terça-feira, 27 de setembro de 2011

Os óculos de Eulália





A filha, Anita, observou a mãe, Eulália, diante da televisão. Curvada para a frente, os olhos espremidos, a testa enrugada, as mãos apoiadas nos braços da poltrona como se fosse saltar na direção da tela.
- Mãe, cadê seus óculos?
Eulália olhou-a irritada. Lá vinha a filha perguntar de novo pelos seus óculos. Anita adquirira nos últimos tempos essa mania de controlar tudo que fazia, aonde ia, como andava, se estava com a coluna reta ou torta, se tossia ou gemia ao se abaixar.
- Não sei, disse, fingindo-se de desentendida. Por aí.
- Por aí, onde, mãe?
- Por aí, fez ela, aproximando-se da televisão e apertando os olhos.
Anita levantou-se e se colocou entre ela e a tela.
- Que foi? perguntou Eulália.
- Os seus óculos sumiram já faz uns seis meses. Não se faça de boba.
- É. Mais ou menos isso. E daí?
- A senhora precisa usar óculos, mãe.
- Ah, deixa eu ver a novela! Sai da frente.
- Só se me prometer uma coisa.
Eulália jogou-se contra o encosto da poltrona, vencida:
- O que você quer dessa vez?
- Que a senhora vá comigo ao oculista.
- Por quê?
- Porque a senhora está precisando.
- Precisando o quê?
- Enxergar direito.
- Enxergo muito bem. Estou vendo a novela, não estou?
Anita perdeu a paciência, disse que ia caminhar, aproveitar aquele final de tarde com sol. Perguntou:
- Quer caminhar comigo?
- Deus o livre! Quero ver a novela. Sabe o Carlos Alberto?
- Não, não sei, não assisto novela.
- Acho que ele vai...
Furiosa, Anita saiu porta afora.
Eulália ficou sozinha e, mesmo tendo Carlos Alberto aparecido na tela e se aproximado de Ana Maria, não prestou atenção na televisão. Quem sabe Anita estivesse com a razão, pensou, olhando para a porta por onde ela escapulira furiosa.  A filha tinha manias de solteirona, mas a verdade é que andava preocupada. Talvez ainda continuasse solteira só para cuidar dela. Eulália levantou-se da poltrona e foi em busca de um copo de água. Quando alcançou a porta da cozinha, ouviu um grito e se virou para a televisão. Uma sombra escura, Carlos Alberto, se debruçava sobre uma sombra vermelha, Ana Maria. Que grito estranho, pensou. Essa Ana Maria é cheia de fricotes, devia aceitar de uma vez casar com Carlos Alberto. Ou seria o Aguiar, o crápula, que entrara em cena?
Eulália aceitou fazer os exames no oculista. Quando os óculos ficaram prontos, ela sentou na frente da televisão e viu que de fato já não enxergava quase nada. Lá estava a casa de Carlos Alberto, os móveis, os quadros na parede, a paisagem vista pela janela. O rosto perfeito de Ana Maria. Como eram belas aquelas cores, pensou ela. E saiu pela sua própria casa, olhando para tudo com uma surpresa de criança. O retrato de Anita quando menina sobre a cristaleira. A cortina, o tapete, lá fora no jardim o pé de goiaba. Seu Alípio atravessando a rua. Suspirou. O banheiro com seus ladrilhos floridos, a cortina de plástico rosa. O espelho no corredor.
Eulália parou na frente do espelho e ficou estática. Curvou-se para a frente e viu um rosto cansado, marcado por rugas e manchas. O olho esquerdo parecia derramado para o lado. Os cabelos, ralos, eram fiapos espetados no ar. Meu Deus, pensou ela, como estou velha e feia.
No dia seguinte, na hora da novela, Anita deu pela falta dos óculos.
- Mãe, cadê seus óculos?
- Pois não sei, minha filha. Sumiram.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O preço do livro eletrônico é extorsivo


 
Divido com muita gente o fato de ser um apaixonado por livros. Por isso passei a vida às voltas com livros e, além de escrever alguns, editei uma boa grande quantidade deles.
O livro – essa coisa física - me parece uma das realizações mais geniais do ser humano. Pode ser ele mesmo uma obra de arte primorosa e, ao mesmo tempo, ser portador de uma obra de arte. É prático, é simples, é companheiro, viaja conosco, dorme ao nosso lado, está disponível para ser consultado em qualquer ordem ou lugar – e sem precisar de bateria ou de tomada elétrica por perto.
Costumo dizer que se na prometida vida após a morte não existir uma boa biblioteca, tô fora.
Apesar desse apego ao livro físico em papel, acho ótimo o aparecimento do e-book. Já escrevi nesse blog que o e-book não substituirá o livro em papel. É outra forma de apresentar textos e imagens. Em algumas coisas supera o livro em papel: podemos armazenar um número enorme de livros num leitor e carregar conosco uma biblioteca; a consulta por palavras é mais rápida, mais simples e mais segura. Mas tem suas desvantagens: o leitor no qual ele é lido jamais poderá ser chamado de obra-prima e em sua tela não poderemos apreciar obras de arte em termos de tipografia e de reprodução de imagens com a qualidade que se alcança em papel. Etc.
No entanto, o e-book veio para ficar e a meu ver é bem vindo.
Mas está havendo certa bandalheira na venda de livros eletrônicos. A bandalheira à qual me refiro não se deve ao e-book como tal, mas à atração que o ser humano tem pela ladroagem.
Vejam bem. Tomo como exemplo a Autobiography, de Mark Twain, livro que espero ler em breve. No site Amazon, a edição em papel – que o site diz custar oficialmente 34,95 dólares – está sendo oferecida por 21,29 dólares. Em reais (tomo por base o dia 14/09/2011) R$ 59,85 e R$ 36,46, respectivamente. Sendo em formato para e-book, custa $ 11,79, ou seja, R$ 20,04.
Como se vê, o livro eletrônico custa mais da metade do livro em papel. Me parece um absurdo. Afinal, no livro digital só sobra do livro em papel – ainda que seja o principal - o texto. Sem papel, sem impressão, sem acabamento, sem capa, sem distribuição, estocagem, transporte, correio ou embalagem. É caro. Caríssimo.
A coisa fica ainda mais absurda se compararmos com o preço cobrado num site brasileiro, onde o mesmo livro de Mark Twain, em formato digital, custa R$ 42,09 reais. Ou seja, mais do que o preço cobrado no site Amazon pelo livro em papel.
Encontrei vários outros exemplos, todos confirmando o preço extorsivo. Não vou cansar os leitores com um bando de números. Apenas noto que, salvo engano meu, na maioria dos casos o preço do digital supera os 50% do livro em papel. Achei apenas um exemplo contrário digno de nota: a edição italiana da Divina Comédia, de Dante, que em papel pode ser adquirida por 24,50 euros e, em forma digital, por algo entre 0,99 euros e 5,25 euros.
Isso me lembra o preço cobrado pelos softwares - da Microsoft e de outras empresas. Sempre me pareceram extorsivos, em muitos casos justificando a pirataria. Como é que se pode cobrar, por exemplo, $149,99 por uma cópia do Office Home and Student 2010? São 256,89 reais! E se você quiser o Office Professional 2010 terá que desembolsar $499,99, ou seja 857,33 reais! Por uma coisa que é vendida aqui no Brasil e nos confins da China, em Paris tanto quanto em Angola! Além do fato de todo preço acompanhado de vírgula 99 me parecer uma afronta à inteligência do comprador.
É demasiado por algo que se vende – via download - mundo afora após um clique de um mouse! Mesmo considerada a criação do programa e a estrutura de atendimento, o preço é exagerado.
O preço dos e-books, portanto, está seguindo a lógica dos softwares: são cobrados preços arbitrários e absurdos. Extorsivos.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Quando menos se espera




Fuma outro cigarro. Com cuidado, buscando prolongar o tempo, sem pressa alguma. É preciso alongar os minutos, repete mentalmente, sentado no banco junto ao jardim do hospital, ao lado de um cinzeiro enorme, no qual deposita as cinzas com cuidado.
A sua frente, pequenas palmeiras. Mais adiante, o gramado no qual estão espetados alguns pinheiros raquíticos e envelhecidos. Fica com pena dos pinheiros – parecem frágeis e fatigados. Ele próprio se sente cansado, embora não se sinta velho. Sabe apenas que está ali a esperar. A esperar coisa alguma, é verdade.
Esmaga o cigarro no cinzeiro e olha para a rodovia que passa além do gramado. Fica por vários minutos assim, quieto, sem pensar em nada, vendo os carros passarem numa velocidade que lhe parece despropositada. São muitos carros, alguns buzinam, outros ultrapassam – tudo é nervosismo naquela rodovia, ao contrário do prédio branco e enorme no qual ele se encosta e continua a esperar. Pensa em acender outro cigarro, mas decide que seria um exagero. Chega de fumar. Agora passam caminhões, vários deles, enormes e resfolegantes, como se combinassem avançar sobre a rodovia todos ao mesmo tempo. Perto deles os carros lembram camundongos.
Estica as pernas, ajeita das costas contra a parede e segue sem pensar em nada. Um caminhão solta no ar uma coluna negra de fumaça. Um automóvel buzina furioso. E, para seu espanto, um ciclista surge na pista, dando pedaladas insistentes, talvez inúteis. São inúteis, decide ele.
Inútil como sua espera por coisa alguma.
Lá dentro do prédio branco, ele sabe, uma mulher de 87 anos fala sem parar. Não se entende o que ela diz, exceto algumas palavras soltas. Ela respira com dificuldade e suas mãos não param quietas. Mãos que buscam agarrar algo inexistente, vibram no ar, não desistem. Repetem os mesmos gestos, voltam a afastar a coberta, tentam retirar a sonda que mergulha em seu braço.
Viu aqueles gestos e palavras inúteis se repetiram ao longo da noite. E, como num milagre, lembra agora que num certo momento a mulher de 87 anos o olhou e sorriu. O mesmo sorriso de sempre. Há algo de moleque naquele sorriso. É a mesma? Fala com ela, pergunta se sabe que ele é.
Ela aprofunda o olhar, torna-se séria e chora. Ela o reconheceu. Quando chora é sinal de que o reconheceu.
- Quem é este que está aqui? pergunta a enfermeira.
O rosto da mulher vence o choro e diz:
- Meu filho.
Aquelas palavras são comemoradas com aplausos. É a mesma, pensa ele.
Mas logo as mãos voltam a se contorcer desencontradas embora ele descubra, sob a pele fina devastada por hematomas, sinais dos dedos delicados, da mão hábil e de traços refinados, que eram capazes de fazer bordados, crochê, vestidos, tricô, anotações em caligrafia elegante em pedaços de papel. Mas é preciso não se iludir: não esperar coisa alguma.
Acende outro cigarro. Os caminhões voltam a se precipitar sobre os automóveis. Os automóveis voltam a fugir desesperados ao longo da pista. Estranhamente, ele não ouve seus roncos, sua vibração, as freadas – lembra um filme mudo, movimentos puros.
Uma enfermeira surge no corredor. Carrega uma bolsa de plástico e sorri. Ele sorri também. Calcula que já se passaram uns vinte minutos, deve voltar ao quarto. Esmaga o cigarro fumado pela metade, levanta-se e dá dois passos na direção do gramado que, apesar do tumulto de carros e caminhões ao fundo, lhe parece um cenário idílico, como se naquele verde ele pudesse caminhar para sempre.
Respira fundo e fecha os olhos. É preciso esperar, pensa. Esperar coisa alguma. Um amigo lhe dirá, dois dias depois, que passou pela mesma experiência, algo como um pesadelo sem fim. Imitação dos carros na rodovia. Sucessão de gestos e movimentos que não vão a lugar algum. Como os pinheiros tristes que contempla por um tempo que parece não ter fim.
Sobe as escadas, avança pelo corredor, a mesma agonia o aguarda no último quarto à direita, onde a noite simula um túnel do tempo. No entanto, ele aguarda. Quando menos se espera, o sorriso que viu ainda menino.

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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O espírito punitivo das gramatiquices



Medeiros e Albuquerque, notável jornalista e ensaísta, escreveu – lá pelos anos 1930 –  um belo livro de memórias chamado Quando eu era vivo, hoje só encontrável em sebos, onde aliás encontramos os melhores livros, banidos que foram das metálicas e iluminadíssimas megastores.
Pois conta o autor que certo dia encontrou Machado de Assis na Rua do Ouvidor e comentou que nomeara um certo Valentim para lecionar língua portuguesa na Escola Normal que dirigia, pois o tipo não apenas sabia escrever como sabia ensinar a escrever. Magalhães estava irritado com os professores de português que faziam descambar o ensino para a aprendizagem da gramática. Valentim tinha ainda uma vantagem: desconhecia toda a rebarbativa e complicada tecnologia gramatical.
Machado ouviu, sorriu galhofeiro e perguntou:
- Por que você não me nomeou?
Os dois riram. Na ironia do Bruxo, muita sabedoria.
De fato, quando esbarramos, na mídia brasileira ou nas salas de aula, com professores gramatiqueiros ou supostos ensinadores de língua portuguesa, já sabemos o que nos espera: um sujeito que vai colocar um dedo punitivo diante de nosso nariz.
Há um renomado gramatiqueiro nacional que distribui seu dedo acusativo com simpatia, de forma jeitosa, numa coluna que circula Brasil afora. Em suma, o que diz ele? Não é assim, é assado. Não se escreve assim, se escreve assado. Aqui concorda desse jeito, ali daquele outro. Esse verbo se conjuga dessa maneira. Esse adjetivo concorda com tal coisa e não tal outra. E assim vai.
Sempre o dedo acusativo. A caça ao erro. O erro é a grande ideia força dos gramatiqueiros. Se, por alguma mágica sobrenatural, o erro sumisse de nossas vidas de pobres usuários da língua portuguesa, esses sujeitos ficariam desempregados.
Na televisão também há quem fale de língua portuguesa, mas sempre para descobrir o erro e apontá-lo com obsessão. As conversas muitas vezes são simpáticas, os exemplos costumam vir de letras da MPB – cada vez menos de textos de escritores brasileiros – mas o erro está sempre lá, feito um holofote cego, cobrindo tudo com sua luz sombria.
Até mesmo alguns linguistas, que costumam ser brilhantes por outras razões, caem na armadilha. Há quem se especialize em apontar não apenas os erros, mas os erros de quem aponta erros. E haja encontrar interpretações errôneas das regras gramaticais, concordâncias equivocadas, ortografias esquisitas.
Digo tudo isso porque tenho visto, meio por acaso, programas a respeito de língua em televisões de outros países. E notei uma coisa curiosa.
Num programa francês, por exemplo, um sujeito com gravata borboleta e ares de grande felicidade, fala de expressões correntes na língua. Pega um texto de Molière, cata uma expressão popular, explica o que ela significa, como ela funciona, como foi usada ao longo dos tempos e por diversos autores, explora seus vários sentidos. Vemos então que tais expressões mudam de uso ou sentido conforme a época, o local, os autores, o tipo de texto. E o apresentador conclui sempre com uma espécie de elogio a essa diversidade.
Nada sobre ortografia, graças a Deus. Nenhum erro apontado. Fala-se das virtudes da língua francesa.
Noutro programa, dois sujeitos dialogam em torno de um dicionário. O humor é a tônica. Viram e reviram palavras, riem dos seus sentidos e ambiguidades, brincam de montar e desmontar expressões linguísticas. E tiram daí vários ensinamentos preciosos, entre cambalhotas com as palavras.
Sem apontar um só erro. Descobrindo palavras como se fossem – e são, sabemos disso – algum tipo de brinquedo muito divertido.
Há ainda um programa, na Itália, em que se procura criar desafios a partir de textos de autores cujos nomes – ou obras, concepções, períodos literários – devem ser descobertos a partir de seus textos. O público, formado por jovens estudantes, se diverte e aprende.
Ninguém aponta erros. Nenhum dedo acusa o desastrado usuário da língua.
Machado de Assis e Medeiros de Albuquerque estavam cobertos de razão.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

‘cabou a faxina. Tá limpo?



O governo brasileiro continua a oferecer tristes espetáculos a quem ainda tem paciência para ficar de olho no poder.
Agora, a tal faxina. Postei aqui no blog, no dia 9 de agosto, um comentário sobre a farsa. Como já conheço a turma, coloquei em dúvida o ímpeto faxineiro que tomou conta da presidente. Agora, apenas duas semanas e pouco depois, já sabemos que a dona Dilma recolheu seu avental, seu vassourão, o balde com água e detergente, e anunciou ao país que tem mais o que fazer do que cuidar de corrupção. Retesou o dedo autoritário e disse que seu compromisso é com a “faxina da miséria”.
Menos mal. As cobranças de faxinas anunciadas de corrupção podem ser questionadas  a qualquer momento, enquanto que o anúncio de uma faxina da pobreza ou da miséria, é coisa que paira no ar, rarefeita como nuvem.
Mas há razões mais sólidas para que dona Dilma tenha recolhido seu escovão. Como se sabe, uma bandalheira descoberta esclarece outra, um ladrãozinho pego aqui denuncia outro mais adiante, o fato é que, de corrupto em corrupto, a gente vai deslizando dos associados ao PR para aqueles do PMDB e – benzódeus! – do PT.
Aí não pode.
Dona Dilma precisou recolher a escova e o sabão. Como iria escovar o lombo de indicados e partidários de Michel Temer? Como iria remexer com antigos mensaleiros e aloprados? Melhor desistir fazendo uma pose: tem coisa mais nobre pra fazer, vai combater a miséria etc. e tal.
Ora, a grande “herança maldita” de Dilma, que foi herdade de Lula – que por sua vez herdou (também isso) de Fernando Henrique – é a promiscuidade entre bandidos de vários calibres exigida para a montagem da chamada “base de apoio” do governo. Trata-se de uma trupe festiva da qual participam ferozes gatunos e oportunistas sem os quais o governo “apoiado” não consegue dar um só passo sem tropeçar numa propina, numa verba, num percentual, num favor, numa nomeação, numa comissão.
Como nem Lula nem Dilma – e nem FHC – tiveram pulso político para atacar esse mal, sofreremos ainda por muito tempo as consequências dessa herança. E é por isso que a dona Dilma precisou, como se diz no futebol de várzea, “arrecuar os arfe”.
Logo ela, tão valentona e decidida. Quem diria!

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O canário


 
Apesar do tumulto do trânsito, o homem ouviu o canto do canário. Custou a acreditar. Parou, olhou em volta. Canário? Aqui? Não era possível um canário naquela babel de cimento, asfalto, poluição, buzinas, pensou ele, retomando a caminhada. Mas o canto do canário tornou a vencer o tumulto.
Não havia dúvidas, era um canário. Ele o descobriu numa gaiola dependurada em frente a uma portinhola marrom, ao lado de uma vitrine e por debaixo de uma placa: aviário. Era um aviário espremido entre um chaveiro e uma loja de produtos naturais. Aguardou o sinal e atravessou a rua.
O sol tornava as penas do canário ainda mais brilhantes e, quando ele parou a dois passos da gaiola, o pássaro pareceu sentir a presença de público, estufou o peito e voltou a cantar.
Era um belo canto, tão belo quanto o de outro canário que tivera há muitos anos. Não tão belo, corrigiu-se o homem, com alguma culpa. Ou estava sendo injusto? As lembranças sempre melhoram o passado. Até as dores doem menos quando lembradas. O melhor cantor, o melhor jogador de futebol, o melhor livro. Tudo, no passado, é melhor e insuperável. Talvez cantasse tão bem quanto aquele do passado. Mas não devia perder tempo com isso. Melhor apenas ouvir.
Ali ficou, ele e o canário, que cantava alucinado, brilhando ao sol.
Foi quando um menino o puxou pelo casaco. Era um mulatinho dentuço, de olhos vivos:
- Quer comprar o canário, moço?
- Não. Estou só ouvindo.
- É baratinho, moço.
- Claro, claro – fez, impaciente, evitando perder alguma variação no trinado do pássaro.
Talvez fosse melhor retomar a caminhada. Fez um sinal para o menino, despedindo-se, mas não chegou a sair do lugar. O canário retomou o canto.
- Tá vendo, gostou do moço.
Moleque safado, pensou ele, sorrindo. Disse:
- Espera. Estou pensando.
O mulatinho abriu um sorriso luminoso:
- Se pensar bem, vai comprar – e sumiu pela portinhola marrom.
Há anos deixara de ter pássaros. Já não gostava da ideia de vê-los aprisionados em gaiola. Talvez fosse uma bobagem, mas não conseguia evitar um desconforto ao se imaginar carcereiro de um passarinho. No entanto, sabia que aquele tipo de canário não tinha condições de viver livre. Sozinho, morreria de fome ou seria presa fácil de predadores.
Imaginou um lugar onde colocar o canário no apartamento. Junto à janela da sala, é claro. Era um lugar arejado, de boa iluminação. Produziria certa sujeira no chão a cada dia, restos de alpiste, mas isso era o de menos. Ali o canário não teria predadores e, bem alimentado, cantaria feliz.
O mulatinho surgiu por detrás da vitrine e acenou para ele. Fez um sinal dizendo que continuava pensando. O mulatinho sorriu.
Mas havia um problema. Se fosse viajar? Não viajava muito, mas tinha alguns planos, pequenos passeios a fazer. Quem cuidaria do canário? Jamais poderia viajar. Não haveria quem cuidasse dele.
Melhor desistir. Aproveitou o sumiço do mulatinho e caminhou até a esquina, mas voltou em seguida. O canário cantava, pedindo companhia.
Descobriu então um novo problema. Com o tempo ele se afeiçoaria ao pássaro. Imaginou-se sentado ao lado da janela, olhando o movimento lá fora, enquanto o canário cantasse. Ali ficariam os dois, cada um com seus pensamentos, o canário inventando música e ele vagabundeando a mente vazia.
Tomou uma decisão: não compraria. Teria que aprisionar o bichinho e não poderia ausentar-se jamais. Ficariam os dois dependendo um do outro para sempre. Depois, um bichinho desses pode morrer a qualquer momento. Ele sofreria muito com isso. Aliás, ele também poderia morrer. O que seria do canário?
- Vai levar? – o menino materializou-se a seu lado, a dentuça sorrindo.
- Vou pensar, disse.
- O moço pensa demais.
É, pensava demais. Afagou a cabeça do menino e se afastou sem ouvir a opinião do canário.

-.-.-.-.-

CONVITE
No dia 17 próximo, quarta, estarei autografando meu novo romance, O conhecimento de Anatol Kraft, no bar Original Beto Batata (Rua Professor Brandão, 678, Alto da XV), a partir das 19 horas. Será um prazer contar com a presença dos leitores.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Que faxina é essa?



Ando preocupado com essa faxina da dona Dilma. De tão necessária e sempre adiada, já nem acreditamos que possa ser possível. Depois, não há quem, gato escaldado, não fique com uma pulga atrás da orelha: estão faxinando por qual razão? Fervor ético não deve ser. Acerto entre grupos? De fato, estão se pegando pelos cantos. Ou será que descobriram que isso renderá boas quantidades de votos?
Há pelo menos divisões entre os ocupantes do poder. É o caso de Jobim, esse que é fora de tom. Mas e o Palocci? Alguém pode me dizer por onde anda? Dizem que está num apartamento muito confortável, onde recebe com frequência a visita de Lula – batem longos papos, tomam umas bebidinhas, riem muito. É o que dizem.
Pois me irrita pensar que todos os tais corruptos e corruptores nacionais, depois de serem massacrados em rede nacional de televisão, acusados disso e daquilo, se recolhem em seus apartamentos ou mansões, somem e é só. Não se fala mais nisso. O Palocci enricou várias vezes, fez negócios nebulosos, mas agora já ninguém lembra e, pelo que se sabe, nenhum processo está em andamento para verificar afinal o que aconteceu.
Será o destino de todos? Já vimos o filme várias vezes. Após a catarse midiática, o tipo some, vai gozar uma aposentadoria calma ou hibernar algum tempo para retornar mais adiante como foi o caso de Collor, de Genuíno, tantos.
Os crimes cometidos em cada caso parecem ter sido reais e objetivos, mas as acusações se dão num circo muito bem montado, barulhento e rendoso. Depois, pano súbito em cena. Tudo terminará num esquecimento acomodado. É assim mesmo, dizem alguns. Não adianta fazer nada, pensam outros. Outros ainda nem se dão a esse trabalho: bebem, jogam conversa fora, riem. De nossa cara, é claro.

PS: hoje prenderam vinte e tantos que formariam quadrilha no ministério de Turismo. Antes, passaram detefon no ministério dos transportes. Quantas dessas ações levarão alguém em cana? Falar em colocar em cana: por que Daniel Dantas ainda está solto? Outra coisa: porque sempre são denunciados corruptos e não corruptores?