quarta-feira, 25 de março de 2020

O Alienista rumo ao abismo





Região News - Jornal americano coloca Bolsonaro com Hitler em charge


  
Todo brasileiro deveria, antes de completar vinte anos, comprovar que leu a novela de Machado de Assis O Alienista, sem o que não poderia gozar de seus direitos de cidadão. Trata-se de obra excepcional e definitiva, o que é atestado, inclusive, pelas várias encarnações que teve na vida política brasileira.
O caso mais notório foi o de Delfim Moreira, que ficou no cargo de novembro de 1918 a junho de 1919. No entanto, comparado com os malucos que o antecederam e o sucederam, era uma espécie de maluco manso que súbito entrava num mundo paralelo e lá ficava a delirar inteiramente desligado do cargo para o qual fora eleito. Enquanto durasse o seu devaneio, ele era substituído por Afrânio de Melo Franco, pai de Afonso Arinos, que cuidava de papeladas, cerimônias, decretos, reuniões etc.
O Alienista é o que se pode chamar de obra perfeita. Escrevi sobre essa novela um ensaio que foi publicado como introdução à edição da Nova Fronteira, Rio, 2017. Obra-prima notável, é herdeira da tradição do romance picaresco inaugurada por A vida de Lazarilho de Tormes, (que traduzi para a L&PM) e parente da obra do mestre russo Gogol. Conta a história de Simão Bacamarte, que se imagina a grande encarnação do sábio que tem por destino dirigir os passos do povo, essa massa ignara.
Ele é possuído pela ideia fixa de separar razão e ciência, mas na verdade o que ele tem como obsessão é o poder, no caso, o da ciência e dos governantes. Com maestria, Machado não diz muito a respeito de seu personagem, não dá opiniões, apenas foca sua atenção de ficcionista em alguns traços do personagem, sobretudo seus olhos.
Os olhos de Simão Bacamarte faíscam, querem saltar de seu rosto feito dardos e ferir aqueles que julga doidos, espécie que ele pretende escorraçar de Itaguaí, onde pretende implantar seu projeto de governo.
Essa é a primeira aproximação possível entre Bolsonaro e Bacamarte, o olhar. A loucura salta de seus olhos, febris, delirantes, que enxerga no mundo o que bem entende. Vem daí o mergulho em sua obsessão seguinte: a distinção nítida e definitiva entre razão e loucura. A mesma separação com que opera Bolsonaro, utilizando-se dos termos direita e esquerda. A irrealidade do projeto de Bacamarte é a mesma que faz com que Bolsonaro lute, com pleno 2020, com fantasmas de outro século.
O aspecto destrutivo de Bolsonaro fica evidente no seu percurso político. Durante cinco mandatos de deputado foi mera curiosidade regional. Chegou à presidência da república de modo relâmpago, tal como um doido que o antecedeu, Collor. Do dia para a noite, se viu no Alvorada.
Sua concepção política, no entanto, que em Collor era a de um capitão do mato alagoano, é nele o de um tipo que foi forjado na caserna, um fruto de uma mentalidade arcaica que viceja no exército brasileiro. Nesse tipo se inclui o nacionalismo caricato, a concepção centralizadora do poder, o culto do homem providencial, o que no Brasil se junta ao mito de Dom Sebastião, o morto vivo que voltará da morte para salvar seu povo, origem de todas as concepções brasileiras totalitárias.
A isso se acrescenta uma mente vazia. Faz parte do folclore político brasileiro um grupo de anedotas que retratam o presidente Dutra como um homem muito burro. Penso não ser bem assim, mas Bolsonaro sem dúvidas é de uma incultura insuperável.
Veja-se a sua retórica. Antes de mais nada, seja qual for a plateia à qual se dirige, procede como um sargento dando ordens a um grupo de milicos. A voz é grossa, trovoada artificial que exige muito esforço, e seu tom é alto. Acho que é a mais perfeita expressão de sua inadequação ao cargo de presidente. É claro que Bolsonaro, precisaria aprender a diferença entre comandar uma nação democrática e uma tropa de subalternos. O berro não é boa retórica. Mas, egresso da caserna e sem ter buscado em outra parte luzes que pudessem iluminá-lo, Bolsonaro não consegue estabelecer uma distinção entre essas duas coisas.
Embora se diga democrata para efeitos eleitorais, sua visão de mundo, dos costumes, de religião, é atrasada e tacanha. Das mulheres, é sabido, tem uma visão de troglodita das cavernas.  O que imagina ser o papel de sua “família”, corresponde a um modelo mafioso que constrangeria Al Capone. No entanto, precisa se fazer de democrata, pois grupos mais flexíveis do exército não querem ver a corporação metida em nova aventura da qual sairá mais chamuscada do que dos idos de 1960-1980. Além disso, ele sabe que sua margem de controle do seu eleitorado é baixa. Tal como Collor uma boa percentagem dos que o elegeram não se sente obrigada a nenhuma fidelidade e precisam ser agradados continuamente. Daí que vocifere como Hitler nos eventos com seus iguais e busque (sem conseguir) ser malandro à maneira de Getúlio em outros espaços. Também não consegue.
Por isso sua relação com seu próprio partido, que fundou e se encarregou de esfacelar, é a pior possível. Um partido, seguindo a tradição brasileira, é uma limitação, menos ideológica do que de favores, acertos, acomodações etc. Por isso, Bolsonaro esfacelou o PSL pois se imagina uma fera indomável e sem freios. Mas teve que engolir o seu vice. Teve que engolir outras figuras mais ou menos “democráticas” que tratou de defenestrar assim que tomou posse. Fritou uma série deles, demitiu grosseiramente outros, foi o campeão em nomear e demitir a partir de escolhas fulminantes e incompreensíveis. A falta de nomes de categoria aceitável – que se afastam dele ou às quais não consegue atrair - nomeou ministros ignorantes (Educação), inoperantes (são tantos), oportunistas (Funarte e Secretaria da Cultura). Além disso, já sente um desconforto incontrolável com sua melhor indicação de ministro, o da saúde. Bolsonaro e seus filhos já não suportam um ministro que parece competente, que comporta-se com educação, falando com correção gramatical, que tem uma cultura, não só médica, respeitável etc. Luiz Henrique Mandetta irrita ao clã e seu chefão, mas é o homem marcado para morrer, sobretudo pelos acontecimentos de hoje, 25 de março.
Daí as contradições de atitudes, o abandono de partidários antes fiéis e elogiados (Bebiano), a defenestração de outros, com o que chegamos ao atual cenário constrangedor em que o ministro da Saúde diz uma coisa e Bolsonaro se coloca na TV, histérico, dizendo exatamente o contrário.
É a esquizofrenia do doidivanas. Dividiu seu partido, separou-se de amigos de velha data, dividiu seu ministério em fatias onde abriga um saco de gatos e se comporta como um timoneiro que leva a nave rumo ao desastre.



terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Noivado no sofá da sala. Regina e Bolsonaro




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O noticiário político brasileiro nos passa a sensação de que poderíamos nos ocupar de coisas mais importantes. Discute-se agora se Regina Duarte deve ou não assumir um cargo no governo, não se sabe se ministério ou secretaria, a decidir. Que importância tem isso? Nenhuma, me parece.
Regina é a mesma namoradinha do Brasil, embora entrada nos setenta anos. Sorri com certo exagero diante de dias tão sombrios. Fez alguns bons trabalhos na televisão brasileira e desde algum tempo se dedicou a dar declarações retumbantes, mas ambíguas, com o que oscilava de um lado a outro no espectro político.
Agora ela se junta de corpo inteiro à série de metáforas produzidas pela mente limitada do capitão e auxiliares. Bolsonaro, na ânsia de parecer popular e dando braçadas de afogado num vocabulário limitado, não fala em alianças, negociações, composições e debates, mas em namoros, separações, brigas de família, casamentos, divórcios. Nessa trilha, diz que está noivando com a Regina Duarte.
É constrangedor. Haverá algo mais ultrapassado e arcaico do que um noivado?
Repetem os jornalistas que se trata de uma nova polêmica. Como sempre, essas tais decisões “polêmicas” do capitão são largadas no ar às vésperas de alguma viagem ou feriado para que a nação se ocupe em ruminar tais dilemas, que nada têm de polêmicos. No Brasil, onde se está produzindo um achincalhamento tenaz da língua portuguesa, agora qualquer declaração grosseira, rude, constrangedora, passa a ser “polêmica”. Não se trata disso. São apenas grosserias ou falsos problemas. Dilemas de botequim.
Então, ficamos aqui esperando o que decide a atriz ou pelo que opta o capitão. Naturalmente, nada se sabe a respeito do que eles acreditam ser os problemas da cultura brasileira.
Além disso, é difícil imaginar que, havendo algum choque de opiniões, digamos, um avanço crítico mais ousado num filme ou peça de teatro, o coronel deixará de avançar seu óbvio ódio visceral a todo e qualquer pensamento mais refinado. O que fará então a atriz? Dará um sorriso e engolirá em seco? Fará de contas que não é com ela? O capitão dará declarações de que o relacionamento emperrou, mas que, como em todos os casamentos, momentos de conflito acontecem etc. e tal. Algo desse nível.
Ora, o Brasil tem problemas sérios na chamada área da cultua. Os museus, por exemplo. Sabemos que dezenas deles estão fechados. Outros estão às moscas e ameaçam caminhar na direção em que enveredou o Museu Nacional: um incêndio lamentável.
Há a questão das bibliotecas públicas, cada vez mais largadas à deriva. Como se sabe, há um percentual enorme de escolas que não têm nada que possa ser chamado de biblioteca. Ou seja, pretende-se que alunos aprendam a língua portuguesa sem ter acesso a bibliotecas decentes.
Some-se o teatro e o cinema nacional – do qual Bolsonaro, coerentemente, só conhece a Bruna Surfistinha. Teremos aqui um debate incendiário ou não?
No entanto, tudo isso apenas bordeja a questão mais profunda: continuaremos a ter de um ministério da cultura uma ideia meramente “dirigente” e “financeira” ou seja, censora?
Ora, o dirigismo cultural é algo tão nefasto quanto a censura estatal da produção artística. Não creio que o exemplo dirigista da era PT seja um caminho viável. Mas também não creio que seu oposto poderia ser alternativa ao império de burocratas que determinam, segundo o governo de plantão, o que se deve pensar, escrever, ver ou ler. A grande vacina a todos esses disparates que passam pelas cabeças de líderes da esquerda e de direita no Brasil – aliás, cabeças robustamente ignorantes – deve ser resumida numa palavra: liberdade. Mas será que nossos pequenos Hitlers ou Lenines estarão dispostos a se eclipsarem para que a cultura floresça com toda a sua intensidade?
Quem deseja colocar cabresto em atores culturais – venha da direita ou da esquerda – vai apenas repetir o que temos sofrido há tantos governos.
Em resumo, o polêmico não é sabermos se Regina Duarte deve ou não aceitar o cargo oferecido. A polêmica é se pensar quais caminhos são viáveis para um país com 11,3 milhões de pessoas com idade acima de 15 anos classificadas como analfabetas. Em outras palavras, como e quando poderemos agir culturalmente para superar o lugar lamentável em que nos encontramos?
O Brasil é um país de múltiplas faces, tendo sido formado por gentes vindas de todos os cantos do planeta, com visões e formas de expressão as mais diversas. Tais manifestações vieram se somar ao universo cultural dos indígenas brasileiros, vítimas de um desprezo absoluto por parte do atual governo. As posições tomadas pelo capitão com relação às terras indígenas, sendo a clara manifestação do seu limite intelectual: ele não tem a menor condição de entender o outro – e cultura implica respeitar o saber do outro.
Nesse sentido, o bolsonarismo não é capaz de dar uma direção à questão cultural, que para ele só tem uma solução coerente: o extermínio.
Assim, se Regina Duarte aceita ou não o cargo, ou o repassa a qualquer outra figura da baixa sapiência televisiva nacional, a questão não se resolve. Por um motivo simples: esse não é o problema.
Daí a sensação de La nave và, mito antigo que inspirou Fellini a produzir um filme extraordinário. O Brasil, infelizmente, é um país à deriva, que boia num oceano poluído e infestado de dejetos os mais diversos. Não sabe de onde veio e não sabe para onde vai.
Regina Duarte, na melhor das hipóteses, figurará nessa nave como uma Viúva Porcina destrambelhada a disparar gargalhadas histéricas diante das idiotices produzidas à sua volta.
Já na pior das hipóteses... bom, esperemos pela próxima “polêmica”.

 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Sem cultura e desastrado, eis Roberto Alvim




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O que há de bizarro nesse governo Bolsonaro não são apenas as medidas estapafúrdias relacionadas à questão do meio ambiente ou ao show circense diário do presidente – com direito a palavrões e expressões grosseiras, recheadas de falta de educação – ao sair para o “trabalho”, diante de uma claque amestrada de seguidores que soltam urros e guinchos de aprovação a cada patada desferida pelo capitão.
Há, nesse triste espetáculo que somos obrigados a assistir todos os dias, algo de mais grave e doentio.
Peço aos meus leitores para prestarem atenção ao penteado do capitão.
Para quem – supostamente – acabou de levantar-se e tomar um banho, o penteado do capitão encontra-se em perfeito e estudado desalinho. Mechas se derramam pela testa, caindo para o lado esquerdo e, a cada desaforo que dispara na direção de inimigos reais ou imaginários, seu topete joga-se de um lado para outro, dando uma ênfase furiosa a seus impropérios.
Notem os leitores que isso lembra muitas imagens feitas de Hitler. A expressão do rosto é sempre tensa e agressiva, os olhos jamais abandonam a tensão que dispara milhares de farpas. As mãos, no entanto, apresentam certo desacordo e, rígidas, oscilam de um lado para outro exprimindo uma fúria que mal se contém.
No caso do capitão, embora falte o bigodinho, lá está o topete esparramado sobre a testa, além dos olhos dardejantes.
É preciso perceber que aquele topete não está ali por acaso. Ele foi cuidadosamente desalinhado por algum auxiliar de imagem do capitão. Quem sai para o trabalho pela manhã em tal desalinho?
Ora, entre o modelo nazista de Hitler e a caricatura do capitão, há muita semelhança. Aquela semelhança buscada, estudada, arquitetada. O objetivo é óbvio: é preciso disseminar sinais e signos que despertem, nos seguidores fanatizados e na população em geral, a memória de um líder messiânico que anunciava mil anos de glórias que duraram alguns anos e terminaram na maior carnificina que o mundo já presenciou.
Mas, diante da ignorância política que está estampada nos uivos e gritos de seus seguidores, vemos que a intenção é incentivar a adoração ao novo messias e a suas “ideias”.

Vejamos agora outra imagem, que talvez pareça a alguns o contrário do que observamos acima, mas que na verdade é apenas a sua confirmação.
Temos diante das câmeras o individuo Roberto Alvim, secretário especial de Cultura do Brasil. Notem que está bem penteadinho, bem durinho no seu terno recém comprado. Os cabelos são poucos, é verdade, mas armam-se numa ondulação que lembra aquela que produzia topetes à base de laquê na década de 1970. Eis um homenzinho bem posto, arrumadinho, escanhoado com cuidado, olhos de quem está inebriado pelo próprio sucesso.
A impressão que resulta dessa figura limpinha e asseada é que se trata de um sujeito cordato, não é? Mas não é. Esse tipo teve o desplante de ofender com requintes de estupidez e insanidade a uma das maiores atrizes do Brasil, Fernanda Montenegro. No entanto, esse tipo aí está para dirigir os destinos da cultura brasileira.
Pois a selvageria de Alvim não foi apenas essa. Agora, num pronunciamento em vídeo, ele apropriou-se de uma das falas mais emblemáticas de Goebbles, o poderoso ministro de Hitler. Pois Alvim pinçou palavras do nazista para anunciar o que é seu projeto para a cultura brasileira. Disse ele: “A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional.” Palavras de Goebbles.
Diante da reação da parte inteligente do pais, inclusive de entidades que representam a cultura judaica entre nós, o arrumadinho Alvim tentou amenizar, alegando que a citação do nazista teria sido apenas coincidência.
Não foi, mesmo que o inculto Alvim pense assim. A expressão é nazista e ali está para anunciar, como o topete despenteado do capitão, que há um projeto nazista por detrás de destemperos e contradições do atual governo.
É esse desencontro que mostra ignorância histórica e falta de cultura do capitão e seus asseclas. Vale lembrar que o capitão, em passagem pela Alemanha, deu uma declaração que deixou o mundo (aquele alfabetizado, é claro) estarrecido. Segundo ele, Hitler seria socialista, portanto de esquerda, pois seu partido era Social Democrata.
Eis aí uma lavada e óbvia demonstração de burrice histórica.
Já o arrumadinho Alvim peca pelo mesmo mal. Alega não saber a extensão de seus atos. E cita um texto conhecidíssimo de Goebbles com a inocência de um colegial que fez xixi fora do combinado.
Então, cabe concluir que a situação atual do Brasil é muito mais grave do que aparenta ser. Hoje podemos dizer que o Brasil está voltando as costas a si mesmo, abandonando conquistas que custaram sangue, suor e lágrimas, em troca de uma concepção de política que é, além de fascista, grosseiramente ignorante.
É preciso então pensar que aquela claque que urra histérica aos ditos do capitão tende a se inflar e, se não forem alvo de uma crítica contundente, mergulhar o país numa nova era de trevas severas.
No momento, espera-se de Robert Alvim seja demitido. Mas isso não resolve a questão. Ele foi desastrado e talvez seja varrido pelo capitão. Mas as atitudes e ideias fascistas estão prosperando.



segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

O Festival de Besteiras – o retorno





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Sérgio Porto, notável escritor e humorista, também conhecido pelo pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, morreu em 1968. Estivesse vivo, teria um material inesgotável com o qual ampliar o seu levantamento a respeito do Brasil sob a ditadura Militar, o chamado O Festival de besteiras que assola o país, o trágico e hilário FeBeAPá.
Ocorre que o desgoverno Bolsonaro, sob os olhares atônitos da nação, segue no seu afã de fazer com que o Brasil retorne ao século XVI.
Não exagero.
Estava eu aqui me preparando para escrever algumas mal traçadas sobre as mais recentes asneiras produzidas por auxiliares de Bolsonaro, quando sou surpreendido pela nomeação para a presidência da Funarte do... quem mesmo?
Vejamos. No site de Dante Mantovani, agora presidente da Funarte, tudo está organizado para provocar suspiros de admiração pela trajetória do retratado.
Mas algo não funciona.
Diz o retratado pertencer à “comunidade paraguaçuense” tendo dado cursos sobre “vários instrumentos”. Não é muito,
Somos informados que, além de maestro, é coautor (embora não diga qual o nome do parceiro com o qual escreveu a obra) de dois livros que seriam best-sellers no site da Amazon.com, maior site de vendas do mundo, acrescenta.
Ocorre que na Amazon.com não há registro de uma das obras mencionadas, enquanto a autoria da outra é atribuída a Francisco Navarro Lara, que por sua vez não cita qualquer coautor. Francisco seria o autor, simplesmente, como consta da capa do livro.
Os livros seriam “Los Dez Mandamientos Del Director de Orchesta Del siglo XXI”, “El milagro de dirigir la Orchesta sin usar las manos” e “Vade Mecum de La Dirección Orchestal” , lançados, com presença dos coautores, em Huelva, Espanha, em 2015. Estes seriam os best-sellers vendidos pela Amazon.com.
No entanto, ao pesquisarmos a obra Vade Mecum de La Dirección Orchestal no site da Amazon recebemos uma resposta formal: “Nenhum resultado para Vade Mecum de La Dirección Orchestal”.
Não bastasse, o maestro alega que publicou dezenas de artigos nos seguintes veículos: “Jornal Folha da Estância (SP), Jornal O contemporâneo (SP), Jornal A Voz (SP), Revista Philologus (RJ), Revista Entretextos (PR), Revista Diálogos Musicais (Acre), Revista Coments (SP), Portal Si Vis Pacem, Site Mídia Sem Máscara”. Sem comentários.
A tudo isso se junta uma informação curiosa: o maestro, que se diz também filósofo, alega ter participado de um conclave para a Democracia, em Washington D.C., realizado pelo “prestigioso” National Press Club, onde esteve a convite do “filósofo” Olavo de Carvalho, de quem se confessa aluno desde 2012.
Sabemos que o National Press Club não é um local de grandes debates, mas sim um clube que dispõe de instalações e contatos que facilitam a atividade profissional de jornalistas. Segundo as palavras do próprio site do clube, trata-se de um local próprio para “o relax, a apreciação de um drink ou jogar cartas”. Ao que tudo indica, aluga suas dependências para eventos jornalísticos.
No mais o autointitulado maestro e filósofo tem programa na Rádio Mãe de Deus e faz comentários de cultura na TV Paraguaçú.
Vale assinalar que nunca exerceu cargos administrativos na área da cultura e não se destacou além dos limites interioranos por onde circula.
Enfim, Mantovani é mais um estrupício inventado com o evidente objetivo de desprestigiar áreas da cultura que Jair e seus filhos, por não terem a menor condição de entendê-las, odeiam. Esse ódio, como explicaria qualquer psiquiatra, tem origem em puro ressentimento. Um caso clínico, é verdade, mas trata-se de uma estratégia muito bem planejada que vem se repetindo em diversos órgãos governamentais, do Ministério da Educação à Funarte.
O alvo é óbvio: deseducar. A tática é semear a confusão levantando falsas polêmicas.





quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Como governar em pé de guerra ou A política segundo Bolsonaro



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Não direi nenhuma novidade, pois todos sabem que vivemos, os brasileiros, aos trancos e barrancos, na expressão feliz de Darcy Ribeiro. A cada dia, somos torpedeados por novas teorias alarmistas, ameaças de lado a lado, fossos cavados entre as fronteiras impossibilitando um rumo para o país. O que se entende por política se reduz a um xingamento mútuo, governantes e militantes se comportando como moleques de rua trocando desaforos. E os oráculos das duas facções não se cansam de colocar mais gasolina na fogueira. Afinal, é a arma da guerra.
Algum desavisado pensaria que os sobressaltos dessa montanha russa resultariam de alguma conjunção dos astros, algo a ver com as fases a lua, ou, quem sabe, resultado de uma maldição lançada pelos deuses.
Não se trata disso.
Note-se que o Jair agora está apresentando um projeto ao Congresso, necessário, segundo ele, para o enfrentamento dos movimentos de protesto. Para enfrentar tais ondas de protesto, que são até agora puro delírio do Jair, o governante pretende se encher de poderes para baixar o sarrafo nos descontentes.
A verdade é que o presidente precisaria entender que movimentos de protestos são episódios frequentes nas democracias, sendo detestáveis apenas aos olhos de tiranos de ópera bufa. Vejam que na França ninguém está propondo novas legislações para trancafiar em masmorras os gilet jaune. A pancadaria come de lado a lado, o confronto está nas ruas, mas, terminados os protestos, todos voltam a seus afazeres e seguem a discussão no dia a dia, até que novo apito da panela de pressão exija nova pancadaria nas ruas.
Não é assim com o governo do Jair. Diante da possibilidade futura de confrontos como os do Chile, ocorreu ao Jair sacar de seu coldre de ideias curtas um decreto que aprofunda o fosso entre governantes e governados.
Não bastasse – e mostrando que os trancos e barrancos são planejados – o ministro Guedes chamou para a dança o fantasmagórico AI5. O resultado foi a disparada do dólar. Alguém acha que, com a formação de economista que o ministro tem, ele teria dito diante de jornalistas e câmeras e microfones o que disse sem avaliar as consequências? Como diz o povo: foi de caso pensado.
Temos aí uma série de erros grosseiros. O mais grave sendo a ameaça do fantasma do AI5, que tem sido inflado por quem julga que política é uma espécie de briga de boteco.
Mas a razão do uso de tal recurso é manter de pé o anúncio de que tudo só se resolverá com um regime ditatorial.
Tal concepção política não é acidente ou esquisitice de ministros e governantes desorientados. É parte de um plano muito bem urdido e conduzido com obstinação pelo Jair e seus comandados.
Em primeiro lugar, cria-se o pânico. Os pretextos podem ser diversos, sejam as  inexistentes manifestações nas ruas ou um decreto qualquer. Em seguida, asseclas disparam ameaças de possível retaliação dos inimigos. Acionado o alerta, os partidários ficam em prontidão enquanto porta-vozes improvisados desmentem o que mentiram e outros desmentem as mentiras dos desmentidos.
Guedes, ágil Pinóquio, desmentiu-se a si mesmo, dizendo que a fala sobre o AI5 era para ficar só em off.
Despistes cujo objetivo é de molde militar.
Por uma razão simples. A visão de política e de governo que têm os militares é calcada no modelo da guerra. Eles, os militares, são homens feitos e moldados para a guerra. É a guerra que dá sentido às suas existências. A guerra é o meio no qual eles se sentem bem. Trata-se do binarismo bélico: de um lado nós e, do outro, eles.
Mas, na ausência de guerra e de inimigos externos, toda mentalidade autoritária converte sua própria população em inimigo. Pois é preciso que haja um inimigo, verdadeiro ou falso. É preciso que esse inimigo seja temível. E é preciso manter inimigos e população em estado de guerra e de prontidão.
Uma prova claríssima disso foi a proposta de reforma da previdência que contou com a encenação do ministro Guedes, estufado de fúria e falta de educação, ao enfrentar o Congresso, conseguindo produzir tumulto nas discussões, no que foi auxiliado por políticos da assim chamada oposição. Como consequência, tanto a população como muitos políticos ficaram atarantados, sem saber exatamente no que a tal reforma consistia.
Como fecho final, a aprovação da reforma pelo Congresso (com emendas que o governo não desejava), não teve por parte dos seus defensores a comemoração apoteótica que haviam planejado, pois Jair gostaria de uma reforma de autoria monolítica, dele e do Guedes.
Por isso os estrategistas do Planalto dispararam novas leis e projetos retumbantes. É preciso, como se vê, manter o país ocupado e de prontidão.
E a paz social?
Ora, como talvez dissesse o Conselheiro Acácio, nada mais contrário à paz do que a guerra.
Bom, nesse caso teria toda razão.




terça-feira, 23 de julho de 2019

O Big Brother Bolsonaro


 

Será Bolsonaro um enigma? Uma farsa? Um truque rasteiro? Um gato escondido com o rabo de fora? Um pesadelo? Um castigo para um país que não soube se construir com inteligência e dignidade?
Uma coisa é certa: mito é algo que ele não é.
Todos os que se debruçam sobre esses meses de desgoverno do Jair fazem esforços para entendê-lo segundo os mais diversos modelos teóricos. Nenhum serve. Não há, nos mais diversos matizes ideológicos ou científicos, quem os possa socorrer. De nada servem Adam Smith, Conte, Weber, Marx. Não há o que dê conta da extravagância.
Pois eu, modesto escriba, quero colaborar nessa corrida decifratória do Jair.
Considerados alguns fatos, tais como, o caráter errático das opiniões e das decisões e decretos do Jair, analisados os seus seguidos desmentidos de si mesmo, podemos dizer que essas idas e vindas dele traçam um perfil de um jogo de pebolim: é uma esfera rodando sem destino ou lógica, sem ordem ou nexo.
Vejamos. O afoito paraquedista já desferiu golpes para todos os lados, sendo que todos eles estavam errados.
Um exemplo foi a questão da liberação quase universal do porte e posse de armas, que seria a medida certeira para exterminar com a criminalidade. O Brasil, é claro, viraria um imenso território atravessado por balas perdidas de todos os lados. Mas seria, na versão do Jair, um território mergulhado na paz. A paz feita de guerra. Bandidos munidos de metralhadoras e fuzis se assustariam com o pacífico cidadão com um trinta e oito na cintura. Essa medida foi anunciada aos arrancos, como é típico do Jair, desde a campanha eleitoral, e teve um destino inglório: foi soterrada por críticas vindas de todos os lados e, sobretudo, pela derrota mais humilhante para quem dispõe de tantos assessores: o soberbo decreto era uma enfiada de agressões à constituição. Ponto final. Foi quando o Jair foi obrigado a mostrar a sua outra fase: disse que não era bem assim, era assado, desconversou.
Outra bobagem: querer transformar Angra dos Reis numa Cancun. A fúria com que esse indivíduo se arremessa contra diversos sítios e símbolos nacionais, só seria superado pelas bobagens ditas a respeito da Amazônia. Pretendeu convocar o presidente francês, Macron, para sobrevoar a selva e, caso encontrasse sinais de devastação, ele se renderia. Nesse caso, dado o disparate, ele se corrigiu de imediato sem dar ao Macron a chance de aceitar ou não o convite.
Não demorou, arremeteu contra Fernando de Noronha. O problema, no caso, seria o preço cobrado pelo ingresso na ilha, coisa de cento e tantos reais para brasileiros. Ora, não é muito, convenhamos, sendo que os custos de ir à Fernando de Noronha são outros: deslocamento dentro do Brasil, hospedagem, passagem para a ilha, aonde se chega somente por avião etc. Jair, golpeado por pancadaria grossa, deixou a ilha em paz e trocou de alvo.
Ora, tudo isso indica que não há princípio nem teoria alguma que oriente esse desorientado. Como seu universo intelectual é bastante limitado, ele procede como se estivesse num Reality Show. É o BBB - Big Brother Bolsonaro. Política, para ele, se funda no seguinte: é preciso manter os adversários ocupados discutindo absurdos para que o debate seguinte encubra o fato de que o governante não está fazendo nada.
Essa é a base das “ideias” do Jair. O Reality Show se resume nisso: um bando de jovens de poucos miolos tentando trapacear a tempo todo para derrubar os outros e se manter em cena.
O segundo tem a ver com as raízes de Jair: a caserna. Estou convencido que ele vai demorar muito tempo para entender que dirigir uma nação é algo muito mais complexo do que dar ordens a um batalhão. Batalhão é algo uniforme e submisso: dessa experiência Jair guardou o ríctus facial rígido e o queixo de boneco de ventríloquo.
Outras “ideias” do Jair, certamente geradas no núcleo familiar, têm a ver com visões delirantes e corrompidas da sexualidade e do pensamento, tal como a luta contra a suposta doutrinação para que todos os jovens se tornem homossexuais –- um absurdo total – somado a outra estupidez, a escola sem partido. Jair (e adversários, neste caso) não entendeu que não existe escola com ou sem partido. Escola implica livre troca de informações, de criação, de alternativas, é lugar de aprendizagem, de debate, de dúvidas, de múltiplos pontos de vista, sendo que partido é isso: partido. Algo fraturado. Assim, a ideia de educação é avessa à ideia de doutrinação, seja de direita ou de esquerda. Um doutrinador é o oposto de um educador.
Mas mentes obtusas amam simplificações, tal como a bobagem de que meninos vestem azul e, meninas, rosa.
Tudo isso veio desaguar no anúncio espalhafatoso da possível nomeação de seu filho, Eduardo, como embaixador do Brasil nos EUA. Trata-se de um delírio chocante, que mesmo os mais toscos ditadores evitaram. Pois Jair, em pleno delírio exaltado, veio a público defender que nomear parentes para cargos públicos não é nepotismo. Seria o que, então? Segundo Jair, uma forma de ajudar seu filho, bom rapaz, o que é natural num pai dedicado. Nepotismo, portanto.
Ora, o que move um homem como Jair? Trata-se de uma fúria desenfreada que imagina que a política é uma arena para confrontos no estilo Reality Shows. É preciso trapacear, levantar “polêmicas”, reunir agregados e comparsas, confrontar com inimigos a custa de um vale tudo em busca do prêmio no final da carnificina.
O problema do Jair é que uma nação não é um batalhão. Política não é apenas destroçar o adversário. O Brasil não é um programa de TV. Para governar é preciso ter ideias, apresentar soluções, encaminhar propostas viáveis, discutir com todo o conjunto da sociedade para encontrar o melhor caminho para alcançar um patamar mais justo, ser capaz de ouvir muitas vozes e opiniões e retirar disso tudo uma linha mestra que possa unificar a nação em torno de objetivos que correspondam ao maior benefício. Exige mente lúcida e generosa.
Nada disso está presente no horizonte do Jair.
Até esse momento ele não apresentou uma só ideia para a educação. Pensem bem: o que foi proposto para educação exceto roupas azuis e rosas? Menos ainda ideias para a saúde, sendo que se ignora o que o Jair deseja fazer para consertar o sistema de saúde no Brasil, assim como inexistem projetos de como reformar o sistema viário brasileiro – nenhuma meta colocada na mesa pelo governo. Além disso, expandir exportações não se faz com nomeação de filho como embaixador.
A única ideia-milagre parida pelo seu governo veio não dele, mas do ministro da Economia, Paulo Guedes, que alias não fez mais do que por em prática a cartilha liberal. Mas todos sabemos que milagres são coisas raras e não costumam salvar governos incompetentes.
O fracasso do Jair como presidente é claro quando se avalia o que foi feito nesses meses de desgoverno. Nada foi feito. O tempo foi perdido em “polêmicas” falsas que têm como objetivo apenas esconder a incompetência, que não é apenas dele, Jair, mas de todo um grupo de alucinados que o rodeiam e que se isolam cada vez mais. No entanto eles jogam para a plateia, buscando manter cativo o percentual de votantes das eleições.
Como cereja no bolo, Jair desferiu sua mais recente trapalhada, agora contra o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Em entrevista à imprensa, o presidente questionou os dados fornecidos por aquele órgão sobre as taxas de desmatamento da Amazônia e disse que são mentirosos, acusação que o diretor do INPE classificou de “conversa de botequim”.
Assim, é com profunda tristeza que devo sublinhar que, depois de sofrer com a grande derrocada do PT, que jogou por terra uma chance histórica única, temos agora que suportar essa farsa direitista cujas garras da brutalidade ainda estão por ser exibidas.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Fellini e o Rinoceronte








Eis aí uma frase de Federico Fellini sobre a qual devemos refletir nesses tempos de homens públicos vociferantes, valentões de anedota, filósofos de caserna, ratazanas famintas, líderes de multidões fanatizadas e semialfabetizadas, todos esses tipos que lembram a sutileza com que se moveria um rinoceronte numa loja de cristais:

O que é o fascismo senão uma adolescência prolongada?
(Federico Fellini)