terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

A teoria conspiratória das coisas que enguiçam







Sempre julguei que a minha atrapalhação habitual explicasse o fato de que meus papéis, minhas anotações, meus livros, meus óculos e o celular, bem como as contas a pagar e documentos de qualquer natureza, volta e meia sumissem. Depois de tantos anos e profundas meditações, já não penso assim. A culpa é das próprias coisas.
Elas se mexem, se escondem, jogam-se atrás da escrivaninha, enfiam-se no vão do sofá, entram nas páginas de um livro que eu nem estava lendo e passam a dormitar por lá enquanto eu procuro onde, afinal, anotei o endereço de que preciso.
Vejam o celular. É uma espécie de besouro neurótico.
Apita – normalmente quando não deve – tremelica, recebe ligações de número que desconhecemos, some com nossas mensagens. É verdade que eu o largo em qualquer lugar da casa, exceto a geladeira, e quando preciso dele não o encontro. Só então uso esse outro objeto neurótico, o telefone fixo, animal em extinção, para achar o celular. Disco para ele. Toca, toca, diz que não pode atender, eu que deixe recado. Como deixar recado para mim mesmo, ainda que de graça, como diz a gravação? Volto a ligar. Nada. Só então, após revirar a casa e as gavetas e as mesas, o sofá e a cama, é que me lembro de que pode estar no carro, quatro andares abaixo, na garagem. Não seria a primeira vez.
Acertei. Lá está ele, quieto. Não sei como desceu tantas escadas para se ocultar justo ali, no canto mais escuro. Já aconteceu, certamente ao me ver chegando, de mergulhar para baixo do banco e lá ficar de tocaia. Só consegui retirá-lo do esconderijo com a ajudar de uma lanterna e de um lápis.
Para ficarmos no celular, tenho notado que ele tem sido tomado por impulsos suicidas. Deixei-o em cima da mesa da sala e, lá da cozinha, escutei seu chamado histérico. Estava passando um café, esperei. Foi quando escutei o estrondo. O neurótico, que além de assobiar tremelica quando me chama, deslizou pela mesa e se atirou no chão. Infelizmente não se quebrou todo. Esparramou bateria e tampa pelo chão, mas, remontado, funcionou.
Mal, é claro. Celular sempre funciona mal.
E essa é uma das características das coisas: elas conspiram. Nunca acontece de queimar uma só lâmpada na casa. Quando queima uma, outra chega ao fim. Ou o ferro de passar roupa não funciona. Ou a televisão perde o sinal. Ou o rádio é invadido por ruídos meteóricos. Ou o celular, sempre ele, perde-se no ar em busca de uma rede que não encontra.
As coisas – eis o princípio – agem em conjunto, conspirando.
Mesmo os livros, essas criaturas tão dóceis e amigas, muitas vezes entram em conluio com as coisas em geral, sobretudo se uma diarista resolve espaná-los e os enfia em qualquer vão de estante, o que faz com que livros de fotografia convivam com livros de história, os de filosofia com aqueles de música. Dia desses peguei um encontro inusitado, num canto remoto de prateleira, entre Minhas tristes putas, do Gabriel Garcia Márquez e uma biografia de São Francisco de Assis.
Temos, portanto, enguiços de eletrodomésticos, sumiços de celulares, livros que se homiziam, como dizem os repórteres policiais, em lugares indevidos e não sabidos.
Mas não para por aí.
Tenho aqui no apartamento um cano ou uma junta qualquer que resolve volta e meia pingar no apartamento abaixo. A moradora me deixa um recado por debaixo da porta: “Está pingando de novo!!”, assim mesmo, com duas exclamações, o que indica um certo limite de paciência.
Pois tem mais: só pinga quando ela vai ao espelho se pentear. Bem na cabeça. Diga-se que são pingos miúdos, de frequência incerta e humilhante, justo os mais incômodos. Não abro mais a torneira suspeita, passo a usar o outro chuveiro, informo à vizinha que tomei providências. E lá vem novo bilhete: “Continua!!”
Volto a usar a torneira e o chuveiro, o encanador vem inspecionar. Os pingos cessam. Impossível localizar de onde vêm.
Na última ocasião o encanador levou um mês para descobrir a origem do vazamento. Tratava-se de uma falha em algo chamado rejunte, que foi remendado. Deixou de pingar. Mas agora voltou. E, é claro, já não sei onde se enfiou o papelzinho onde anotei o telefone do encanador.
Tudo isso comprova minha tese de que há uma conspiração em andamento. As coisas conspiram, seja por cansaço de tanto nos servirem sem reconhecimento ou por mera molecagem.
Certa ocasião, numa viagem, começou a chover e eu tentei acionar o limpador do para-brisa. Nunca havia apresentado defeito, mas resolveu não funcionar. A chuva aumentou. Parei no acostamento e um sujeito fez o mesmo. Vai me ajudar, pensei. Ele veio, olhou, perguntou o óbvio:
- Não funciona o limpador?
E eu:
- Não. E logo agora que começou a chover.
O sujeito me deu um tapa nas costas, brincalhão:
- E você queria o quê? Só enguiça quando chove.
E voltou ao seu carro e se mandou, às gargalhadas.
Não fiquei irritado com ele. Tratava-se de um sábio, conclui. Desde então adotei a teoria da conspiração das coisas que enguiçam. Não há outra explicação.




4 comentários:

  1. Crônica excelente. São coisas que acontecem com todo mundo sem exceção. Só faltou dizer que os celulares são mentirosos, ou melhor, contam meias-verdades. Quando ele diz para deixar recado, que é de graça, não acredite. É grátis para quem deixa a mensagem, mas não para quem a recupera.

    Deixando o celular de lado, vou-lhe contar o que sucedeu comigo duas semanas atrás, na praia, mas não conte pra ninguém. Eu estava sozinho e lá pela meia-noite fui tomar um banho. Entrei no banheiro e só então percebi que não tinha recolhido a toalha que havia deixado na sacada, de manhã, para apanhar sol. Como havia chovido à tarde, fui até a sacada para pegar a peça certamente encharcada, e já pensando em ir buscar outra no guarda-roupas. Para minha surpresa a danada não estava sobre a poltrona de plástico onde eu a havia deixado. Então pensei que a tivesse recolhido. Fui até o cabide atrás da porta do meu quarto, onde a penduraria em condições normais de sanidade, mas nada. Voltei à sala, olhei em todas as cadeiras e lá também não estava. No quarto da minha filha também não, assim como na área de serviço. Retornei à sacada e concluí que ela poderia ter voado lá de cima, sugada por um furacão na hora da chuva, enquanto eu me encontrava fora. Olhei atentamente para baixo, vasculhado todos os cantos da frente do prédio, inclusive o alto da palmeira. Não vi nada. Então desci pensando em encontrá-la antes que alguém o fizesse, se é que já não tinha feito. Lá embaixo, procurei no jardim e na rua. Nada. Lamentei então o prejuízo, mais psicológico do que financeiro pois tratava-se na minha toalha de estimação. Portanto, não era uma toalhazinha qualquer.

    No dia seguinte, perguntei ao zelador se por acaso não a tinha encontrado e guardado. Disse que não.

    Passei os dias seguintes tentando entender como é que um vento, por mais forte que fosse, teria manobrado para arrancar minha toalha e lançá-la ao ar para que um felizardo a encontrasse sabe Deus onde. Não dava para entender. O vento teria que vir de cima, sobre a mureta de proteção, ir até o chão e levantar a toalha quase um metro, para que ela transpusesse o gradil de alumínio, sobre a mureta, que serve de guarda-corpo. Hipótese provavelmente impossível por todos os ângulos que se examinasse, de cima para baixo e de baixo para cima.

    Os dias passaram e nenhuma pista da toalha. Na véspera de vir embora decidi passar um aspirador caprichado em todo o apartamento. Ao chegar no quarto da minha filha, fechei a porta para alcançar melhor o canto atrás dela. Sabe, Roberto, quem estava faceiramente pendurada no cabide do lado interno? Acertou. Ela mesma, a toalha. Como ela foi parar lá, se eu entrava naquele quarto apenas para abrir e fechar a janela? Não sei. Vou perguntar para a Heineken.

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    1. guilhermina moeckel cavalli21 de fevereiro de 2016 14:19

      Como naquela crônica anterior (e deliciosa) do Gomes, sobre as formas de saudade – e peço-lhe licença para repetir suas próprias palavras quando a comentou –, também aqui “Duvido que alguém passe em branco.”.

      Pois há algum tempo, convidada para um casamento, lembrei-me de um traje que, feitos uns ajustes, poderia ser reaproveitado. Modelo clássico, tubinho e casaquinho, tecido de festa, bastava deixar curto. Não precisaria comprar roupa nova; na minha idade, há que pensar muito no custo/benefício...

      Assim, fui direto ao guarda-roupa. Cabide na mão, a surpresa: só o casaquinho! Cadê o vestido? Virei o guarda-roupa. Virei o quarto. Virei a casa. Nada!

      Fui à lavanderia, casaquinho em punho pra servir de referência quanto à cor, ao tecido... Quem sabe se? Cliente mais ou menos frequente, conhecem-me pelo nome: – Não, dona Guilhermina, não está aqui!

      E lá fomos ao casamento, eu e meu casaquinho solitário sobre um pretinho básico tomado emprestado.

      Passou-se o tempo e esqueci.

      Um belo dia, limpando armários, muitos panos e uma escadinha, lá, bem na prateleira de cima de um deles, invisível aos olhos de quem mede metro e meio, uma sacola dessas bonitas, ganha com algum presente. Dentro, entre outras coisas que me nego a referir, o vestido!!!

      Mistééério!!!

      Tranquilizada, não pensei mais sobre o assunto; o importante é que o achei bem a tempo de levá-lo para encurtar. Ficou novinho em folha para o jantar de meus 50 anos de casamento!!!

      Agora, lendo a crônica do Gomes e a sua (muito mais que um comentário, é outra crônica), voltei a pensar no vestido. Como fora parar lá na sacola? Desde quando? “Em algum lugar do passado” já pensara em levá-lo à costureira? À lavanderia?

      Pior é que nem posso pedir ajuda à Heineken!... Não nos conhecemos pessoalmente...

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    2. A Heineken é uma moça maravilhosa, mas pode causar alguns contratempos a seus admiradores. Abraço, Guilhermina, e obrigado pelas generosas palavras.

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  2. Adriana (Abramczuk) Stevkovski24 de fevereiro de 2016 04:04

    Adriana Stevkovski Ai que susto que levei agora !! Enquanto lia esse texto, flagrei meu próprio celular tentando escapar de mim. Coloquei-o o na janela de meu escritório pra conseguir captar sinal para envio de mensagem. Estou na Alemanha diga-se de passagem. Simmm !! Aqui também existem esses contratempos tecnológicos. O envio da mensagem é acusado com o som agudo que vem de dentro do coracaozinho dele., fazendo-o vibrar. Caiu da moldura da janela, o coitadinho. E o meu coracao pulou de susto. Mas agarrei-o a tempoe lhe disse: "voce fique ai quietinho, só sai daqui quando eu te botar na bolsa, viu ? NA BOLSA!. Se eu te esquecer no final do expediente, ve se pula rapidinho pra dentro dela!"

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