segunda-feira, 6 de julho de 2015

O pseudodebate político brasileiro e Saramago.





O Brasil vive um momento de inversão de qualquer racionalidade política e intelectual.
Como dizia Tom Jobim, trata-se de um país de ponta cabeça.
Tomo três exemplos para ilustrar.
O Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, dia desses confessou ao país e em particular à presidente não suportar mais as pressões recebidas de membros do PT e de empresários investigados pela Lava Jato. Antes dessa confissão pública, seu mal estar já era evidente nas falas tortuosas e no gestual agoniado de Cardozo.
Então, destaque-se o seguinte.
Os petistas e empresários que o pressionam manifestam um comportamento antidemocrático que ignora qual é a organização e as relações entre os três poderes. Primeiro, são poderes independentes. Segundo, tentar interferir seria praticar uma ilegitimidade constitucional.
É claro que petistas e empresários, bem como os membros do próprio governo, podem ter sobre a Lava Jata a opinião que desejarem, mas não podem se imaginar acima da constituição para impedir julgamentos, investigações e decisões tomadas legitimamente por outros poderes.
A presidente, por seu lado, sempre que fala nas investigações em curso, coloca, em seu discurso sofrível, uma quantidade de restrições, tais como “seletividade” por parte da PF, ou a advertência de que delações não são provas. (Todos sabemos disso, professora.) Além da comparação grotesca entre interrogatórios sob a ditadura militar e as delações feitas ao juiz Moro.
Além disso, pretende denunciar que não vê andamento algum em processos ou investigações contra o PSDB. Ora, o PT está no poder há mais de três mandatos. Por que não fizeram andar as investigações? Devo confessar que desejaria que todas as denúncias, incluídas aquelas levantadas contra o PSDB, trouxessem ao debate público todas as falcatruas possíveis. Corrupção e roubalheira de qualquer parte devem ser investigadas e punidas, ponto final.
A não ser que admitamos a hipótese absurda de que há um complô uníssono do judiciário contra o executivo, é de se desconfiar que faltem argumentos jurídicos que permitam tais processos. Ou compadrio, quem sabe.
Já o ex-presidente Lula faz as habituais declarações tortuosas e descabidas. A pior delas: Dilma não teria pulso forte para colocar o judiciário nos trilhos. Ele imagina que teria. Pensa assim porque imagina o poder do presidente como algo residente acima da constituição. A seu ver, presidente deve ser um imperador absolutista. Deveria atropelar o outro poder.
Ora, além de desejar que o PSDB também responda por eventuais bandalheiras, me sinto no direito de exigir que o ministro da justiça seja deixado em paz e que faça cumprir a lei, no caso, que o processo ande de forma absolutamente legal. O que está sendo feito.
E que Dilma assuma a defesa da punição daquilo que chamou, num eufemismo casuístico e oportunista, de “malfeitos”. Malfeitos; mais conhecidos como crimes, roubos, corrupção. Como não faz isso, vive escondida, não sai à rua, não dá entrevistas coletivas. Só fala em eventos controlados e para plateias domesticadas. E anda de bicicleta. Tal como Cardozo e Lula, seu discurso é cada vez mais contorcionista – e não só com relação à língua portuguesa, mas com a lógica mais elementar.
E o PSDB? – estaria perguntando algum petista que suportou me ler até esse ponto. Pois processem, denunciem, tragam a público. Milhões de brasileiros, eu entre eles, bateríamos palmas. Seria mais uma chance do país se redimir de seus erros.
Como não é feito nada disso, o país vai à deriva, tal como a Nau dos Insensatos. O que se chama de debate político se transformou numa troca de palavrões e xingamentos, onde se confunde palavrões com conceitos e xingamentos com argumentos. E adversários políticos são vistos, de lado a lado, como inimigos a serem abatidos a pauladas, numa concepção de disputa política similar à lógica doentia das famigeradas torcidas organizadas.
Saramago, a quem admiro como ficcionista e como entrevistado, quando esteve certa ocasião no Brasil, deu um fecho brilhante a uma entrevista. Perguntado sobre qual conselho daria aos brasileiros, ele respondeu na bucha, sem hesitação, com a dureza própria de um sólido lusitano que dá socos nas batatas para preparar um “bacalhau ao murro”. Eis o conselho de Saramago:
“Decidam-se!”
Enquanto isso não é feito, a nau segue à deriva e todos assistimos a um circo político de faz de conta.
Muito triste.

PS: Notem que nem falei do congresso nacional. Fica para a próxima.







2 comentários:

  1. Um desabafo inteligente, Roberto.

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  2. Infelizmente o momento é triste e sem perspectivas de melhora a médio prazo. O PT, além de institucionalizar a corrupção, institucionalizou o besteirol. Quando o Lula fala suas besteiras a gente até pode achar engraçado. Afinal, trata-se de um coitadinho sem diploma, como ele mesmo se autodenomina. E folclórico, acima de tudo. Todavia, a Dilma é irritante e o Cardozo um pobre diabo sem jogo de cintura. Talvez o pior ministro da justiça que o País já teve. Todo indício de corrupção deve ser profundamente investigado e o PT, certamente não a inventou. Apenas tentou encontrar nela a sustentação financeira para o seu projeto de poder. Dessa forma, a institucionalizou. Até onde se sabe, os focos de corrupção em que aparecem filiados ao PSDB, por exemplo, são casos de pessoas físicas corruptas, que roubaram em proveito próprio e não da instituição a que servem. No caso do partido do atual governo, acontece o contrário, a instituição mandou roubar a as pessoas físicas aproveitaram as rebarbas. E que rebarbas!

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