quarta-feira, 30 de março de 2016

Por que não se discute política no Brasil?








Aparentemente o país das Bruzundangas, como dizia Lima Barreto, está mergulhado num profundo debate político. É o que dizem jornais e televisões e a chamada voz das ruas.
Pois me parece o contrário. Esse triste espetáculo que estamos assistindo não vai além de uma troca de xingamentos, chavões, palavras de ordem, quando não palavrões cabeludos.
O que não é privilégio de qualquer dos partidos ou grupos envolvidos. Todos têm o mesmo comportamento e a mesma concepção obtusa de debate político. Nas ruas e nessa janelinha perversa chamada de redes sociais, é fácil sentir o que se passa e receber o bafo do analfabetismo político brasileiro.
Um de meus “amigos” (jamais entenderei que sentido tem essa palavra no facebook) faz um chamado a democratas verdadeiros, de boa índole e consciência integra para que se não se omitam e manifestem seus pensamentos. E fecha o texto assinando como “poetas contra o golpe”. Daí se deduz que democratas verdadeiros são contra o golpe, sendo que golpe é o processo de impeachment da presidente. Os equívocos são abundantes. Primeiro “não vai ter golpe” é palavra de ordem, não é pensamento, não é argumento. Segundo, quem tem cérebro em atividade, sabe que impeachment não é golpe. Está previsto em lei e até o momento obedece às regras nelas estabelecidas.
E garanto que esse meu “amigo” não é rapaz bobinho. É poeta, autor de livros, pesquisador, professor universitário, participa de organizações de intelectuais etc. Mas comete essa joia de primarismo lógico e político. O PT e demais partidos se pautam por palavras de ordem, não por análises e argumentos. Tais ordens colocam de um lado os “bons” e, de outro, os “maus”. Essa palavra de ordem, no entanto, só hipnotiza a adeptos do PT. Esses bravos militantes precisariam providenciar argumentos que levassem a uma análise diferente dos desastres cometidos pela presidente e por Lula.
A isso devemos somar o outro lado da moeda, onde estão os políticos do PSDB e os desembarcados do PMDB.
Mesmo diante da fragilidade intelectual, administrativa e política de Dilma, essa oposição não consegue desenvolver nenhum programa convincente. Não consegue nem mesmo fazer o que políticos sempre desejam: liderar os movimentos sociais. Como sabemos, as passeatas – exceto as do PT, que são digamos oficiais – recusam a participação de políticos e de partidos, mesmo se esses pretendem apoiar suas reivindicações.
Temos então uma oposição que é chutada das manifestações de rua e manifestações a favor de Dilma onde a cor vermelha, as bandeirinhas, as palavras de ordem, os sanduíches distribuídos, os ônibus etc., estão diretamente ligados a um partido que está no centro das denúncias.
Não bastasse, e para resumir, encontramos ainda outro agrupamento – graças aos deuses, minoritário – onde se homiziam os que clamam contra o “comunismo”.
Todos sabemos que nem a China e nem Cuba são mais comunistas, mas esses idiotas acham que o PT é comunista. Entenda-se. Com tal pretexto paranoide pedem o retorno dos militares ao poder. Só muita ignorância histórica para sustentar apelos desse tipo. O PT não é comunista. É um espelho de Lula, um político pragmático, sem convicções éticas, sem projetos de nação. Lula revelou-se um populista que manobra os sem terra e sem teto a custa de uma concepção assistencialista do poder.
No entanto, uma direita absolutamente anacrônica urra desejando regime ditatorial no poder.
Eis os três grupos que se digladiam, entre xingamentos, nisso que não é debate político algum. Já escrevi várias vezes: o Brasil é um país sem ossatura filosófica, portanto incapaz de desenvolver convicções ideológicas consistentes, análises históricas objetivas, políticas que sejam debatidas tendo em vista o chamado bem comum.
Aliás, o que mais falta nesses tempos nebulosos é bem comum. Cada um luta pelo seu próprio bem. A presidente se agarra ao poder com unhas e dentes. Partidos políticos esgotam-se em lutar pelo poder. E alguns trogloditas, de convicções nazifascistas, anseiam por um estado militarista.
Não é de estranhar. Analisando as últimas quatro décadas de história brasileira, é fácil perceber que nosso triste país tropical foi submetido a um processo deliberado de emburrecimento cultural e político. O resultado não poderia ter sido outro, infelizmente.


quinta-feira, 3 de março de 2016

Palavras são seres mutantes






As palavras têm essas virtudes: são mutantes e surpreendentes. Difícil aprisionar uma palavra. Segundo o dicionário, significam uma ou muitas coisas, mas, quando usadas, disparam novos sentidos. Surpreendem.
Por conta disso lembrei-me de meu pai. Sem ser um conhecedor da língua inglesa, ele implicava com o que julgava ser uma confusão norte-americana própria de imperialistas. Uma mesma palavra, dizia ele, escrita do mesmo jeito, mas pronunciada de outra maneira, significa coisas diferentes. E dava lá uns exemplos dos quais já não me lembro. Fazia isso se divertindo. E eu me divertia com as brincadeiras dele.
Até que um dia ele saiu apressado dizendo que precisava levar uma camisa ao alfaiate para uma reforma. Naquele tempo as roupas eram levadas aos alfaiates para reformas. Golas puídas eram viradas do outro lado, mangas frouxas eram encurtadas, remendos eram feitos aqui e ali, sobretudo quando o ali era o cotovelo. Valia a pena. A roupa voltava nova e era usada por mais alguns anos.
Hoje, é claro, não se reforma roupa. É mais fácil comprar outra e, problema adicional, já não se encontra quem saiba reformar uma camisa com refinamentos de artesão. Os alfaiates desapareceram pelo que sei. No tempo de meu pai, eles eram eficientes e tinham convicções anarquistas. Havia uma inexplicável leva de alfaiates anarquistas no mundo e no Brasil, o que não agradava a meu pai, embora lhes admirasse a habilidade com tesouras e agulhas. Implicava com o fato de que, sendo anarquistas, queriam revolução e não reformas, o que somava outro significado.
Mas o problema é que, ao ouvir a palavra reforma dita por meu pai, me ocorreu que seu Durval, um vizinho aposentado e resmungão, era conhecido como “militar reformado”. Eu o observava a cuidar do jardim e pensava: não foi muito bem reformado esse seu Durval. Meio curvado, uma perna presa e outra solta, o que fazia com que mancasse. Além do mau humor.
Pois aprendi então que os militares, com a idade, eram reformados. Continuavam do mesmo jeito, infelizmente, mas reformados.
Mas havia ainda outro imbróglio.
Morávamos em Blumenau, cidade germânica, cheia de luteranos. Desde pequeno convivi com luteranos sem qualquer problema. Pareciam com o seu Durval pelo ar casmurro e dureza de caráter, mas eram competentes e sérios. Bastava.
Mas eis o problema que fui descobrir mais adiante: resultavam de uma reforma. Ou melhor, Reforma. Quem nos explicou isso em detalhes foi o professor Mosimann, de História – aliás, um professor admirável, uma espécie de São Francisco de Assis que aturava e contornava com sábia delicadeza as estripulias dos alunos, que eram, eu inclusive, umas pestes.
Pois a reforma protestante empreendida a partir das 95 teses de Martinho Lutero, um monge franciscano exigente e reto como todo alemão convicto, desencadeou uma Reforma. E lá estávamos nós vivendo essa mistura saudável de religiões sem sectarismo.
Então, minha cabeça de menino ficava assim: havia reforma, reforma e Reforma. Das roupas, dos militares idosos e da religião. Sem falar da reforma que era diferente da revolução. O que colocava uma interrogação nas teorias brincalhonas de meu pai, que gostava de fazer piada com tudo, menos com religião. Não acreditava em nenhuma, mas achava que era preciso respeitar a todas elas.
E eu acreditava no quê? Até hoje não sei. A Reforma de Lutero me parecia fazer sentido, pois a ideia de se insurgir contra poderes constituídos já me parecia muito atraente. A reforma dos militares fazia sentido; estava na hora de colocar os milicos velhinhos num pijama, ainda que continuassem os mesmos. Quanto aos limites entre reforma e revolução o tempo se encarregaria de dissolver. Já a reforma das roupas eu achava desconfortável. Parecia meio triste reformá-las, uma confissão de que não se tinha dinheiro para comprar roupas novas.
Mas a verdade é que não tínhamos dinheiro para certos gastos e naquele tempo o consumismo ainda não havia tragado todos os nossos cuidados com a simplicidade franciscana do professor Mosimann.
Éramos mais modestos, digamos. Mas as palavras eram seres vivos, mutantes, e se prestavam a usos os mais diversos. Foi o que aprendi naquele momento. Mais adiante fui descobrir que era por isso que possuíam muita beleza e uma riqueza sem fim.





domingo, 28 de fevereiro de 2016

A arte de furtar e de não matar mosquitos




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O Brasil é um país repetitivo. Estamos hoje às voltas com o mosquito Aedes Aegypti, o mesmo que atazanou o Rio de Janeiro no final do século XIX e início do século XX e exigiu que Oswaldo Cruz, enfrentando feroz resistência política e popular, empreendesse uma campanha de mata-mosquito e de saneamento. Oswaldo Cruz venceu o mosquito e a imundície que sufocava a cidade do Rio de Janeiro.
Mas o mosquito retornou – mais de uma vez.
Na situação atual, o mosquito e a dengue já estão instalados há muitos anos. José Serra, quando ministro da Saúde, anunciou uma campanha para seu extermínio. A campanha teve razoável sucesso, mas, como parte das repetições do Brasil, governantes seguintes não se interessaram pelo assunto. Minguaram as verbas e as ações de controle. O aedis saiu novamente vitorioso.
Hoje, estamos sob novo ataque do mosquito, agora com suspeitas bem fundadas de que pode transmitir doenças gravíssimas.
Dilma, uma presidente sem crédito e sem prestígio, sem projetos e sem saber o que fazer, aproveita-se da situação e anuncia medidas necessárias, logo ela, que em 2015 cortou 60% das verbas destinadas ao combate ao mosquito. Pelo bem ou pelo mal, tivemos soldados nas ruas, mata-mosquitos, pulverizações, campanhas de esclarecimento etc. Note-se que as campanhas de esclarecimento exigem da população que faça sua parte – nada mais justo. Mas podemos perguntar: e a parte do governo, a começar pelo saneamento?
Mas não é apenas nisso que o Brasil é repetitivo.
Um dos livros mais importantes em língua portuguesa é A Arte de Furtar. Não se sabe quem o escreveu. A autoria atribuída ao padre Antônio Vieira não se sustenta. O autor permanecerá definitivamente anônimo.
Escrito numa prosa volumosa, barroca e abundante, fere um ponto central da vida brasileira. O livro foi publicado pela primeira vez no ano de 1744, com vários truques e despistes editoriais. Além do anonimato do autor, a menção a uma edição anterior, de 1652, que tudo indica jamais existiu. Tais truques visavam proteger o autor das punições a que estavam sujeitos aqueles que desmascarassem a presença corrosiva disso que hoje chamamos corrupção. Capturado, o autor enfrentaria a forca. Já os ladrões seguiriam soltos. Lógico.
Esse Brasil de 1744 não difere em nada do atual quanto aos trambiques representados por saques, roubos, assaltos, desvios, impunidade.
Vejam esse trecho (capítulo LXIX) sobre a impunidade então reinante e que ainda hoje é o câncer que corrói o país:

“Duas coisas há que facilitarão muito os ladrões a furtar: uma é o que sobeja neles e a outra o que falta em nós. (....) sobeja neles cobiça para nos roubarem e falta em nós justiça para os emendarmos. Bem está, assim é; mas tomara saber donde vem sobejar neles a cobiça e faltar em nós a justiça?”

Com um sistema judiciário dado a medidas protelatórias, chicanas, reduções de penas, os ladrões não tem razões para se emendar. Cometem o crime e, havendo grana para pagar advogados, a pena ficará para as calendas. Jamais será cumprida. No máximo um sexto. Ou nem tanto.
Dois exemplos aqui do Paraná. Em 2009 o então deputado Karli Filho, voando em sua máquina selvagem a 180 quilômetros por hora, ceifou a vida de dois jovens – Gilmar Rafael Souza Yared e Carlos Murilo de Almeida. Karli estava bêbado, sua carteira de motorista suspensa, ele não poderia dirigir. Pois até hoje, sete anos depois, segue livre. Deve ir a júri popular, dizem. Mas quando? E, dados os recursos que advogados inventarão, por quanto tempo?
Outro exemplo. O assassino confesso que degolou com uma faca de cozinha o escritor Wilson Bueno está em liberdade. Passou quatro anos na cadeia e, solto, foi julgado e considerado inocente em 2014 em júri popular. Está por aí, aguardando a próxima vítima.
É essa incompetência e incapacidade em punir que produz novos crimes. E produz também o sentimento de impotência na população e de prepotência nos criminosos. Enquanto isso os brasileiros vão morrendo de picadas de mosquito e sendo roubados por quadrilheiros instalados no governo.
E assim vai o país.
É verdade que nesses últimos anos, com a ação da PF e do Ministério Público, foram colocados atrás das grades algumas dezenas de bandidos. Mas não podemos nos iludir. Por mais importantes que sejam os resultados da Lava Jato, batalhões de políticos e de advogados estão à espreita para desfazer o que foi conquistado.
É bom ficar de olho.




terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

A teoria conspiratória das coisas que enguiçam







Sempre julguei que a minha atrapalhação habitual explicasse o fato de que meus papéis, minhas anotações, meus livros, meus óculos e o celular, bem como as contas a pagar e documentos de qualquer natureza, volta e meia sumissem. Depois de tantos anos e profundas meditações, já não penso assim. A culpa é das próprias coisas.
Elas se mexem, se escondem, jogam-se atrás da escrivaninha, enfiam-se no vão do sofá, entram nas páginas de um livro que eu nem estava lendo e passam a dormitar por lá enquanto eu procuro onde, afinal, anotei o endereço de que preciso.
Vejam o celular. É uma espécie de besouro neurótico.
Apita – normalmente quando não deve – tremelica, recebe ligações de número que desconhecemos, some com nossas mensagens. É verdade que eu o largo em qualquer lugar da casa, exceto a geladeira, e quando preciso dele não o encontro. Só então uso esse outro objeto neurótico, o telefone fixo, animal em extinção, para achar o celular. Disco para ele. Toca, toca, diz que não pode atender, eu que deixe recado. Como deixar recado para mim mesmo, ainda que de graça, como diz a gravação? Volto a ligar. Nada. Só então, após revirar a casa e as gavetas e as mesas, o sofá e a cama, é que me lembro de que pode estar no carro, quatro andares abaixo, na garagem. Não seria a primeira vez.
Acertei. Lá está ele, quieto. Não sei como desceu tantas escadas para se ocultar justo ali, no canto mais escuro. Já aconteceu, certamente ao me ver chegando, de mergulhar para baixo do banco e lá ficar de tocaia. Só consegui retirá-lo do esconderijo com a ajudar de uma lanterna e de um lápis.
Para ficarmos no celular, tenho notado que ele tem sido tomado por impulsos suicidas. Deixei-o em cima da mesa da sala e, lá da cozinha, escutei seu chamado histérico. Estava passando um café, esperei. Foi quando escutei o estrondo. O neurótico, que além de assobiar tremelica quando me chama, deslizou pela mesa e se atirou no chão. Infelizmente não se quebrou todo. Esparramou bateria e tampa pelo chão, mas, remontado, funcionou.
Mal, é claro. Celular sempre funciona mal.
E essa é uma das características das coisas: elas conspiram. Nunca acontece de queimar uma só lâmpada na casa. Quando queima uma, outra chega ao fim. Ou o ferro de passar roupa não funciona. Ou a televisão perde o sinal. Ou o rádio é invadido por ruídos meteóricos. Ou o celular, sempre ele, perde-se no ar em busca de uma rede que não encontra.
As coisas – eis o princípio – agem em conjunto, conspirando.
Mesmo os livros, essas criaturas tão dóceis e amigas, muitas vezes entram em conluio com as coisas em geral, sobretudo se uma diarista resolve espaná-los e os enfia em qualquer vão de estante, o que faz com que livros de fotografia convivam com livros de história, os de filosofia com aqueles de música. Dia desses peguei um encontro inusitado, num canto remoto de prateleira, entre Minhas tristes putas, do Gabriel Garcia Márquez e uma biografia de São Francisco de Assis.
Temos, portanto, enguiços de eletrodomésticos, sumiços de celulares, livros que se homiziam, como dizem os repórteres policiais, em lugares indevidos e não sabidos.
Mas não para por aí.
Tenho aqui no apartamento um cano ou uma junta qualquer que resolve volta e meia pingar no apartamento abaixo. A moradora me deixa um recado por debaixo da porta: “Está pingando de novo!!”, assim mesmo, com duas exclamações, o que indica um certo limite de paciência.
Pois tem mais: só pinga quando ela vai ao espelho se pentear. Bem na cabeça. Diga-se que são pingos miúdos, de frequência incerta e humilhante, justo os mais incômodos. Não abro mais a torneira suspeita, passo a usar o outro chuveiro, informo à vizinha que tomei providências. E lá vem novo bilhete: “Continua!!”
Volto a usar a torneira e o chuveiro, o encanador vem inspecionar. Os pingos cessam. Impossível localizar de onde vêm.
Na última ocasião o encanador levou um mês para descobrir a origem do vazamento. Tratava-se de uma falha em algo chamado rejunte, que foi remendado. Deixou de pingar. Mas agora voltou. E, é claro, já não sei onde se enfiou o papelzinho onde anotei o telefone do encanador.
Tudo isso comprova minha tese de que há uma conspiração em andamento. As coisas conspiram, seja por cansaço de tanto nos servirem sem reconhecimento ou por mera molecagem.
Certa ocasião, numa viagem, começou a chover e eu tentei acionar o limpador do para-brisa. Nunca havia apresentado defeito, mas resolveu não funcionar. A chuva aumentou. Parei no acostamento e um sujeito fez o mesmo. Vai me ajudar, pensei. Ele veio, olhou, perguntou o óbvio:
- Não funciona o limpador?
E eu:
- Não. E logo agora que começou a chover.
O sujeito me deu um tapa nas costas, brincalhão:
- E você queria o quê? Só enguiça quando chove.
E voltou ao seu carro e se mandou, às gargalhadas.
Não fiquei irritado com ele. Tratava-se de um sábio, conclui. Desde então adotei a teoria da conspiração das coisas que enguiçam. Não há outra explicação.




quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A moda é viola




O violeiro. José Antônio Silva (1909-1996). Óleo sobre tela.


Eis um livro que eu pensava faltar na bibliografia da música caipira. Eu estava errado. Embora o autor, Romildo Sant’Anna, seja meu conhecido – à distância, é verdade, nos vimos em São José do Rio Preto no século passado, início da década de 1980; foi uma vez só mas foi o suficiente – eu desconhecia que ele havia cometido esse Ensaio do Cantar Caipira, subtítulo do livro A moda é viola.
Conhecia Romildo – professor, jornalista – como um estudioso da cultura popular, em especial como o pesquisador dedicado do pintor “naïf” José Antônio Silva, que o próprio Romildo apresenta assim em página da internet:

“Criado na roça e filho de humildes meeiros, José Antônio chegou a Rio Preto bem jovem, a capinar em sítios e fazendas da região. Sua disposição para a arte o chamou para a cidade, em finais de 1930. Sem eira nem beira, foi alojado com a mulher e seis filhos descalços, nos fundos do Centro Espírita Allan Kardec de São José do Rio Preto. Realizava o serviço que aparecia, de carroceiro e pedreiro a guarda-noites de hotéis. Já famoso em São Paulo na década de 1950, e por indicação do governador Adhemar de Barros, lhe foi dado emprego na Prefeitura Municipal.  Era o faxineiro da Biblioteca.  Muito antes já havia criado uma pequena Galeria de Arte em sua residência. Nem sabia o matuto da roça que estava criando o primeiro Museu de Arte na cidade que o acolhera.”

Hoje a obra de José Antônio Silva se encontra abrigada no Museu de Arte Primitivista "José Antônio Silva", em São José do Rio Preto, fundado e dirigido por Romildo.

Mas o caso aqui é a moda e a viola. Esse devorteio foi só para apresentar o autor.
Já o livro é uma alentada obra saída em primeira edição no ano de 2000 e que chegou em 2015 a esta terceira edição ampliada. São robustas 552 páginas nas quais o autor minuciosamente – mas com uma linguagem solta e agradável, cheia de vida, tal como os ponteios de viola – estuda e expõe a cultura caipira e sua música. É claro, destrói preconceitos e ideias feitas. Situa essa expressão cultural no seu meio, no seu seio – e lhe dá o devido valor. É impossível não sentir desde as primeiras páginas a paixão com que o autor se debruça sobre esse tema, que não é para ele coisa de academia, mas fonte de vida, tal como a pintura de José Antônio Silva.

Eis aí, violeiros desse Brasil afora, quem quiser falar sobre cultura caipira sabendo do que está falando tem obrigação de ler essa obra fundamental.





quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

PUBLICA-SE NO BRASIL - por André Seffrin


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O artigo aqui publicado é escrito por André Seffrin, um refinado crítico da literatura brasileira contemporânea. Ele destaca duas boas antologias (Antologia da poesia erótica brasileira, edAteliê, 2015, org. Eliane Robert Moraes e Poemas para Dom Quixote & Sancho, edUFPE, 2015, org. Carlos Newton Jr.) e um livro muito ruim mas que é badalado por aí para enganar incautos, A poeira da glóriauma (inesperada) história da literatura brasileira, ed. Record, de Martim Vasques da Cunha. Sobra uma paulada em Bruno Tolentino.

Não perca. Para não ler gato por lebre. 



PUBLICA-SE NO BRASIL -  André Seffrin

É tempo de boas antologias por aqui. Para começo de conversa, a Antologia da poesia erótica brasileira (Ateliê, 2015), organizada por Eliane Robert Moraes, nossa especialista no tema, que escreve um prefácio bem situado e reúne poemas de Gregório de Matos aos contemporâneos. Já os Poemas para Dom Quixote & Sancho (UFPE, 2015), organizados por Carlos Newton Júnior, nosso afinado antologista e também poeta dos bons, é livro que reúne um grupo forte de poetas de língua portuguesa em torno do mito do Quixote no quarto centenário da publicação integral desse clássico de Cervantes.
E é igualmente tempo de ensaio, de bons ensaios e alguns nem tanto. O livro de João Cezar de Castro Rocha, Por uma esquizofrenia produtiva: da prática à teoria (Argos, 2015, organização de Valdir Prigol), e o de Roberto Acízelo de Souza, História da literatura: trajetória, fundamentos, problemas (É Realizações, 2014), ambos de qualidades excepcionais, deveriam orientar todos os cursos de Letras deste país baldio, sobretudo para que as novas gerações de estudantes alcancem noção menos estreita das tantas dificuldades que envolvem o ensino da literatura.

Ao contrário, o “compêndio” A poeira da glória: uma (inesperada) história da literatura brasileira (Record), de Martim Vasques da Cunha, está entre os “ensaios nem tanto”, ou melhor, entre os maus livros do período. Outra informação estampada na capa entrega o jogo: “O livro que até mesmo o politicamente incorreto considerou imprudente”. E o resto é mágica de circo, jornalismo literário de muito duvidosa extração, bem ao gosto do funil mercadológico de sempre. Pode ser bastante lucrativo para o editor, por vezes atrai público ávido por verdes e amarelas novidades frívolas e pode render um bom direito autoral. Não acompanhei, mas é possível que tenha alcançado divulgação na Veja (essa revista que, segundo um amigo, devemos folhear com luvas Lemgruber). Sim, um livro recheado de afirmações bombásticas e citações equívocas, como aquela do soneto na página 558, que Vasques da Cunha utiliza de exemplo ao tratar do que define como “a tragédia de José Guilherme Merquior”. Pois sim, só incautos ainda acreditam nesse grande embuste chamado Bruno Tolentino e seus mágicos sonetos...





terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Galeno e o (assim chamado) coito






A frase é de Galeno, notável médico e filósofo romano de origem grega. Diz o seguinte:

“Depois do coito todos os animais entristecem, à exceção da fêmea humana e do galo”.

Já conhecia essa frase de Galeno, mas não me lembrava dela. Talvez por me faltar tristeza nos momentos aos quais ele se refere, talvez por razões insondáveis. Dei com ela num livro que não tinha nada a ver com o coito e suas consequências e interrompi por momentos a leitura. É que a frase me pareceu curiosa.
Ela revela no autor um espírito atento a tudo que se passa na natureza e nos organismos animais, o ser humano aí incluído. Galeno, embora tivesse sólidos conhecimentos filosóficos, foi daqueles pesquisadores que se afastaram da pura especulação teórica e dedutiva, tão cara aos gregos e aos primeiros pensadores.
Foi pioneiro da observação direta, da dissecação e da vivissecção, essencial à formação médica. Como não era permitido praticar dissecação em corpos humanos, ele a executava em macacos e tirou de seus estudos ensinamentos que ainda hoje, em seu arcabouço geral, estão presentes na medicina ocidental, como, por exemplo, a hipótese de que o cérebro é o comandante dos movimentos musculares e do sistema nervoso periférico. E, entre outras contribuições, mostrou que os rins são órgãos excretores de urina.
Enfim, sem querer gastar um conhecimento que não tenho, deixo anotado apenas que ele foi um notável pesquisador.
Então, voltemos à frase. Segundo ela nos diz, Galeno observou homens e animais após o coito e constatou sua indisfarçável tristeza. Digamos que isso pode ter sido resultado de auto-observação. Após o coito Galeno se sentiria triste.
Mas há mais. Ele exclui dessa tristeza as mulheres e o galo.
Quanto às mulheres ele pode ter feito também uma observação direta. Segundo reclamação de algumas delas, os homens costumam cair no sono após o sexo, mostram-se desinteressados de tudo – muitos se limitam a perguntar formalmente se “foi bom para você?”. E não telefonam no dia seguinte, o que é um sinal lamentável, donde se pode concluir a respeito de alguma tristeza havida. Elas, ao contrário, ficam acesas após o coito.
Mas também há quem reclame que elas saltam da cama com demasiada rapidez, voltando a sua atividade preferida, falar. Em oposição, os homens são tomados, talvez pela tristeza, por um mutismo enervante, uma surdez tumular, motivo pelo qual são acusados de desligados, insensíveis a respeito de papos transcendentais. É quando elas disparam frases feitas – o mundo do amor e do sexo é feito de inúmeras frases feitas, é bom lembrar – segundo a qual “você não me ama mais”, ou, pior ainda, “você só pensa em sexo”.
Então, além de saltarem da cama elas falariam demais e sempre.
Não sei. Há controvérsias. Galeno pode ter errado nesse caso. Vai ver suas companheiras de cama tenham sido daquelas que adoram discutir a relação justo após o coito, o que é de fato uma das maneiras mais cruéis de tortura.
Nesse século XXI – ou seja, vinte séculos após Galeno – temo que as mulheres que leem essas minhas especulações desabusadas, poderão se enfurecer e encher minha caixa de e-mails com desaforos e críticas severas.
Mas quero dizer que não pretendo ofender o sexo que já foi frágil. As mulheres são adoráveis, ao contrário do que pensavam Schopenhauer, Nietzsche e tantos pensadores famosos.
O que me causa maior espanto é a referência aos galos.
Eis a razão de minha grande admiração por Galeno: constatou uma diferença entre galos e galinhas. Elas são dóceis no geral, se aquietam após o coito e, após sacudir as penas, seguem com suas atividades preferidas: ciscar o quintal em busca de algo para se alimentar. Já os galos são agitados e parecem estar prontos para nova empreitada. Aliás, parecem ainda mais afoitos e ousados, não raro saindo quintal afora em busca de nova companheira.
Temo, no entanto, que seja pura exibição festeira. O galo é dado a espalhafatos. É um grande marqueteiro, na verdade. E nem toda criatura que pertença àquilo que Galeno chama de “fêmea humana”, salta de imediato da cama e dispara a falar.
O que se deduz daí? Nada. Galeno era um cientista sério e profundo, enquanto eu, que escrevo essas linhas feitas de amenidades e ironias, sou apenas uma criatura que se diverte com palavras e conceitos. Em particular com ideias feitas e preconceitos.
Ou seja, o que fica para a história da ciência – e Galeno é um exemplo notável disso – é a experimentação. No jogo do bicho se diz que “vale o escrito”. Pois em ciência vale o que for submetido à experiência.
O mesmo se pode dizer do sexo, sendo que os que ficam tristes parecem se perguntar: era só isso?
Não é essa uma preocupação do galo, como se pode supor.