domingo, 12 de outubro de 2014

As dores de Dolores




Rubens (1577-1640)- Vénus ao espelho, óleo sobre madeira



Dolores se viu no espelho.
Deu um passo para trás, virou o rosto para a direita e para a esquerda. Alisou o pescoço, sorriu, fez uma careta. Concluiu que precisava de uma arrumação na pele. Aliás, não só na pele, mas no corte e na cor dos cabelos, nas roupas que usava, no desenho das sobrancelhas.
E, sem a ajuda do espelho, decidiu que precisava recauchutar seu próprio nome.
Aquele nome a incomodava não era de hoje. Há anos pensava em trocá-lo por outro, mais vivo, mais alegre, que combinasse com ela. Não se sentia na pele de Dolores alguma, menos ainda daquela Dolores na qual se tornara. Mas qual seria a Dolores na qual se tornara? Não sabia. Passou o dia inteiro pensando naquilo e só ao final da tarde lembrou-se de uma entrevista em que uma atriz explicava como mudara de nome e de vida consultando uma numeróloga. Era isso. Procuraria uma numeróloga. Começaria por aí.
Esqueceu o assunto por dois dias e, na manhã do terceiro dia, ao ver-se de novo no espelho, resolveu: era hoje. Conseguiu o telefone da numeróloga com uma amiga, marcou hora e lá se foi. Era pra lá de Campo Comprido, pois esse pessoal que lê cartas, tarô e lida com numerologia costuma morar longe.
A mulher – gorda e grande, com um turbante escandaloso e lábios vermelhos – anotou seu nome, sua data de nascimento, fez umas contas e decretou:
- Tem razão. Esse nome não combina com você. Serve para outras mulheres, mas não para você. Dor, Dolores, não pode dar certo. Por isso continua solteira.
- Solteira e infeliz, comentou, penalizada consigo mesma.
- É esse nome... Lembra da Dolores Duran?
- Lembro.
- Um caso parecido. Vamos dar um jeito. Não há o que a ciência da numerologia não conserte.
Saiu de lá faiscando de felicidade com as indicações da numeróloga, que lhe mostrou cálculos, números cabalísticos, consultou as cartas do tarô e remexeu nas letras de seu nome até chegar a uma conclusão. Anotou seu novo nome num papelzinho. Ele abriria seus caminhos rumo ao sucesso e à felicidade, afirmou a numeróloga. Recomendou que o papelzinho fosse guardado por sete dias junto ao seio.
Estava selada a mudança. Agora se chamava Lory.
Mas não ficou nisso. Sentindo-se uma nova mulher, trocou de cabelereiro e de corte de cabelo, fez um tratamento de pele doloroso, arrebitou o nariz, apertou as narinas e estufou os lábios com um cirurgião plástico, o que lhe custou uma fortuna. Mas estava feliz. Quando se sentiu livre das marcas da plástica, foi ao shopping. Queria exibir ao mundo e a todas às amigas a sua transformação.
Andou de um lado para outro, enfrentou corredores, entrou e saiu de lojas que costumava frequentar esperando ser admirada pelo novo nome, pelo novo rosto e pelo novo destino. Mas aquele povo estava ocupado em vender e faturar. Ninguém notou nada.
Foi quando ouviu um grito:
- Dolores, minha querida!
Era Clara, amiga que não via há algum tempo.
- Que bom te encontrar, Dolores!
Clara examinou-a de alto a baixo e, antes que pudesse revelar que agora se chamava Lory, a amiga lascou:
- Que beleza, Dolores! Você não muda nunca!
Ela desabou nos braços de Clara, aos prantos.




Um comentário:

  1. gui moeckel cavalli19 de outubro de 2014 08:40

    Quem me apresentou Roberto Gomes foi Eulália, na crônica de 25/09/2011. Desde então, não perco uma. (Provavelmente já lera outras, mas nenhuma me tocou daquele jeito.)

    Agora vem uma Dolores (que ainda não usa óculos, como Eulália, mas também tem um espelho) descontente com o que nele vê.
    Se uma esconde os óculos, outra surpreende e vai à luta.

    Obrigada, cronista, pois suas mulheres - sejam eulálias, matildes ou dolores - sempre refletirão um pouco da mulher de nossos espelhos. E todas nos mostram que, com ou sem óculos, com ou sem transformações exteriores, continuamos as mesmas em essência.

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