quinta-feira, 8 de outubro de 2015

O incrível homem que não largava o celular








O psiquiatra olhou para ele, pigarreou, e pegou uma ficha. Pigarreou de novo e olhou significativamente para o celular na mão dele. Ele se fez de desentendido.
- Bem, explicou o psiquiatra, preciso preencher uma ficha com seus dados pessoais, algumas informações gerais, antes de começarmos. Mas, me perdoe, seria melhor se o senhor desligasse o celular.
Ele reagiu e segurou o celular junto ao peito.
- Não posso.
- Aguarda alguma ligação importante?
- Nunca se sabe, doutor.
- É verdade, nunca se sabe. Mas é preciso que desligue para podermos conversar...
- Esse é o problema.
O psiquiatra riu. Era desses psiquiatras que riem:
- Entendi. Não sabe como desligar. Eu tive um celular que eu não sabia desligar. Um amigo me ensinou como fazer – e estendeu o braço na sua direção: Quer que eu desligue?
Ele saltou da cadeira, segurando o celular com as duas mãos. Gritou:
- Não!
Foi um não que exigia um ponto de exclamação, tanto que ele pediu desculpas:
- Me desculpe, doutor. Eu sei desligar.
- Então?
- Mas não posso, não consigo.
- Nunca desliga?
- Não. Nem deixo de olhar para ele.
- Por quê?
- Nunca se sabe...
- Entendo, fez o psiquiatra.
Ele voltou a ocupar a cadeira, o celular na mão esquerda, a mão direita pronta para ajuda-lo na fuga caso o médico ameaçasse arrancar o aparelho de sua mão.
- Calma. Calma. Então, me explique umas coisas.
- Vou tentar.
- Vai ao banheiro com ele?
- Sim.
- Ao chuveiro também?
Ele balançou a cabeça: sim, embrulhado num saco plástico.
- Suponho que quando almoça...
- Ele fica em cima da mesa, mesmo nos restaurantes.
- E no cinema? – o psiquiatra afinal achou que ia vencer.
- Não vou ao cinema há uns dois anos.
- Por causa... – o psiquiatra apontou cautelosamente: ...dele?
- Por causa dele.
- No teatro nem pensar?
- Nem pensar.
- Entendo. E quando dirige?
- No bluetooth do carro.
- Ainda bem. E quando dorme?
- Eu durmo, ele não. Fica ao lado do travesseiro.
- E... – o psiquiatra achou que chegara a uma pergunta infalível: ...quando faz sexo?
- Ele também faz.
- Também?
- Na mão esquerda.
- E funciona?
- Não. Esse é o problema: minha namorada já não aceita. Quer colocá-lo na gaveta, debaixo da cama pelo menos. Não consigo.
- Deixou de fazer sexo, então?
Ele abaixou a cabeça, triste:
- Deixei.
- Nunca vi disso, sussurrou o psiquiatra.
- Nem eu, confessou ele.
- Muito sério o seu caso. Já não vai ao cinema, já não faz sexo. O celular sempre ligado.
- Isso mesmo doutor.
O psiquiatra respirou fundo, passou a mão no rosto duas vezes.
- Confesso que...
- Também não sabe o que fazer, doutor?
Foi quando os olhos do psiquiatra brilharam:
- Acho que sei.
Pegou um bloco, uma caneta e escreveu alguma coisa.
- Meu remédio, doutor?
- Não, não. Nada de remédio.
O psiquiatra lhe estendeu a folha que sacou do bloco:
- Esse é o meu telefone. Ligue para mim.
- Quando, doutor?
- Agora.
- Agora?
- Agora.
O tratamento afinal pode começar. Mas cinema, teatro e sexo, nem pensar.




Um comentário:

  1. guilhermina moeckel cavalli11 de outubro de 2015 22:11

    Nessa vida já tão cheia de encruzilhadas, mais do que uma solução, um dilema: o celular.

    Nem se trata mais do simples tê-lo ou não tê-lo. (Mesmo aqueles que mais resistiram acabaram sucumbindo.) Trata-se do como usá-lo. Se é verdade que nunca se falou tanto com pessoas à distância, também é verdade que nunca se ouviu tanto silêncio entre pessoas na mesma sala, ou numa fila qualquer, ou ao redor de uma mesa.

    Sua história é uma delícia! Cômica, irônica e com um desfecho surpreendente. Aliás, sem desfecho, como deve ser uma boa história: cada leitor que imagine o que ocorreu depois.

    Diverti-me muito com a narrativa. Mal conseguia segurar o riso. E não creio ter sido a única... Muitos leitores devem ter-se lembrado de fatos hilários vividos com celulares à cabeceira...

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