segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O espírito punitivo das gramatiquices



Medeiros e Albuquerque, notável jornalista e ensaísta, escreveu – lá pelos anos 1930 –  um belo livro de memórias chamado Quando eu era vivo, hoje só encontrável em sebos, onde aliás encontramos os melhores livros, banidos que foram das metálicas e iluminadíssimas megastores.
Pois conta o autor que certo dia encontrou Machado de Assis na Rua do Ouvidor e comentou que nomeara um certo Valentim para lecionar língua portuguesa na Escola Normal que dirigia, pois o tipo não apenas sabia escrever como sabia ensinar a escrever. Magalhães estava irritado com os professores de português que faziam descambar o ensino para a aprendizagem da gramática. Valentim tinha ainda uma vantagem: desconhecia toda a rebarbativa e complicada tecnologia gramatical.
Machado ouviu, sorriu galhofeiro e perguntou:
- Por que você não me nomeou?
Os dois riram. Na ironia do Bruxo, muita sabedoria.
De fato, quando esbarramos, na mídia brasileira ou nas salas de aula, com professores gramatiqueiros ou supostos ensinadores de língua portuguesa, já sabemos o que nos espera: um sujeito que vai colocar um dedo punitivo diante de nosso nariz.
Há um renomado gramatiqueiro nacional que distribui seu dedo acusativo com simpatia, de forma jeitosa, numa coluna que circula Brasil afora. Em suma, o que diz ele? Não é assim, é assado. Não se escreve assim, se escreve assado. Aqui concorda desse jeito, ali daquele outro. Esse verbo se conjuga dessa maneira. Esse adjetivo concorda com tal coisa e não tal outra. E assim vai.
Sempre o dedo acusativo. A caça ao erro. O erro é a grande ideia força dos gramatiqueiros. Se, por alguma mágica sobrenatural, o erro sumisse de nossas vidas de pobres usuários da língua portuguesa, esses sujeitos ficariam desempregados.
Na televisão também há quem fale de língua portuguesa, mas sempre para descobrir o erro e apontá-lo com obsessão. As conversas muitas vezes são simpáticas, os exemplos costumam vir de letras da MPB – cada vez menos de textos de escritores brasileiros – mas o erro está sempre lá, feito um holofote cego, cobrindo tudo com sua luz sombria.
Até mesmo alguns linguistas, que costumam ser brilhantes por outras razões, caem na armadilha. Há quem se especialize em apontar não apenas os erros, mas os erros de quem aponta erros. E haja encontrar interpretações errôneas das regras gramaticais, concordâncias equivocadas, ortografias esquisitas.
Digo tudo isso porque tenho visto, meio por acaso, programas a respeito de língua em televisões de outros países. E notei uma coisa curiosa.
Num programa francês, por exemplo, um sujeito com gravata borboleta e ares de grande felicidade, fala de expressões correntes na língua. Pega um texto de Molière, cata uma expressão popular, explica o que ela significa, como ela funciona, como foi usada ao longo dos tempos e por diversos autores, explora seus vários sentidos. Vemos então que tais expressões mudam de uso ou sentido conforme a época, o local, os autores, o tipo de texto. E o apresentador conclui sempre com uma espécie de elogio a essa diversidade.
Nada sobre ortografia, graças a Deus. Nenhum erro apontado. Fala-se das virtudes da língua francesa.
Noutro programa, dois sujeitos dialogam em torno de um dicionário. O humor é a tônica. Viram e reviram palavras, riem dos seus sentidos e ambiguidades, brincam de montar e desmontar expressões linguísticas. E tiram daí vários ensinamentos preciosos, entre cambalhotas com as palavras.
Sem apontar um só erro. Descobrindo palavras como se fossem – e são, sabemos disso – algum tipo de brinquedo muito divertido.
Há ainda um programa, na Itália, em que se procura criar desafios a partir de textos de autores cujos nomes – ou obras, concepções, períodos literários – devem ser descobertos a partir de seus textos. O público, formado por jovens estudantes, se diverte e aprende.
Ninguém aponta erros. Nenhum dedo acusa o desastrado usuário da língua.
Machado de Assis e Medeiros de Albuquerque estavam cobertos de razão.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

‘cabou a faxina. Tá limpo?



O governo brasileiro continua a oferecer tristes espetáculos a quem ainda tem paciência para ficar de olho no poder.
Agora, a tal faxina. Postei aqui no blog, no dia 9 de agosto, um comentário sobre a farsa. Como já conheço a turma, coloquei em dúvida o ímpeto faxineiro que tomou conta da presidente. Agora, apenas duas semanas e pouco depois, já sabemos que a dona Dilma recolheu seu avental, seu vassourão, o balde com água e detergente, e anunciou ao país que tem mais o que fazer do que cuidar de corrupção. Retesou o dedo autoritário e disse que seu compromisso é com a “faxina da miséria”.
Menos mal. As cobranças de faxinas anunciadas de corrupção podem ser questionadas  a qualquer momento, enquanto que o anúncio de uma faxina da pobreza ou da miséria, é coisa que paira no ar, rarefeita como nuvem.
Mas há razões mais sólidas para que dona Dilma tenha recolhido seu escovão. Como se sabe, uma bandalheira descoberta esclarece outra, um ladrãozinho pego aqui denuncia outro mais adiante, o fato é que, de corrupto em corrupto, a gente vai deslizando dos associados ao PR para aqueles do PMDB e – benzódeus! – do PT.
Aí não pode.
Dona Dilma precisou recolher a escova e o sabão. Como iria escovar o lombo de indicados e partidários de Michel Temer? Como iria remexer com antigos mensaleiros e aloprados? Melhor desistir fazendo uma pose: tem coisa mais nobre pra fazer, vai combater a miséria etc. e tal.
Ora, a grande “herança maldita” de Dilma, que foi herdade de Lula – que por sua vez herdou (também isso) de Fernando Henrique – é a promiscuidade entre bandidos de vários calibres exigida para a montagem da chamada “base de apoio” do governo. Trata-se de uma trupe festiva da qual participam ferozes gatunos e oportunistas sem os quais o governo “apoiado” não consegue dar um só passo sem tropeçar numa propina, numa verba, num percentual, num favor, numa nomeação, numa comissão.
Como nem Lula nem Dilma – e nem FHC – tiveram pulso político para atacar esse mal, sofreremos ainda por muito tempo as consequências dessa herança. E é por isso que a dona Dilma precisou, como se diz no futebol de várzea, “arrecuar os arfe”.
Logo ela, tão valentona e decidida. Quem diria!

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O canário


 
Apesar do tumulto do trânsito, o homem ouviu o canto do canário. Custou a acreditar. Parou, olhou em volta. Canário? Aqui? Não era possível um canário naquela babel de cimento, asfalto, poluição, buzinas, pensou ele, retomando a caminhada. Mas o canto do canário tornou a vencer o tumulto.
Não havia dúvidas, era um canário. Ele o descobriu numa gaiola dependurada em frente a uma portinhola marrom, ao lado de uma vitrine e por debaixo de uma placa: aviário. Era um aviário espremido entre um chaveiro e uma loja de produtos naturais. Aguardou o sinal e atravessou a rua.
O sol tornava as penas do canário ainda mais brilhantes e, quando ele parou a dois passos da gaiola, o pássaro pareceu sentir a presença de público, estufou o peito e voltou a cantar.
Era um belo canto, tão belo quanto o de outro canário que tivera há muitos anos. Não tão belo, corrigiu-se o homem, com alguma culpa. Ou estava sendo injusto? As lembranças sempre melhoram o passado. Até as dores doem menos quando lembradas. O melhor cantor, o melhor jogador de futebol, o melhor livro. Tudo, no passado, é melhor e insuperável. Talvez cantasse tão bem quanto aquele do passado. Mas não devia perder tempo com isso. Melhor apenas ouvir.
Ali ficou, ele e o canário, que cantava alucinado, brilhando ao sol.
Foi quando um menino o puxou pelo casaco. Era um mulatinho dentuço, de olhos vivos:
- Quer comprar o canário, moço?
- Não. Estou só ouvindo.
- É baratinho, moço.
- Claro, claro – fez, impaciente, evitando perder alguma variação no trinado do pássaro.
Talvez fosse melhor retomar a caminhada. Fez um sinal para o menino, despedindo-se, mas não chegou a sair do lugar. O canário retomou o canto.
- Tá vendo, gostou do moço.
Moleque safado, pensou ele, sorrindo. Disse:
- Espera. Estou pensando.
O mulatinho abriu um sorriso luminoso:
- Se pensar bem, vai comprar – e sumiu pela portinhola marrom.
Há anos deixara de ter pássaros. Já não gostava da ideia de vê-los aprisionados em gaiola. Talvez fosse uma bobagem, mas não conseguia evitar um desconforto ao se imaginar carcereiro de um passarinho. No entanto, sabia que aquele tipo de canário não tinha condições de viver livre. Sozinho, morreria de fome ou seria presa fácil de predadores.
Imaginou um lugar onde colocar o canário no apartamento. Junto à janela da sala, é claro. Era um lugar arejado, de boa iluminação. Produziria certa sujeira no chão a cada dia, restos de alpiste, mas isso era o de menos. Ali o canário não teria predadores e, bem alimentado, cantaria feliz.
O mulatinho surgiu por detrás da vitrine e acenou para ele. Fez um sinal dizendo que continuava pensando. O mulatinho sorriu.
Mas havia um problema. Se fosse viajar? Não viajava muito, mas tinha alguns planos, pequenos passeios a fazer. Quem cuidaria do canário? Jamais poderia viajar. Não haveria quem cuidasse dele.
Melhor desistir. Aproveitou o sumiço do mulatinho e caminhou até a esquina, mas voltou em seguida. O canário cantava, pedindo companhia.
Descobriu então um novo problema. Com o tempo ele se afeiçoaria ao pássaro. Imaginou-se sentado ao lado da janela, olhando o movimento lá fora, enquanto o canário cantasse. Ali ficariam os dois, cada um com seus pensamentos, o canário inventando música e ele vagabundeando a mente vazia.
Tomou uma decisão: não compraria. Teria que aprisionar o bichinho e não poderia ausentar-se jamais. Ficariam os dois dependendo um do outro para sempre. Depois, um bichinho desses pode morrer a qualquer momento. Ele sofreria muito com isso. Aliás, ele também poderia morrer. O que seria do canário?
- Vai levar? – o menino materializou-se a seu lado, a dentuça sorrindo.
- Vou pensar, disse.
- O moço pensa demais.
É, pensava demais. Afagou a cabeça do menino e se afastou sem ouvir a opinião do canário.

-.-.-.-.-

CONVITE
No dia 17 próximo, quarta, estarei autografando meu novo romance, O conhecimento de Anatol Kraft, no bar Original Beto Batata (Rua Professor Brandão, 678, Alto da XV), a partir das 19 horas. Será um prazer contar com a presença dos leitores.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Que faxina é essa?



Ando preocupado com essa faxina da dona Dilma. De tão necessária e sempre adiada, já nem acreditamos que possa ser possível. Depois, não há quem, gato escaldado, não fique com uma pulga atrás da orelha: estão faxinando por qual razão? Fervor ético não deve ser. Acerto entre grupos? De fato, estão se pegando pelos cantos. Ou será que descobriram que isso renderá boas quantidades de votos?
Há pelo menos divisões entre os ocupantes do poder. É o caso de Jobim, esse que é fora de tom. Mas e o Palocci? Alguém pode me dizer por onde anda? Dizem que está num apartamento muito confortável, onde recebe com frequência a visita de Lula – batem longos papos, tomam umas bebidinhas, riem muito. É o que dizem.
Pois me irrita pensar que todos os tais corruptos e corruptores nacionais, depois de serem massacrados em rede nacional de televisão, acusados disso e daquilo, se recolhem em seus apartamentos ou mansões, somem e é só. Não se fala mais nisso. O Palocci enricou várias vezes, fez negócios nebulosos, mas agora já ninguém lembra e, pelo que se sabe, nenhum processo está em andamento para verificar afinal o que aconteceu.
Será o destino de todos? Já vimos o filme várias vezes. Após a catarse midiática, o tipo some, vai gozar uma aposentadoria calma ou hibernar algum tempo para retornar mais adiante como foi o caso de Collor, de Genuíno, tantos.
Os crimes cometidos em cada caso parecem ter sido reais e objetivos, mas as acusações se dão num circo muito bem montado, barulhento e rendoso. Depois, pano súbito em cena. Tudo terminará num esquecimento acomodado. É assim mesmo, dizem alguns. Não adianta fazer nada, pensam outros. Outros ainda nem se dão a esse trabalho: bebem, jogam conversa fora, riem. De nossa cara, é claro.

PS: hoje prenderam vinte e tantos que formariam quadrilha no ministério de Turismo. Antes, passaram detefon no ministério dos transportes. Quantas dessas ações levarão alguém em cana? Falar em colocar em cana: por que Daniel Dantas ainda está solto? Outra coisa: porque sempre são denunciados corruptos e não corruptores?

domingo, 31 de julho de 2011

O olhar angelical do terror


Após ataques terroristas, a exemplo desse ocorrido na Noruega, somos massacrados por imagens da tragédia. Imagens chocantes, destruição e morte, o horror em praça pública. Nesse caso, temos ainda os corpos de meninos e meninas assassinados na ilha de Utoya.
O que justificaria a matança de meninos e meninas? Como entender que alguém possa ferir de morte quem apenas passava por uma das ruas de Oslo? Que mal cometeram esses meninos e meninas? A quem feriram essas pessoas?
Diante de tamanha insanidade, no entanto, há uma imagem que me parece a mais aterradora de todas. Nela não há sangue, não há expressão de desespero ou dor, não há sofrimento.
Esse que agora sabemos se chamar Anders Behring Breivik é visto na janela de um carro de polícia. Ao contrário do transporte de presos no Brasil, ele não está socado no porta-malas de uma viatura. Está bem acomodado, ao lado de um policial, trajando uma espécie de camisa de cor laranja ou vermelha, que lembra um colete.
Seu rosto é sereno, cheio de claridade. Tem um porte orgulhoso. Não chega a ser hostil, mas é desafiador. Seu olhar é firme, quase doce, pacificado. Olhos azuis dirigidos a um ponto indefinido, mas que miram a todos nós, que vemos a foto. Ele nos olha e nos despreza. Está completamente absorto pelo grande momento que vive. Afinal chegou às páginas de todos os jornais, às telas de todas as televisões. É um fenômeno global. Autor de um grande feito, percebe-se que está feliz e não denuncia, no rosto redondo e quase infantil, qualquer culpa, ressentimento ou dor. É um homem realizado.
Essa é a foto mais terrível de todas que a mídia fez circular.
Os atos terroristas – venham de onde vierem – são por definição covardes. Produtos de mentes insanas, nos deixam face a face com o incompreensível, aquilo diante do que falecem todos os nossos argumentos, todas as nossas convicções e esperanças. O que dizer ou pensar diante de um homem feliz pela execução de dezenas de inocentes?
Nada.
Olho para a foto e vejo ali um homem convicto. Um homem que tem uma certeza absoluta de que fez o que deveria ter sido feito. Eis o terror. O sangue e as mortes são mero acidente, pura contabilidade. A destruição, não apenas de vidas, mas de esperanças, é coisa secundária. O que esses olhos azuis e esse sorriso irônico nos dizem é que estamos diante de uma criatura superior, que agiu movido por princípios elevados. Está acima das hesitações nas quais todos nos movemos. Acima do bem e do mal, além de qualquer julgamento. Aliás, deseja usar o julgamento como tribuna. Não há crime que tenha cometido.
Essa certeza de representar uma verdade absoluta define a insanidade. Uma das grandes conquistas da humanidade é a dúvida, a incerteza, a imprecisão, o não saber. O ser humano começou a pensar assim que descobriu a dúvida. Se não sei, busco saber. Se duvido, investigo, refaço meus argumentos, busco novas provas. Das minhas incertezas saem críticas contra arbitrariedades ou prepotências. Das imprecisões e mesmo defeitos que vejo em mim, resultam melhoras, avanços, descobertas.
Assim, nada mais aterrorizante do que um homem que não tenha dúvidas. Nietzsche, com a genialidade desconcertante de sempre, escreveu: “a certeza enlouquece”. Chesterton deu à questão sua pincelada de ironia e paradoxo: “o louco é aquele que perdeu tudo, exceto a razão”. O louco está certo sempre. O louco sempre tem razão.
Eis como nos tornamos reféns de terrorismos de diversos tipos. Alguns fanáticos tentam se justificar em crenças religiosas delirantes, em isolamentos tribais, em equívocos raciais. Outros, em limites nacionais, diferenças de gênero, de comportamento sexual, de escolhas políticas. É o resultado da negação do outro, aquele que exige que eu duvide de mim e me coloque em questão. O fanático teme o outro e, no mesmo ato, teme a si mesmo.
E o terror nos brinda com o olhar angelical dos iluminados.

sábado, 23 de julho de 2011

Itamar Assumpção - O Nego Dito



Daquele instante em diante é um documentário comovente. Fui ao cinema querendo rever o músico excepcional, o compositor raro, a figura que sintetizou tantas coisas pelas quais lutamos, na arte e na vida brasileira. Tudo isso está lá, mas saí do cinema sentindo outra coisa: o filme é comovente.
Cumpriu-se o desejo de uma das filhas de Itamar – uma bela e doce figura de olhos lindos que abre seu coração de filha para pedir um filme que amenize suas saudades do pai. Não do compositor, não do sujeito tido como maldito, não do possível gênio. Mas do pai, do homem, certamente do amigo. Pois o filme faz isso.
Itamar – que passou a vida querendo se livrar da pecha de maldito à qual foi condenado – surge por inteiro. Inquieto, criativo, sem sossego. Apegado aos amigos, à família. Fissurado em buscar a perfeição. Inovador sempre. Brigão, irritadiço, brabo, explosivo. Amante de flores, sobretudo de orquídeas, que cultivava para presentear os amigos. Contraditório e coerente. Ríspido e carinhoso. Intransigente e incapaz de concessões. Desprezando o sucesso fácil junto às gravadoras e redes de televisão. Deixando de fazer shows lucrativos para dedicar seu tempo às suas pesquisas musicais. O fã incondicional de Bob Marley e de Miles Davis. O duplo de Ataulfo Alves, um duplo reinventado. A voz inconfundível. A pulsação africana.
Destaco duas coisas, que estavam perdidas em minha memória. A valorização do contrabaixo como o eixo em torno do qual tudo se passa. E o caráter autobiográfico de suas composições. Ele abriu sua alma e a deixou exposta em suas letras e músicas. Só ele seria capaz não apenas de criar seu duplo, o Nego Dito, mas também de, na última apresentação, no CCBB, pouco antes de falecer, criar um momento de sublime beleza, expondo em canção as dores que o levariam à morte.
Não foi maldito. Foi um homem digno e cabeçudo. Foi íntegro, como músico e como homem. Foi ignorado ou marginalizado não só por gravadoras, rádios e televisões, mas também por músicos da mesma geração – os mesmos que ignoraram outra figura notável, Tom Zé. Mas Tom Zé foi salvo por David Byrne e conseguiu reinventar sua carreira.
Itamar não teve a mesma sorte. Acho que morreu de tristeza, não de câncer. O país em que nasceu não o merecia.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Coisas da vida literária


Há coisas estranhas acontecendo no mundo literário. Umas são cômicas, outras trágicas, outras apenas divertidas. Todas estranhas.
Uma delas: editora brasileira anuncia a edição de uma antologia de contos e crônicas para comemorar seus trinta anos. Até aí, nada de errado. Os autores interessados são convidados a participar das antologias – pagando, é claro. Mas há vagas para todos: o regulamento da editora avisa que não se trata de concurso, todos serão publicados.
O autor custear a edição de seu livro não é nenhum desatino ou novidade editorial. Mas reunião de textos sem qualquer seleção é demais. A editora deixa de ser editora, pois abre mão de uma de suas funções básicas. O autor, cheio de vaidade, joga seu dinheiro fora e ao leitor se entrega um produto que pouco lembra um livro.
Mas foi num site francês que encontrei algo ainda mais estranho, anunciado da seguinte forma: “Escrever um livro é fácil! Torne-se o herói de um romance".
Seguem as instruções: “Crie um romance personalizado no qual estejam você, seus parentes e amigos e se transforme num herói. Escolha o gênero de seu romance, responda a algumas questões e nós escreveremos o livro. Você irá recebê-lo em alguns dias".
Trata-se do livro prêt à-porter.
Quanto ao gênero, o futuro autor e herói poderá escolher: roman, insolite, suspense, espionnage, roman noir, politique fiction.
Basta clicar e surge um formulário no qual é possível preencher quadrinhos com as características dos personagens. Pede-se sexo, nome, sobrenome, dia e mês de nascimento. São exigidos alguns detalhes, tais como peso (facultativo), cor e comprimento  dos cabelos. Por que, diabos, o comprimento dos cabelos? É preciso mais: o herói usa óculos? Como você o descreveria: sonhador, um belo homem ou mulher, jovem, charmoso, talvez com um físico banal, um tipo não muito bem aquinhoado pela natureza?
Onde mora seu personagem?  Num estúdio, apartamento, vila, fazenda, castelo, hotel? Com o detalhe: o que o herói vê quando olha através da janela? A rua, os telhados, o jardim, o campo florido, o mar? E quando o personagem resolve dar um passeio, que veículo usa? Zero quilômetro ou um carro antigo?
Agora, coisas mais “profundas”. É preciso dizer se o personagem se enerva com facilidade e com frequência, se é tranquilo ou meio zen. Costuma usar uma linguagem corriqueira ou acadêmica? Quando eufórico, que tipo de exclamação – estamos na França, lembrem-se – usaria entre as seguintes: Super! Génial! Waouh! C’est de la Balle! E, quando estarrecido, qual dessas: Non d’un chien! Bon sang! ou um corriqueiro Merde!?
E suas preferências musicais? Jazz? Clássico?  Rock da pesada? Funk? Rap? Segue uma lista com mais de uma dúzia de opções. E, no caso de uma viagem, seu personagem escolheria qual dos destinos: Cuba, Ibiza, Japão ou, ça va sans dire, Brésil?
Tem companheiro? De que sexo? Dois dos amigos devem ser os mais íntimos, o que facilita a narrativa, acredito. E, como se não bastasse, um pedido macabro: querem que o interessado em ser herói indique qual de seus amigos estaria sujeito a sofrer um acidente de automóvel.
Preenchido o formulário, basta clicar num link para receber, em segundos, um primeiro esboço do romance. Cliquei, assinando-me Jean Garnier, e vieram duas páginas, das quais transcrevo o primeiro parágrafo: « Le CD glisse silencieusement dans le lecteur. Quelques secondes plus tard, un air de musique classique envahit le salon tandis que le charmant Jean Garnier laisse tomber ses kilos dans son fauteuil préféré». (“O CD roda silenciosamente no aparelho. Alguns segundos depois, um ar de música clássica invade a sala enquanto o encantador Jean Garnier deixa cair seu peso em sua poltrona preferida.”)
Entregam em seis dias. Custa em torno de 29 euros o exemplar.
Se fosse no Brasil, bastaria acrescentar que uma das amigas do personagem é tailandesa, que outra vive em Nova York, embora australiana ou neozelandesa, sendo que o personagem-herói circula continuamente pela ponte aérea São Paulo-Rio-Nova York, cidades nas quais exerce a trepidante e charmosa carreira de psicanalista.
Sucesso garantido, com resenhas e entrevistas, como diria um dos personagens secundários, “a nível de Brasil”.