dardos e ferir aqueles que julga doidos, espécie que ele pretende escorraçar de Itaguaí, onde pretende implantar seu projeto de governo.
Essa é a primeira aproximação possível entre Bolsonaro e Bacamarte, o olhar. A loucura salta de seus olhos, febris, delirantes, que enxerga no mundo o que bem entende. Vem daí o mergulho em sua obsessão seguinte: a distinção nítida e definitiva entre razão e loucura. A mesma separação com que opera Bolsonaro, utilizando-se dos termos direita e esquerda. A irrealidade do projeto de Bacamarte é a mesma que faz com que Bolsonaro lute, com pleno 2020, com fantasmas de outro século.
O aspecto destrutivo de Bolsonaro fica evidente no seu percurso político. Durante cinco mandatos de deputado foi mera curiosidade regional. Chegou à presidência da república de modo relâmpago, tal como um doido que o antecedeu, Collor. Do dia para a noite, se viu no Alvorada.
Sua concepção política, no entanto, que em Collor era a de um capitão do mato alagoano, é nele o de um tipo que foi forjado na caserna, um fruto de uma mentalidade arcaica que viceja no exército brasileiro. Nesse tipo se inclui o nacionalismo caricato, a concepção centralizadora do poder, o culto do homem providencial, o que no Brasil se junta ao mito de Dom Sebastião, o morto vivo que voltará da morte para salvar seu povo, origem de todas as concepções brasileiras totalitárias.
A isso se acrescenta uma mente vazia. Faz parte do folclore político brasileiro um grupo de anedotas que retratam o presidente Dutra como um homem muito burro. Penso não ser bem assim, mas Bolsonaro sem dúvidas é de uma incultura insuperável.
Veja-se a sua retórica. Antes de mais nada, seja qual for a plateia à qual se dirige, procede como um sargento dando ordens a um grupo de milicos. A voz é grossa, trovoada artificial que exige muito esforço, e seu tom é alto. Acho que é a mais perfeita expressão de sua inadequação ao cargo de presidente. É claro que Bolsonaro, precisaria aprender a diferença entre comandar uma nação democrática e uma tropa de subalternos. O berro não é boa retórica. Mas, egresso da caserna e sem ter buscado em outra parte luzes que pudessem iluminá-lo, Bolsonaro não consegue estabelecer uma distinção entre essas duas coisas.
Embora se diga democrata para efeitos eleitorais, sua visão de mundo, dos costumes, de religião, é atrasada e tacanha. Das mulheres, é sabido, tem uma visão de troglodita das cavernas.  O que imagina ser o papel de sua “família”, corresponde a um modelo mafioso que constrangeria Al Capone. No entanto, precisa se fazer de democrata, pois grupos mais flexíveis do exército não querem ver a corporação metida em nova aventura da qual sairá mais chamuscada do que dos idos de 1960-1980. Além disso, ele sabe que sua margem de controle do seu eleitorado é baixa. Tal como Collor uma boa percentagem dos que o elegeram não se sente obrigada a nenhuma fidelidade e precisam ser agradados continuamente. Daí que vocifere como Hitler nos eventos com seus iguais e busque (sem conseguir) ser malandro à maneira de Getúlio em outros espaços. Também não consegue.
Por isso sua relação com seu próprio partido, que fundou e se encarregou de esfacelar, é a pior possível. Um partido, seguindo a tradição brasileira, é uma limitação, menos ideológica do que de favores, acertos, acomodações etc. Por isso, Bolsonaro esfacelou o PSL pois se imagina uma fera indomável e sem freios. Mas teve que engolir o seu vice. Teve que engolir outras figuras mais ou menos “democráticas” que tratou de defenestrar assim que tomou posse. Fritou uma série deles, demitiu grosseiramente outros, foi o campeão em nomear e demitir a partir de escolhas fulminantes e incompreensíveis. A falta de nomes de categoria aceitável – que se afastam dele ou às quais não consegue atrair - nomeou ministros ignorantes (Educação), inoperantes (são tantos), oportunistas (Funarte e Secretaria da Cultura). Além disso, já sente um desconforto incontrolável com sua melhor indicação de ministro, o da saúde. Bolsonaro e seus filhos já não suportam um ministro que parece competente, que comporta-se com educação, falando com correção gramatical, que tem uma cultura, não só médica, respeitável etc. Luiz Henrique Mandetta irrita ao clã e seu chefão, mas é o homem marcado para morrer, sobretudo pelos acontecimentos de hoje, 25 de março.
Daí as contradições de atitudes, o abandono de partidários antes fiéis e elogiados (Bebiano), a defenestração de outros, com o que chegamos ao atual cenário constrangedor em que o ministro da Saúde diz uma coisa e Bolsonaro se coloca na TV, histérico, dizendo exatamente o contrário.
É a esquizofrenia do doidivanas. Dividiu seu partido, separou-se de amigos de velha data, dividiu seu ministério em fatias onde abriga um saco de gatos e se comporta como um timoneiro que leva a nave rumo ao desastre.



terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Noivado no sofá da sala. Regina e Bolsonaro




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O noticiário político brasileiro nos passa a sensação de que poderíamos nos ocupar de coisas mais importantes. Discute-se agora se Regina Duarte deve ou não assumir um cargo no governo, não se sabe se ministério ou secretaria, a decidir. Que importância tem isso? Nenhuma, me parece.
Regina é a mesma namoradinha do Brasil, embora entrada nos setenta anos. Sorri com certo exagero diante de dias tão sombrios. Fez alguns bons trabalhos na televisão brasileira e desde algum tempo se dedicou a dar declarações retumbantes, mas ambíguas, com o que oscilava de um lado a outro no espectro político.
Agora ela se junta de corpo inteiro à série de metáforas produzidas pela mente limitada do capitão e auxiliares. Bolsonaro, na ânsia de parecer popular e dando braçadas de afogado num vocabulário limitado, não fala em alianças, negociações, composições e debates, mas em namoros, separações, brigas de família, casamentos, divórcios. Nessa trilha, diz que está noivando com a Regina Duarte.
É constrangedor. Haverá algo mais ultrapassado e arcaico do que um noivado?
Repetem os jornalistas que se trata de uma nova polêmica. Como sempre, essas tais decisões “polêmicas” do capitão são largadas no ar às vésperas de alguma viagem ou feriado para que a nação se ocupe em ruminar tais dilemas, que nada têm de polêmicos. No Brasil, onde se está produzindo um achincalhamento tenaz da língua portuguesa, agora qualquer declaração grosseira, rude, constrangedora, passa a ser “polêmica”. Não se trata disso. São apenas grosserias ou falsos problemas. Dilemas de botequim.
Então, ficamos aqui esperando o que decide a atriz ou pelo que opta o capitão. Naturalmente, nada se sabe a respeito do que eles acreditam ser os problemas da cultura brasileira.
Além disso, é difícil imaginar que, havendo algum choque de opiniões, digamos, um avanço crítico mais ousado num filme ou peça de teatro, o coronel deixará de avançar seu óbvio ódio visceral a todo e qualquer pensamento mais refinado. O que fará então a atriz? Dará um sorriso e engolirá em seco? Fará de contas que não é com ela? O capitão dará declarações de que o relacionamento emperrou, mas que, como em todos os casamentos, momentos de conflito acontecem etc. e tal. Algo desse nível.
Ora, o Brasil tem problemas sérios na chamada área da cultua. Os museus, por exemplo. Sabemos que dezenas deles estão fechados. Outros estão às moscas e ameaçam caminhar na direção em que enveredou o Museu Nacional: um incêndio lamentável.
Há a questão das bibliotecas públicas, cada vez mais largadas à deriva. Como se sabe, há um percentual enorme de escolas que não têm nada que possa ser chamado de biblioteca. Ou seja, pretende-se que alunos aprendam a língua portuguesa sem ter acesso a bibliotecas decentes.
Some-se o teatro e o cinema nacional – do qual Bolsonaro, coerentemente, só conhece a Bruna Surfistinha. Teremos aqui um debate incendiário ou não?
No entanto, tudo isso apenas bordeja a questão mais profunda: continuaremos a ter de um ministério da cultura uma ideia meramente “dirigente” e “financeira” ou seja, censora?
Ora, o dirigismo cultural é algo tão nefasto quanto a censura estatal da produção artística. Não creio que o exemplo dirigista da era PT seja um caminho viável. Mas também não creio que seu oposto poderia ser alternativa ao império de burocratas que determinam, segundo o governo de plantão, o que se deve pensar, escrever, ver ou ler. A grande vacina a todos esses disparates que passam pelas cabeças de líderes da esquerda e de direita no Brasil – aliás, cabeças robustamente ignorantes – deve ser resumida numa palavra: liberdade. Mas será que nossos pequenos Hitlers ou Lenines estarão dispostos a se eclipsarem para que a cultura floresça com toda a sua intensidade?
Quem deseja colocar cabresto em atores culturais – venha da direita ou da esquerda – vai apenas repetir o que temos sofrido há tantos governos.
Em resumo, o polêmico não é sabermos se Regina Duarte deve ou não aceitar o cargo oferecido. A polêmica é se pensar quais caminhos são viáveis para um país com 11,3 milhões de pessoas com idade acima de 15 anos classificadas como analfabetas. Em outras palavras, como e quando poderemos agir culturalmente para superar o lugar lamentável em que nos encontramos?
O Brasil é um país de múltiplas faces, tendo sido formado por gentes vindas de todos os cantos do planeta, com visões e formas de expressão as mais diversas. Tais manifestações vieram se somar ao universo cultural dos indígenas brasileiros, vítimas de um desprezo absoluto por parte do atual governo. As posições tomadas pelo capitão com relação às terras indígenas, sendo a clara manifestação do seu limite intelectual: ele não tem a menor condição de entender o outro – e cultura implica respeitar o saber do outro.
Nesse sentido, o bolsonarismo não é capaz de dar uma direção à questão cultural, que para ele só tem uma solução coerente: o extermínio.
Assim, se Regina Duarte aceita ou não o cargo, ou o repassa a qualquer outra figura da baixa sapiência televisiva nacional, a questão não se resolve. Por um motivo simples: esse não é o problema.
Daí a sensação de La nave và, mito antigo que inspirou Fellini a produzir um filme extraordinário. O Brasil, infelizmente, é um país à deriva, que boia num oceano poluído e infestado de dejetos os mais diversos. Não sabe de onde veio e não sabe para onde vai.
Regina Duarte, na melhor das hipóteses, figurará nessa nave como uma Viúva Porcina destrambelhada a disparar gargalhadas histéricas diante das idiotices produzidas à sua volta.
Já na pior das hipóteses... bom, esperemos pela próxima “polêmica”.

 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Sem cultura e desastrado, eis Roberto Alvim




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O que há de bizarro nesse governo Bolsonaro não são apenas as medidas estapafúrdias relacionadas à questão do meio ambiente ou ao show circense diário do presidente – com direito a palavrões e expressões grosseiras, recheadas de falta de educação – ao sair para o “trabalho”, diante de uma claque amestrada de seguidores que soltam urros e guinchos de aprovação a cada patada desferida pelo capitão.
Há, nesse triste espetáculo que somos obrigados a assistir todos os dias, algo de mais grave e doentio.
Peço aos meus leitores para prestarem atenção ao penteado do capitão.
Para quem – supostamente – acabou de levantar-se e tomar um banho, o penteado do capitão encontra-se em perfeito e estudado desalinho. Mechas se derramam pela testa, caindo para o lado esquerdo e, a cada desaforo que dispara na direção de inimigos reais ou imaginários, seu topete joga-se de um lado para outro, dando uma ênfase furiosa a seus impropérios.
Notem os leitores que isso lembra muitas imagens feitas de Hitler. A expressão do rosto é sempre tensa e agressiva, os olhos jamais abandonam a tensão que dispara milhares de farpas. As mãos, no entanto, apresentam certo desacordo e, rígidas, oscilam de um lado para outro exprimindo uma fúria que mal se contém.
No caso do capitão, embora falte o bigodinho, lá está o topete esparramado sobre a testa, além dos olhos dardejantes.
É preciso perceber que aquele topete não está ali por acaso. Ele foi cuidadosamente desalinhado por algum auxiliar de imagem do capitão. Quem sai para o trabalho pela manhã em tal desalinho?
Ora, entre o modelo nazista de Hitler e a caricatura do capitão, há muita semelhança. Aquela semelhança buscada, estudada, arquitetada. O objetivo é óbvio: é preciso disseminar sinais e signos que despertem, nos seguidores fanatizados e na população em geral, a memória de um líder messiânico que anunciava mil anos de glórias que duraram alguns anos e terminaram na maior carnificina que o mundo já presenciou.
Mas, diante da ignorância política que está estampada nos uivos e gritos de seus seguidores, vemos que a intenção é incentivar a adoração ao novo messias e a suas “ideias”.

Vejamos agora outra imagem, que talvez pareça a alguns o contrário do que observamos acima, mas que na verdade é apenas a sua confirmação.
Temos diante das câmeras o individuo Roberto Alvim, secretário especial de Cultura do Brasil. Notem que está bem penteadinho, bem durinho no seu terno recém comprado. Os cabelos são poucos, é verdade, mas armam-se numa ondulação que lembra aquela que produzia topetes à base de laquê na década de 1970. Eis um homenzinho bem posto, arrumadinho, escanhoado com cuidado, olhos de quem está inebriado pelo próprio sucesso.
A impressão que resulta dessa figura limpinha e asseada é que se trata de um sujeito cordato, não é? Mas não é. Esse tipo teve o desplante de ofender com requintes de estupidez e insanidade a uma das maiores atrizes do Brasil, Fernanda Montenegro. No entanto, esse tipo aí está para dirigir os destinos da cultura brasileira.
Pois a selvageria de Alvim não foi apenas essa. Agora, num pronunciamento em vídeo, ele apropriou-se de uma das falas mais emblemáticas de Goebbles, o poderoso ministro de Hitler. Pois Alvim pinçou palavras do nazista para anunciar o que é seu projeto para a cultura brasileira. Disse ele: “A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional.” Palavras de Goebbles.
Diante da reação da parte inteligente do pais, inclusive de entidades que representam a cultura judaica entre nós, o arrumadinho Alvim tentou amenizar, alegando que a citação do nazista teria sido apenas coincidência.
Não foi, mesmo que o inculto Alvim pense assim. A expressão é nazista e ali está para anunciar, como o topete despenteado do capitão, que há um projeto nazista por detrás de destemperos e contradições do atual governo.
É esse desencontro que mostra ignorância histórica e falta de cultura do capitão e seus asseclas. Vale lembrar que o capitão, em passagem pela Alemanha, deu uma declaração que deixou o mundo (aquele alfabetizado, é claro) estarrecido. Segundo ele, Hitler seria socialista, portanto de esquerda, pois seu partido era Social Democrata.
Eis aí uma lavada e óbvia demonstração de burrice histórica.
Já o arrumadinho Alvim peca pelo mesmo mal. Alega não saber a extensão de seus atos. E cita um texto conhecidíssimo de Goebbles com a inocência de um colegial que fez xixi fora do combinado.
Então, cabe concluir que a situação atual do Brasil é muito mais grave do que aparenta ser. Hoje podemos dizer que o Brasil está voltando as costas a si mesmo, abandonando conquistas que custaram sangue, suor e lágrimas, em troca de uma concepção de política que é, além de fascista, grosseiramente ignorante.
É preciso então pensar que aquela claque que urra histérica aos ditos do capitão tende a se inflar e, se não forem alvo de uma crítica contundente, mergulhar o país numa nova era de trevas severas.
No momento, espera-se de Robert Alvim seja demitido. Mas isso não resolve a questão. Ele foi desastrado e talvez seja varrido pelo capitão. Mas as atitudes e ideias fascistas estão prosperando.



segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

O Festival de Besteiras – o retorno





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Sérgio Porto, notável escritor e humorista, também conhecido pelo pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, morreu em 1968. Estivesse vivo, teria um material inesgotável com o qual ampliar o seu levantamento a respeito do Brasil sob a ditadura Militar, o chamado O Festival de besteiras que assola o país, o trágico e hilário FeBeAPá.
Ocorre que o desgoverno Bolsonaro, sob os olhares atônitos da nação, segue no seu afã de fazer com que o Brasil retorne ao século XVI.
Não exagero.
Estava eu aqui me preparando para escrever algumas mal traçadas sobre as mais recentes asneiras produzidas por auxiliares de Bolsonaro, quando sou surpreendido pela nomeação para a presidência da Funarte do... quem mesmo?
Vejamos. No site de Dante Mantovani, agora presidente da Funarte, tudo está organizado para provocar suspiros de admiração pela trajetória do retratado.
Mas algo não funciona.
Diz o retratado pertencer à “comunidade paraguaçuense” tendo dado cursos sobre “vários instrumentos”. Não é muito,
Somos informados que, além de maestro, é coautor (embora não diga qual o nome do parceiro com o qual escreveu a obra) de dois livros que seriam best-sellers no site da Amazon.com, maior site de vendas do mundo, acrescenta.
Ocorre que na Amazon.com não há registro de uma das obras mencionadas, enquanto a autoria da outra é atribuída a Francisco Navarro Lara, que por sua vez não cita qualquer coautor. Francisco seria o autor, simplesmente, como consta da capa do livro.
Os livros seriam “Los Dez Mandamientos Del Director de Orchesta Del siglo XXI”, “El milagro de dirigir la Orchesta sin usar las manos” e “Vade Mecum de La Dirección Orchestal” , lançados, com presença dos coautores, em Huelva, Espanha, em 2015. Estes seriam os best-sellers vendidos pela Amazon.com.
No entanto, ao pesquisarmos a obra Vade Mecum de La Dirección Orchestal no site da Amazon recebemos uma resposta formal: “Nenhum resultado para Vade Mecum de La Dirección Orchestal”.
Não bastasse, o maestro alega que publicou dezenas de artigos nos seguintes veículos: “Jornal Folha da Estância (SP), Jornal O contemporâneo (SP), Jornal A Voz (SP), Revista Philologus (RJ), Revista Entretextos (PR), Revista Diálogos Musicais (Acre), Revista Coments (SP), Portal Si Vis Pacem, Site Mídia Sem Máscara”. Sem comentários.
A tudo isso se junta uma informação curiosa: o maestro, que se diz também filósofo, alega ter participado de um conclave para a Democracia, em Washington D.C., realizado pelo “prestigioso” National Press Club, onde esteve a convite do “filósofo” Olavo de Carvalho, de quem se confessa aluno desde 2012.
Sabemos que o National Press Club não é um local de grandes debates, mas sim um clube que dispõe de instalações e contatos que facilitam a atividade profissional de jornalistas. Segundo as palavras do próprio site do clube, trata-se de um local próprio para “o relax, a apreciação de um drink ou jogar cartas”. Ao que tudo indica, aluga suas dependências para eventos jornalísticos.
No mais o autointitulado maestro e filósofo tem programa na Rádio Mãe de Deus e faz comentários de cultura na TV Paraguaçú.
Vale assinalar que nunca exerceu cargos administrativos na área da cultura e não se destacou além dos limites interioranos por onde circula.
Enfim, Mantovani é mais um estrupício inventado com o evidente objetivo de desprestigiar áreas da cultura que Jair e seus filhos, por não terem a menor condição de entendê-las, odeiam. Esse ódio, como explicaria qualquer psiquiatra, tem origem em puro ressentimento. Um caso clínico, é verdade, mas trata-se de uma estratégia muito bem planejada que vem se repetindo em diversos órgãos governamentais, do Ministério da Educação à Funarte.
O alvo é óbvio: deseducar. A tática é semear a confusão levantando falsas polêmicas.