Recomendo a todos que não percam a oportunidade de visitar a Exposição de Ateliê do artista plástico Carlos Dala Stella. Não bastasse o valor do trabalho do Dala Stella, o ateliê onde ele trabalha fica num verdadeiro paraíso, com um bosque ao alcance da mão. Não perca.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
segunda-feira, 14 de novembro de 2016
O poema de Antonio Machado - Caminante no hay camino
Proverbios y cantares (XXIX)(*)
Todo
pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre el mar.
Nunca persequí la gloria,
ni dejar en la memoria
de los hombres mi canción;
yo amo los mundos sutiles,
ingrávidos y gentiles,
como pompas de jabón.
Me gusta verlos pintarse
de sol y grana, volar
bajo el cielo azul, temblar
súbitamente y quebrarse…
Nunca perseguí la gloria.
Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar…
Hace algún tiempo en ese lugar
donde hoy los bosques se visten de espinos
se oyó la voz de un poeta gritar
“Caminante no hay camino,
se hace camino al andar…”
Golpe a golpe, verso a verso…
Murió el poeta lejos del hogar.
Le cubre el polvo de un país vecino.
Al alejarse le vieron llorar.
“Caminante no hay camino,
se hace camino al andar…”
Golpe a golpe, verso a verso…
Cuando el jilguero no puede cantar.
Cuando el poeta es un peregrino,
cuando de nada nos sirve rezar.
“Caminante no hay camino,
se hace camino al andar…”
Golpe a golpe, verso a verso.
(*)Normalmente se publica apenas uma estrofe desse poema que faz parte dos Proverbios y cantares. Por isso me pareceu importante divulgar toda a passagem que tornou célebre os versos sobre nossos "caminos".
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre el mar.
Nunca persequí la gloria,
ni dejar en la memoria
de los hombres mi canción;
yo amo los mundos sutiles,
ingrávidos y gentiles,
como pompas de jabón.
Me gusta verlos pintarse
de sol y grana, volar
bajo el cielo azul, temblar
súbitamente y quebrarse…
Nunca perseguí la gloria.
Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar…
Hace algún tiempo en ese lugar
donde hoy los bosques se visten de espinos
se oyó la voz de un poeta gritar
“Caminante no hay camino,
se hace camino al andar…”
Golpe a golpe, verso a verso…
Murió el poeta lejos del hogar.
Le cubre el polvo de un país vecino.
Al alejarse le vieron llorar.
“Caminante no hay camino,
se hace camino al andar…”
Golpe a golpe, verso a verso…
Cuando el jilguero no puede cantar.
Cuando el poeta es un peregrino,
cuando de nada nos sirve rezar.
“Caminante no hay camino,
se hace camino al andar…”
Golpe a golpe, verso a verso.
(*)Normalmente se publica apenas uma estrofe desse poema que faz parte dos Proverbios y cantares. Por isso me pareceu importante divulgar toda a passagem que tornou célebre os versos sobre nossos "caminos".
domingo, 6 de novembro de 2016
Curitiba – a descoberta do frio

Mais tarde eu entenderia que há um
grande número de coisas que só se aprende em Curitiba. A primeira delas foi
conviver com o frio.
Eu vinha de Blumenau, cidade quente,
tocaiada no meio de um vale onde o sol parecia eterno. Ao chegar a Curitiba
encontrei um frio miserável. Além disso, havia a neblina. E o vento. O vento
era o pior.
Fui morar numa pensão na Carlos de
Carvalho.
Mas devo falar do frio, que para mim
não existia. Cheguei em março. Para meu espanto, chovia e fazia frio. E havia
neblina e ventava. Vim com as roupas que tinha e saí em busca do que fazer
naquela cidade que eu visitara anos antes e que fora para mim um assombro: bares,
muitos cinemas, livrarias, boates com strip-tease, mulheres muito dadivosas.
Mas eu vivia na maior solidão, o
nariz enfiado em livros e jornais, discutindo com meu colega de quarto como
sairíamos da quartelada militar em que fôramos metidos. De um lado, os milicos,
do outro, o frio.
A primeira descoberta: o frio não era
algo externo. O frio não estava fora de nossos corpos. O frio saltava para
dentro de nós, vinha residir em nossos ossos. Primeiro ele gelava as canelas,
em seguida fazia com que arcássemos os ombros a ponto de sentir dores
musculares. Só me restava tremer.
Arranjei emprego no escritório de uma
firma que distribuía açúcar e, depois, no escritório de um engenheiro
estupidamente grosso, que nos enchia o saco, o meu e o de um pernambucano que
trabalhava na outra mesa de desenho. Para espantar o frio, nosso esporte era
planejar como jogaríamos o tal engenheiro do alto do edifício Asa.
Esse estado de calamidade friorenta
durou uns três meses. Foi quando afinal me ocorreu nova compreensão do clima da
cidade. Trouxera uma maleta com camisas de manga curta, calças de tergal, meias
comuns e sapato. Em Blumenau jamais precisara mais do que isso. Deu-se então
uma enorme iluminação na minha pobre cabeça: havendo frio era preciso se
agasalhar, coisa que ainda não me ocorrera.
Só então percebi que os curitibanos
andavam encapotados, alguns com cachecol, outros com blusas de lã por cima de
camisas de tecido grosso. Achei estranhíssimo. Não seria um exagero? Até então
me parecia que, havendo frio, de qualquer grau que fosse, bastaria me habituar
a ele.
Estava enganado. Levei dois meses
para me convencer de que precisava providenciar um estoque de blusas e casacos,
meias de lã, gorro, cachecol e algo que me deixou estarrecido: era preciso usar
ceroulas, me diziam. Ceroulas?! Mas ceroulas era coisa de um tempo
antiquíssimo, que só vira em comédias do cinema mudo, nas quais sempre havia um
tipo ridículo que saltava da cama usando ceroulas.
Resisti. Mas fui obrigado a me
render. Comprei ceroulas.
Esse arsenal termodinâmico amenizou
meu sofrimento, mas o frio continuava mergulhando para dentro do meu corpo,
enregelando meus ossos. O frio residia dentro de mim. E, embora não soubesse,
essa era apenas a primeira das lições que aprenderia com Curitiba. Haveria outras,
tão ou mais enregelantes.
quinta-feira, 27 de outubro de 2016
Nobel para Bob Dylan e cartão vermelho para a Literatura.

Só
curto comentar esse tipo de notícia com algumas semanas de distância. Enquanto
isso me divirto com os comentários e as bobagens que são ditas pelo caminho e,
tratando-se de literatura, me engasgo de tanto rir com aqueles que tomam carona
em um fato ligado às letras para fazer pose de inteligente.
Com
o prêmio Nobel conferido a Bob Dylan deu-se o mesmo. Os jornalistas – criaturas
atarantadas em busca do inédito – se limitaram às loas e ao mantra inevitável: “o
primeiro cantor e compositor a receber o Nobel de Literatura”.
Então,
vamos lá.
Antes
de mais nada, sou fã de Bob Dylan. Não só das letras quilométricas como das melodias,
que costumam ser deliciosas e hipnóticas. Mas também gosto dele por uma
esquisitice minha: gosto de vozes estranhas, esquisitas, rascantes, roucas – ou
de vozes que me parecem assim. Por exemplo: Nelson Cavaquinho, João Donato, Guinga,
Cássia Eller, Billie Holiday. Além de outras qualidades, gosto da estranheza de
certas vozes. Bob Dylan é assim.
Além disso, embora tenha sido batizado com um nome monumental – Robert Allen
Zimmerman – teve o bom gosto de se batizar Bob Dylan em homenagem ao grande
poeta galês chamado Dylan Thomas.
Por
essas e por outras, gosto do Dylan.
Mas,
nada me parece justificar esse prêmio Nobel. Ou melhor, o prêmio dado a Dylan
não acrescenta nada a ele e manifesta uma coisa que a meu ver escapou a todos
os jornalistas e críticos que abordaram o assunto: a literatura acabou.
Acabou
não como produção de certos indivíduos que insistem em escrever obras
literariamente valiosas, mas como fenômeno social. E isso nada tem a ver com
sucesso ou vendagem; refiro-me à presença cultural da palavra escrita. Aliás, o
mesmo aconteceu com o cinema. O cineasta Héctor Babenco, pouco antes de
falecer, disse literalmente: “o cinema, tal como nós o entendíamos, está morto”.
Eis
a lição involuntária que o Nobel deu a respeito do papel da literatura no mundo
atual. Se no cinema o que resta são explosões, efeitos especiais, mundos
fantásticos, delírios sobre reinos e deuses e heróis e aventuras, quando não
uma óbvia glamorização da violência, na literatura restou a retomada do romance
fácil, baseado em enredos, na identificação imediata dos conflitos e de
personagens planos, tudo misturado com uma receita de reportagem jornalística e
oportunista ora sobre etnias, ora sobre sexualidades, ora sobre crianças
abandonadas, ora sobre imigrantes, ora sobre estupro etc.
Ou
seja, o cinema tal como o conceberam Fellini, Kurosawa, Chaplin, Orson Wells, John
Ford, Antonioni etc. etc., faleceu. E a literatura, tal como a conceberam Tolstói,
Dostoievski, Kafka, Proust, Machado de Assis, Eça de Queiroz, Dalton Trevisan e
João Cabral de Mello Neto etc. etc., também acabou. Restam pruridos
palavrísticos, brincadeiras gratuitas, poemetos a consolar espíritos mais
simples, e uma grande vontade de aparecer, de ser celebridade por parte de
escrevinhantes.
Por
isso, ao dar o prêmio a um cantor/compositor (por mais que ele mereça todos os
elogios enquanto tal) significa que a literatura acabou. E me perdoem citar aqui,
em causa própria, o personagem de um romance que publiquei em 2011, O conhecimento de Anatol Kraft. Dizia o
sábio Anatol: a literatura acabou.
Resta
um amontoado de historinhas para boi dormir. Com as exceções conhecidas, o que
se publica é literatura água com açúcar, lamentos juvenis, relatos de
depressões tardias, truques narrativos de olho numa adaptação para o cinema ou
para a televisão etc. Não têm o impacto nem a importância que tiveram os
escritores de uma era literária que parece ter chegado ao fim.
Razão
pela qual os escritores que hoje insistem em escrever literatura de valor
perderam totalmente a penetração cultural, ou seja, não repercutem socialmente,
não criam polêmicas e debates, não ajudam à sociedade a se reinventar. Dada a
crescente onda de analfabetismo que assola o mundo dito civilizado, ninguém os
lê, nem pensa neles, são cartas fora do baralho. O que eles pensam e escrevem
não tem a menor importância.
Eis
o que o Nobel dado a Bob Dylan significa.
terça-feira, 18 de outubro de 2016
Era uma vez meu pai
Meu pai foi criador e
personagem de uma infinidade de histórias. Algumas delas ele transformou em
crônicas publicadas em jornais, reunidas em livro editado em 2003, quando faria
cem anos. Aliás, não chegou aos cem anos contrariado, pois tinha toda a
disposição para continuar vivendo. Era olhar para ele para se perceber que não
tinha a menor intenção de morrer.
Mas, além de casos que viraram
livro, nos deixou várias historietas que viveu ou inventou – ou que nós, os filhos,
inventamos para contar a respeito dele. Era, como se vê, uma criatura ficcional.
Uma delas.
Ele era devoto de uma
miraculosa fórmula que levava o nome de loção Pindorama, que eu imaginava já extinta,
mas que o Google me informa que ainda circula por aí. Pois ele besuntava os
cabelos com aquela loção e, quando eu e meu irmão Orlando tirávamos sarro dele,
dizendo que pintava os cabelos, ele nos repreendia:
- Não pinto os cabelos.
Essa loção não é tintura. Ela faz com que os cabelos não embranqueçam.
Ao falecer, tendo
passado alguns dias no hospital sem poder aplicar a loção milagrosa, meu irmão
notou que seus cabelos branqueavam. Alguém diria que isso desmentia suas teorias
sobre a loção, mas creio que foi um último recado que nos deixou. Talvez,
fingindo de morto, nos dissesse:
- Estão vendo? Sem
loção, os cabelos ficam brancos.
O fato é que meu irmão
mais velho, Cid, fez durante muito tempo uso da mesma loção, com a qual ostentava
os cabelos negros do pai. Mas um dia ele cansou de usar com aquela gororoba e a
abandonou. Hoje ostenta uma bela cabeça branca. Só isso impede que imaginemos
que seja nosso pai redivivo. É a cópia.
Segundo uma lenda
familiar, meu pai conservou vida afora a fama de namorador incansável. Em Lajes
morou numa casa que ficava ao lado da residência de uma distinta senhora local com
quem começou um caso. Eram casas próximas, com sótão, de tal modo que as duas
janelas superiores davam de frente uma para a outra. Para escapar à vigilância
de vizinhos, ele providenciou uma taboa e, estando o marido da distinta senhora
em viagem, colocava a taboa de uma janela a outra e a atravessava qual
malabarista no meio da noite para só voltar depois de mais uma batalha amorosa gloriosamente
vencida.
Noutra ocasião, bateram
à porta de sua casa, pedindo socorro. Ele abriu a porta e deu com um homem
ferido a bala, que disse fugir de um marido traído.
- Vão me matar, disse o
homem. Por favor, me salve!
Meu pai depositou o
desconhecido debaixo da cama. Uma hora depois, um grupo armado chegou em busca
do don Juan. Meu pai abriu a porta bocejando e, ao ouvir que procuravam um fugitivo desavergonhado, reclamou ter sido acordado
por conta de uma bobagem. E enxotou a tropa de vingadores.
Esse don Juan fujão era
um espanhol chamado André Martinez, que se tornou um grande amigo de meu pai e,
de certa forma, seu devedor e espelho. Afinal, praticavam o mesmo esporte.
Anos depois, André
Martinez virou meu padrinho de crisma, uma coisa tão antiga quanto a loção
Pindorama.
quinta-feira, 22 de setembro de 2016
O Trem Itabirano ronca pau na Flip, Flap, Flop, Flup...

Vira e mexe tenho
postado aqui alguma nota a respeito do jornal O Trem Itabirano, editado na mítica Itabira do poeta Carlos –
pátria amada de todos nós. Não faço isso com mais frequência para não parecer
aporrinhação ou assédio de fanzoca. Editado pelo jornalista Marcos Caldeira
Mendonça, o jornal é daqueles que ronca o pau com acerto e galhardia.
Mas nesse número de
setembro (é o 132) do jornal há uma matéria que não posso deixar passar. Trata-se
de mais um texto desabusado do Fernando Jorge, escritor e jornalista conhecido,
que dessa vez desanca uma das maiores picaretagens “culturais” do Brasil, a tal
Flip, que o Fernando Jorge chama de Febeapá
II, Festival de Besteira que Assola Paraty, homenageando o saudoso
Stanislaw Ponte Preta.
Os leitores talvez se
assustem, pois o jornalismo brasileiro corrente – sempre acorrentado a alguma
coisa... – vive tecendo loas a eventos “culturais”, anunciando que livros em
feiras formam novos leitores (ora, ora, o número de leitores de livros no
Brasil despenca ano a ano), além de espetáculos explícitos de puxa-saquismo de
editoras patrocinadoras, de jornalistas “culturais” que passam por críticos
literários, de “escritores” e “escritoras” mais ou menos histéricos que dão
pequenos shows a céu aberto etc. Toda essa gente, muito topetuda e oportunista
coloca a Flip nas nuvens de olho num possível convite para a feira seguinte. O
mundo literário é movido a benesses, quitutes e balangandãs, como se sabe.
Só para aperitivo. Fernando
Jorge brinda assim algumas das estrelas da Flip. “Kenneth Maxwell, por exemplo,
vomitou asneiras” sobre a independência do Brasil. Já “o insuportável ianque
Benjamin Moser, autor de uma indigesta biografia de Clarice Lispector” deveria
ter seu livro vendido como sonífero. Como Fernando Jorge escreveu um livro
sobre Santos Dumont, não deixou passar incólume a patetice de atribuir ao
inventor a homossexualidade. Nada disso, diz Fernando Jorge: e arrola as várias
beldades que foram objeto da paixão de Santos Dumont, que não sentia tesão
apenas por voar.
Sugiro que os prezados
leitores desse blog leiam O Trem
Itabirano deste mês, em especial a matéria sobre a tal Flip. Se não lerem O Trem, ficarão imaginando que os jornalistas
e jornaleiros que hoje “divulgam cultura” no Brasil são moços e moças sabidos e
bem informados que passam notícias honestas.
Mas poderão ler também uma
matéria sobre Jaguar, outra sobre Drummond, outra sobre Guimarães Rosa, além de
várias matérias e notas apetitosas. Basta escreverem para o endereço otremitabirano@yahoo.com.br e
receberão a edição digital do jornal em seu computador. O Trem Itabirano chega rente feito pão quente.
Trata-se de uma
diversão única, tal como sempre foi viajar de trem.
terça-feira, 6 de setembro de 2016
Os caminhantes
O homem era gordo e
desajeitado. Displicente, talvez, esquecido de si mesmo. Caminhava oscilando,
braços largados, a cabeça perdida nas alturas a observar os pássaros, as
nuvens, as árvores. Não era nem simpático nem antipático – era ele mesmo. Dava
a impressão de solitário, de ser um tanto triste, mas nem assim parecia sofrer.
Caminhava, apenas. Todos os dias, regularmente, exceto nos dias de chuva. No
mais, fizesse frio ou calor, houvesse vento ou nuvens no céu, lá estava ele
caminhando.
Como acontece entre
caminhantes, os que passavam por ele, além de notarem seu porte deselegante, flagravam
um ar de simpatia em seu rosto. E, como é praxe entre os que caminham, todos se
cumprimentavam, distribuíam bons dias com uma oscilação de cabeça, não raro com
um gesto de mão.
Assim se relacionam os
caminhantes. Ninguém sabe quem é o outro, qual o seu nome, o que faz de sua
vida. Mas todos sabem que caminham. Isso cria uma simpatia entre eles. Uns se
cumprimentam de modo mais caloroso, outros apenas resmungam seu bom dia e
seguem em frente. Estão no mesmo barco, é como se sentem. O fato é que sabem
uns dos outros. Se aparece um novato no pedaço, logo percebem. É quando lhe
ensinam, com alguma insistência, que o ato de dar bom dia é essencial à convivência
naquele caminho. Os que entendem o espírito da coisa logo percebem como agir.
Quem não entende, não tem conserto e logo abandonará o caminho, andando por
outras plagas ou permanecendo jogado num sofá. Falta-lhe o espírito do caminhante.
Nada a fazer.
Mas como não notar
aquele homem que, gordo e desajeitado, oscilava ao caminhar e tinha um ar
simpático no rosto moreno? Todos sabiam dele e foi por isso que o alarme soou quando
ele sumiu por alguns dias.
De início houve apenas
um espanto, mas, passada uma semana, os caminhantes começaram a se reunir,
mesmo que se conhecessem apenas de bons dias, para saber o que se passara com o
simpático homem gordo.
- Será que aconteceu
algo com ele?
- Ando nessa trilha há
três anos e ele não faltou um só dia.
- Algo aconteceu. Será
que tinha alguma doença?
Um lembrou:
- Ele tossia. Não
muito, mas tossia. Ouvi uma vez.
- Será que fumava?
- Pode ser.
- Pois é. Sendo
fumante, com aquela gordura, já sessentão... Pode ser que...
Ficaram quietos de
repente e se despediram com o compromisso de avisar caso soubessem de alguma
novidade do talvez triste homem gordo. Passou-se outra semana e nada do homem
aparecer.
- O que vamos fazer?
Alguém sabe quem era, onde morava?
Ninguém sabia. Nem como
se chamava. Partiram a investigar. Um dia alguém o vira entrando num bar, foram
até lá. Explicaram: um homem gordo, balançava de lado, cara simpática. Era
triste, acrescentou alguém. O dono do bar deu uma dica:
- Só se for o seu...
seu... não sei o nome dele. Mora na próxima rua, a segunda casa à direita. Um
dia passei por lá e ele estava na janela.
Foram em grupo ao
endereço. Quando viraram a esquina, lá
estava o homem gordo regando umas plantinhas junto ao muro da casa. Desajeitado
como sempre, ele oscilava e espalhava água sobre as plantas e sobre o muro.
Eles se aproximaram e o
homem gordo levou um susto ao reconhecê-los.
- Bom dia! – disseram eles,
quase em uníssono.
Baixou um
constrangimento. Dizer o quê? Perguntar se havia morrido? Se fora parar num
hospital? Tivera um AVC? Ninguém se decidia.
Até que um deles, um
baixinho, se aventurou:
- Você não tem aparecido.
Ficamos preocupados. Algum problema?
O homem largou o
regador em cima do muro e fez um gesto pedindo que todos se aproximassem. E confidenciou,
em voz baixa:
- Arrumei uma namorada.
Seu rosto brilhou e
todos suspiraram aliviados. Foi quando surgiu na porta da casa uma sorridente
jovem senhora de cabelos grisalhos, magra e pequenina, que fez um sinal
enigmático que, segundo o gordo, significava que o café estava pronto.
Daquele dia em diante a
turma dos caminhantes proibiu especulações pessimistas caso alguém sumisse do
caminho. Quem sabe o sujeito fora à praia, disse um. Ou a Paris, disse outro. Ganhou
na loto, emendou um terceiro. Enfim, destinos prazerosos. Afinal, eram
caminhantes e a fila precisava andar.
Sem sobressaltos.
Assinar:
Postagens (Atom)

