
Todo
brasileiro deveria, antes de completar vinte anos, comprovar que leu a novela
de Machado de Assis O Alienista, sem
o que não poderia gozar de seus direitos de cidadão. Trata-se de obra excepcional
e definitiva, o que é atestado, inclusive, pelas várias encarnações que teve na
vida política brasileira.
O
caso mais notório foi o de Delfim Moreira, que ficou no cargo de novembro de 1918
a junho de 1919. No entanto, comparado com os malucos que o antecederam e o
sucederam, era uma espécie de maluco manso que súbito entrava num mundo
paralelo e lá ficava a delirar inteiramente desligado do cargo para o qual fora
eleito. Enquanto durasse o seu devaneio, ele era substituído por Afrânio de
Melo Franco, pai de Afonso Arinos, que cuidava de papeladas, cerimônias,
decretos, reuniões etc.
O Alienista é o que se pode chamar de obra
perfeita. Escrevi sobre essa novela um ensaio que foi publicado como introdução
à edição da Nova Fronteira, Rio, 2017. Obra-prima notável, é herdeira da
tradição do romance picaresco inaugurada por A vida de Lazarilho de Tormes, (que traduzi para a L&PM) e parente
da obra do mestre russo Gogol. Conta a história de Simão Bacamarte, que se
imagina a grande encarnação do sábio que tem por destino dirigir os passos do
povo, essa massa ignara.
Ele
é possuído pela ideia fixa de separar razão e ciência, mas na verdade o que ele
tem como obsessão é o poder, no caso, o da ciência e dos governantes. Com
maestria, Machado não diz muito a respeito de seu personagem, não dá opiniões,
apenas foca sua atenção de ficcionista em alguns traços do personagem,
sobretudo seus olhos.
Os
olhos de Simão Bacamarte faíscam, querem saltar de seu rosto feito dardos e
ferir aqueles que julga doidos, espécie que ele pretende escorraçar de Itaguaí,
onde pretende implantar seu projeto de governo.
Essa
é a primeira aproximação possível entre Bolsonaro e Bacamarte, o olhar. A
loucura salta de seus olhos, febris, delirantes, que enxerga no mundo o que bem
entende. Vem daí o mergulho em sua obsessão seguinte: a distinção nítida e
definitiva entre razão e loucura. A mesma separação com que opera Bolsonaro,
utilizando-se dos termos direita e esquerda. A irrealidade do projeto de
Bacamarte é a mesma que faz com que Bolsonaro lute, com pleno 2020, com
fantasmas de outro século.
O
aspecto destrutivo de Bolsonaro fica evidente no seu percurso político. Durante
cinco mandatos de deputado foi mera curiosidade regional. Chegou à presidência da
república de modo relâmpago, tal como um doido que o antecedeu, Collor. Do dia
para a noite, se viu no Alvorada.
Sua
concepção política, no entanto, que em Collor era a de um capitão do mato alagoano,
é nele o de um tipo que foi forjado na caserna, um fruto de uma mentalidade arcaica
que viceja no exército brasileiro. Nesse tipo se inclui o nacionalismo caricato,
a concepção centralizadora do poder, o culto do homem providencial, o que no Brasil
se junta ao mito de Dom Sebastião, o morto vivo que voltará da morte para
salvar seu povo, origem de todas as concepções brasileiras totalitárias.
A
isso se acrescenta uma mente vazia. Faz parte do folclore político brasileiro
um grupo de anedotas que retratam o presidente Dutra como um homem muito burro.
Penso não ser bem assim, mas Bolsonaro sem dúvidas é de uma incultura
insuperável.
Veja-se
a sua retórica. Antes de mais nada, seja qual for a plateia à qual se dirige,
procede como um sargento dando ordens a um grupo de milicos. A voz é grossa,
trovoada artificial que exige muito esforço, e seu tom é alto. Acho que é a
mais perfeita expressão de sua inadequação ao cargo de presidente. É claro que
Bolsonaro, precisaria aprender a diferença entre comandar uma nação democrática
e uma tropa de subalternos. O berro não é boa retórica. Mas, egresso da caserna
e sem ter buscado em outra parte luzes que pudessem iluminá-lo, Bolsonaro não consegue
estabelecer uma distinção entre essas duas coisas.
Embora
se diga democrata para efeitos eleitorais, sua visão de mundo, dos costumes, de
religião, é atrasada e tacanha. Das mulheres, é sabido, tem uma visão de troglodita
das cavernas. O que imagina ser o papel
de sua “família”, corresponde a um modelo mafioso que constrangeria Al Capone. No
entanto, precisa se fazer de democrata, pois grupos mais flexíveis do exército não
querem ver a corporação metida em nova aventura da qual sairá mais chamuscada
do que dos idos de 1960-1980. Além disso, ele sabe que sua margem de controle
do seu eleitorado é baixa. Tal como Collor uma boa percentagem dos que o
elegeram não se sente obrigada a nenhuma fidelidade e precisam ser agradados continuamente.
Daí que vocifere como Hitler nos eventos com seus iguais e busque (sem conseguir)
ser malandro à maneira de Getúlio em outros espaços. Também não consegue.
Por
isso sua relação com seu próprio partido, que fundou e se encarregou de
esfacelar, é a pior possível. Um partido, seguindo a tradição brasileira, é uma
limitação, menos ideológica do que de favores, acertos, acomodações etc. Por
isso, Bolsonaro esfacelou o PSL pois se imagina uma fera indomável e sem
freios. Mas teve que engolir o seu vice. Teve que engolir outras figuras mais
ou menos “democráticas” que tratou de defenestrar assim que tomou posse. Fritou
uma série deles, demitiu grosseiramente outros, foi o campeão em nomear e
demitir a partir de escolhas fulminantes e incompreensíveis. A falta de nomes
de categoria aceitável – que se afastam dele ou às quais não consegue atrair - nomeou
ministros ignorantes (Educação), inoperantes (são tantos), oportunistas
(Funarte e Secretaria da Cultura). Além disso, já sente um desconforto
incontrolável com sua melhor indicação de ministro, o da saúde. Bolsonaro e
seus filhos já não suportam um ministro que parece competente, que comporta-se com
educação, falando com correção gramatical, que tem uma cultura, não só médica,
respeitável etc. Luiz Henrique Mandetta irrita ao clã e seu chefão, mas é o
homem marcado para morrer, sobretudo pelos acontecimentos de hoje, 25 de março.
Daí
as contradições de atitudes, o abandono de partidários antes fiéis e elogiados
(Bebiano), a defenestração de outros, com o que chegamos ao atual cenário constrangedor
em que o ministro da Saúde diz uma coisa e Bolsonaro se coloca na TV,
histérico, dizendo exatamente o contrário.
É
a esquizofrenia do doidivanas. Dividiu seu partido, separou-se de amigos de
velha data, dividiu seu ministério em fatias onde abriga um saco de gatos e se
comporta como um timoneiro que leva a nave rumo ao desastre.