terça-feira, 5 de julho de 2016

A Vespa






Nosso primeiro encontro quase termina em desastre. Entrei na cozinha e um inseto negro voou em ziguezague na minha direção – por pouco não acerta meu nariz. Minha reação foi imediata: tentei um tabefe. Errei longe. Em novo zig ou zag, o bicho escapou e sumiu.
Esqueci o assunto, peguei um café e fui cuidar da vida.
No dia seguinte, quase na mesma hora, fui à cozinha e lá estava ela, dependurada na beira da tampa do vidro de mel, num alpinismo desesperado. Ia e vinha, enfiava o bico na rosca da tampa, rodopiava em busca de melhor posição.
Achei engraçada a sua insistência. Parei ao lado da mesa e ela, talvez chateada com meu riso irônico, disparou em voo incerto, aquele em ziguezague, e foi na direção da janela, que estava fechada. Temi que se espatifasse contra o vidro, mas ela mudou de rota, manobrando um brusco ângulo de 90 graus, e foi na direção da área de serviço. Disparou janela afora.
Embora o bicho – era assim que a via, lamento – tivesse me parecido apenas engenhoso e insistente, resolvi depositar uma colher de mel num pires que coloquei sobre a mesa.
No dia seguinte me visitou o meu amigo Carlos Dala Stella trazendo um pão daqueles que inventa só para causar inveja aos amigos que não são capazes de fazer um biscoito. Eu fiz o melhor café de que sou capaz e estávamos sentados à mesa da cozinha para continuar nossos papos delirantes sobre tudo e sobre coisa alguma.
Foi quando ela voltou. Ela, a vespa. O Carlos levou um susto, eu me afastei do pires e ficamos observando seu voo incerto, de bruscas mudanças de rota. Circundou o pires, sobrevoou o mel, deu um rasante junto ao meu nariz e aterrissou no pires.
Ficamos observando. Ela se aproximou da beira daquele marzão de mel e se imobilizou a sugar. Nós sequer falávamos. Aliás, nem ela, a vespa.
Foi quando, súbito, ela levantou voo na direção da janela da área de serviço. Mas mudou de plano de voo e saiu pela janela da cozinha. Instável, pensei, muda de rota. Imprevisível. Do sexo feminino, certamente.
Eu e o Carlos voltamos ao pão, ao café e aos nossos delírios de final de tarde.
Desde então a vespa retorna todos os dias, não raro mais de uma vez, embora não falte na hora do café. Surge de inopino – acho que essa palavrinha descreve bem as suas aparições. Suga um bom bocado e se vai.
No terceiro dia, mandei uma foto para o Carlos comprovando que ela continuava me visitando.
E assim continuamos, eu e a vespa. Quando terminava a cota de mel no pires, eu repunha. Abri um espaço na mesa criando uma espécie de campo de pouso para a vespa. Curiosamente, ela retornava na hora em que eu estava tomando café. Tirava um fino na minha cabeça, sobrevoava o pires, ameaçava ir para um lado, ia para outro, afinal aterrissava e ali ficava ao meu lado. Eu tomando café, ela sugando o mel.
Éramos felizes, eis tudo.
Mas eu, não sendo vespa, tenho essa mania humana de pensar: onde ela se enfiava nos intervalos das visitas que me fazia? Eram dias de sol muito forte, mas poderia chover e, nesse caso, também as vespas precisam de um abrigo.  Onde seria a casa daquela vespa? Olhei em volta do prédio, me debrucei nas janelas, nada. Seria uma vespa sem teto?
E outra aflição me ocorreu: por que sempre sozinha? Existem vespas solitárias? Não sendo vespa, pensei: e se ela morrer? Vespas devem viver pouco. Preocupado, fui consultar na internet. As vespas vivem um ano, diz uma sábia enciclopédia. Teríamos tempo bastante. Mas existem os predadores. Qual seria o predador das vespas solitárias? – me perguntei, já irritado, querendo declarar guerra a esse inimigo desconhecido.
Bobagem. Voltei ao café, ao sanduíche, e ralhei comigo mesmo: deixe de besteira, está atrasada, logo chega. Deve ter achado mel pelo caminho.
Ela chegou quando eu já recolhia a xícara, o pão, o café. Nem se importou comigo e com meus cuidados. Rodopiou, deu seus voos esquinados, aterrissou no pires. E sugou o mel. A vida voltava ao normal.
Foi quando me ocorreu que pensar faz mal ao ser humano. Ela veio não só naquele dia, mas no seguinte. E assim por várias semanas. Era tão previsível que eu colocava o café na mesa e esperava que chegasse. Não demorava. Só então eu tomava o café em sua companhia.
Ocorre que há uma semana tomo café sozinho. Terá sido o frio ou a chuva que caiu por esses dias. A ventania. Quem sabe. Talvez um predador cruzasse seus caminhos. Vida de vespa deve ser acidentada, daí seu voo imprevisível, sempre na defensiva. Vai ver, encontrou mel de melhor qualidade em outro lugar. Trocou meus cuidados pelos de outro cuidador. Mudou-se de bairro talvez.
Uma coisa é certa: ela nunca mais voltou.



segunda-feira, 13 de junho de 2016

Vender livros na Avenida Paulista é crime?




Maurício Eloy na rua, no meio do redemoinho



Em São Paulo acontece de tudo, inclusive o impensável. Especialmente na Avenida Paulista, a sua melhor tradução.
Acontece que o livreiro, professor Maurício Eloy, proprietário de um sebo, está sendo enxotado por policiais pelo fato de colocar seus livros a venda na Av. Paulista, onde se realiza uma feira de artesanato. Os policiais cumprem ordens da Prefeitura da cidade. O argumento das “otoridades” é de uma óbvia estultice. Dizem elas que, não sendo os livros obra de artesanato, não podem ser vendidos naquele local.
Ocorre que venda de livros em espaço públicos, ruas e praças, é prática universal, encontrada em todas as cidades do mundo onde exista praça ou rua. E é uma atividade bem vinda, tanto por divulgar livros e cultura como por proporcionar a livreiros donos de sebo a oportunidade de sobreviver de seu trabalho.
Ademais, além do valor cultural e comercial da venda de livros, acredito que a simples presença de livros em espaços públicos tenha um valor cultural em si. Desperta curiosidade, pesca possíveis leitores, junta gente para bater papo. E livro é também um objeto que dá prazer olhar, tocar, cheirar.
Seria bom que os burocratas da Prefeitura de São Paulo abrissem mão de seu rigor legislativo e deixassem não apenas que o professor Maurício, mas também que outros vendedores de livros pudessem ter um trecho de calçada ou um canto de praça onde vender seus livros.
Juro às autoridades do município que livro não faz mal à saúde nem cria dependência química. Nem mesmo prejudica a visão. Seu consumo, na pior das hipóteses, cria um vício muito saudável: gostar de ler, gostar de escrever, pensar.
Como se vê, não tem contraindicação.

PS: há um abaixo assinado correndo pela Internet a favor da venda de livros na Paulista. Assine.



sábado, 4 de junho de 2016

Sem Muhammad Ali o mundo empobrece.







Muhammad Ali faz parte de uma lista de sujeitos – e declaro que não são muitos - pelos quais tenho grande e confessada admiração. Assistir suas lutas – na época a televisão as transmitia para o mundo todo – era um espetáculo não só de boxe, mas de espírito de luta, de dignidade, de irreverência, de autoafirmação contra racistas, de coerência e de beleza atlética. E de humor.
Ali era um colosso como figura humana, seja do ponto de vista físico seja do ponto de vista humano. Um personagem raro. A meu ver foi o último a incorporar o ideal clássico do boxe: lutar de pé, usando apenas as mãos, respeitando áreas do corpo que possam ser fatais ou muito, digamos, doloridas. A nobre arte, dizia-se.
Mas ele era mais do que isso. Era debochado, gozador, irreverente, autoconfiante. Não tinha papas na língua. Provocava os adversários e, sendo um exímio tagarela, ganhava todas as discussões. Chamou Sonny Liston, o campeão do momento, de “urso velho, grande e feio”.  E não cometia a hipocrisia de dizer-se modesto. Era, já naquele momento, contra essa tolice chamada de politicamente correto: se considerava simplesmente o homem mais forte, o melhor lutador e o homem mais bonito do planeta. E dizia isso fazendo caretas malandras e dando gargalhadas. E o diabo é que era mesmo o mais bonito, o mais forte e o melhor boxeador do planeta.
The best, ponto final. Sobretudo porque, nos EUA do século XX e diante dos preconceitos que o rodeavam, ele personificava uma luta permanente contra o racismo. E lutar contra racistas naquele momento era arriscar a própria vida. Uma tarefa para gigantes. Além disso, contra o instinto belicista dos EUA, recusou-se a ir para o Vietnam matar seres humanos que não julgava inimigos, um povo que nunca tinha feito nada contra ele. Ou, como declarou: “eles nunca me chamaram de crioulo”. Então, por que ir para a guerra para matá-los? Recusou-se e pagou um preço altíssimo. Perdeu títulos, dinheiro, quase tudo.
Mas manteve algo que não tem preço. O senso da própria dignidade. Como um homem negro e como um ser humano livre e independente. Não se rendeu. Continuou a lutar e recuperou seus títulos. E protagonizou aquela que foi a maior luta de todos os tempos: ele contra George Foreman, que deu agora mostras de ser também um grande caráter, ao dizer que com a morte de Ali, que o venceu na célebre luta no Zaire, morria a melhor parte dele mesmo.
Ali é um signo de saúde mental e pública diante desse mundinho atual de pequenos chefetes políticos, de demagogos vendidos, de empresários oportunistas, de arrivistas gananciosos, de gente que cala e consente, de covardes que negam à tarde o que disseram pela manhã, gente que todo mundo sabe que são ladrões e corruptos, mas que se declaram santos na cara limpa. Esse mundinho não teria vez com ele.
Era um dos grandes. Um homem forte e digno. Um corpo perfeito e uma mente lúcida. Uma metralhadora nos punhos e na ponta da língua. Um homem que assumia integralmente o que pensava. Que se arriscava pelas causas nas quais acreditava. Um bailarino elegante em cima do ringue que era também elegante na vida. Um irreverente. Um tipo que não se dobrava. Ao contrário, que dobrava a todos que se metiam no seu caminho. E, se caia, levantava-se.
Enfim, fará falta, mas viverá na memória de muitos que tentarão evitar que ele tenha sido representante de uma espécie em extinção.











terça-feira, 31 de maio de 2016

Telefonando a gente se desentende









Trancafiado num estúdio a trabalhar, meu filho me pede para confirmar uma reserva de passagem aérea. Respiro fundo e sinto o golpe. Todos sabemos o que significa enfrentar telefones dessas centrais de atendimento. Temendo pelo pior, disco para o 0800 da companhia aérea.
Sou atendido por uma voz mecânica:
- Para atendimento em português, disque um, para aten...
Disco 1.
- Se for passageiro, disque 1, se for agên...
Disco 1.
Se for para tratar de reservas, disque...
Disco 1.
- Para sua segurança esta conversa poderá ser gravada...
Minha segurança? Não me sinto ameaçado a não ser pela tal voz mecânica. Alguém nos espiona? Fico perplexo sempre que ouço essa advertência.
Fim da voz mecânica. Entra voz supostamente humana:
- Aqui glub glob tchã plasht!
Que me perdoem os leitores, mas foi o que entendi.
- Alô, senhorita, pode repetir? Com a cabeça fora da água, por favor.
- Como, senhooor?
- Nada, esquece.
- Aqui é Marzita Floripes. Em que posso servi-lo?
Explico: preciso confirmar uma reserva feita por meu filho, pois no site apareceu uma mensagem dizendo que houve um problema de conexão.
- Qual o código da reserva, senhooor?
- Não é possível pesquisar pelo nome do meu filho, dia do voo, saída e destino?
- Não, senhooor.
Antes que me chame novamente de “senhooor”, prolongando molemente a sílaba final, como é costume dessas atendentes, desligo. Ligo para meu filho:
- Pedem o número da reserva.
- Está no anexo ao e-mail, diz ele.
Vou ao anexo. Lá está, em tipo cinza claro sobre fundo branco, praticamente invisível – certamente por razões de segurança. Um teste para míopes.
Refaço todo o caminho, disco 1, 1, 1 etc.
- No que posso servi-lo, senhooor?
É outra voz. Ou será a mesma? Repito toda a explicação. Informo o código de reserva. Ela diz o nome de meu filho, eu confirmo. Ufa! Vai funcionar.
- E o número do cartão de crédito, senhooor?
- Precisa?
- Sim, senhooor.
Desligo. Ligo pro meu filho. Ele me passa o número do cartão. Ligo.
Quando chego ao número do cartão, outra voz me pergunta: e o código de segurança, senhooor?
Nem espero, desligo. Ligo para o meu filho. Peço o código de segurança. Retorno. Depois que informo o código de segurança o clone da primeira voz me pede o prazo de validade do cartão.
A paciência explode:
- Mas por que não pediram antes? É o quinto telefonema que dou!
- Ocorre que jaskl prst weenuf nenúnfares, senhooor.
Desligo. Desconfio ter sido xingado. Aquele nenúnfares me parece suspeito.
Munido do código, do prazo, refaço tudo, e penso que se eu escrever sobre isso os leitores não vão acreditar. Informo todos os dados, pergunto se está tudo correto, a voz me diz, fanhosa:
- O número do telefone de seu filho, senhooor.
Ah, esse eu sei! Agora me vingo! Digo o número e a voz contesta: aqui tenho outro número, senhooor
- Tenho certeza que esse é o número do telefone, senhooora.
- Não é o número que seu filho digitou no site, senhooor.
- E qual número ele digitou?
- Não posso lhe dizer, senhooor.
Desisto. Desligo. Ligo para o meu filho.
- Você tem outro telefone?
Ele me explica que errou o último algarismo ao digitar no site. Refaço todo o caminho. 1, 1, 1, etc. Quando chegamos ao número de telefone explico que no site meu filho digitou errado o último algarismo. A nova voz, por certo percebendo que eu estava de arma em punho, diz que fará a correção sem problemas. E por que a voz anterior não o fez? Deixo pra lá.
- Bom, digo eu, está tudo certo? Não vai anotar o código de segurança?
- Não precisa, senhooor.
Fico atônito:
- Não precisa?! Mas... a outra atendente me pediu...
Ela nem me ouve e encerra o papo:
- Amanhã seu filho receberá um e-mail confirmando a reserva.
E, com voz mecânica, ela dispara a recitar entediada um texto no qual a companhia se diz muito honrada e...
Desligo. É a única vingança que me resta.




segunda-feira, 30 de maio de 2016

Algumas frases de Nelson Rodrigues



Resultado de imagem para Nelson Rodrigues
Nelson Rodrigues em ação. 


Para sacudir a poeira desses tempos bicudos, lá vão algumas frases do Nelson Rodrigues que ajudam a demolir a bobagem que é o politicamente correto e essas militâncias via Internet em que o xingamento grosseiro virou argumento político sofisticado e libertário. Infelizmente, não é apenas a seleção brasileira de futebol que despencou nos últimos anos para o pré-sal da mediocridade. Precisamos recuperar a ironia e o paradoxo.

Sobre a leitura:
“Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia”.
Sobre a imprensa:
“Nós, da imprensa, somos uns criminosos do adjetivo. Com a mais eufórica das irresponsabilidades, chamamos de ‘ilustre’, de ‘insigne’, de ‘formidável’, qualquer borra-botas”.
Sobre defeitos humanos:
“O ser humano é cego para os próprios defeitos. Nem o idiota se diz idiota. Nunca vi um sujeito vir à boca de cena e anunciar, de testa erguida: ‘Senhoras e senhores, eu sou um canalha’”.
Sobre amor e dinheiro
“Dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro”. “Há homens que, por dinheiro, são capazes até de uma boa ação”
Sobre o amor possível
“Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível”.
Sobre o beijo na boca:
“O verdadeiro defloramento é o primeiro beijo na boca. A verdadeira posse é o beijo, e repito: — é o beijo na boca que faz do casal o ser único, definitivo.”
Sobre o povo brasileiro
“Cada brasileiro, vivo ou morto já foi Flamengo por um instante.” “Se Euclides da Cunha fosse vivo teria preferido o Flamengo a Canudos para contar a história do povo brasileiro”.
Sobre políticos:
“Eu me nego a acreditar que um político, mesmo o mais doce político, tenha senso moral”.
Sobre santos e pulhas:
“Façam a seguinte experiência: — ponham um santo na primeira esquina. Trepado num caixote, ele fala ao povo. Não convencerá ninguém. Invertam a experiência e coloquem na mesma esquina, e em cima do mesmo caixote, um pulha indubitável. Instantaneamente outros pulhas, legiões de pulhas, sairão atrás do chefe abjeto”.
Sobre qual seu conselho aos jovens:
“Envelheçam!”.
Sobre o triunfo do idiota:
“O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota”. “Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores”.
Sobre maturidade:
“O adulto não existe. O homem é um menino perene.”
Sobre seu epitáfio:
“Aqui jaz Nelson Rodrigues, assassinado pelos imbecis de ambos os sexos”’.




quarta-feira, 11 de maio de 2016

O que poderia ter sido








E ela, como seria?

Olho em volta como se pudesse encontrar algo que me ajudasse a imaginar como ela seria. Bobagem. Fantasia. Não há como saber. Não há nada a saber.

Apesar disso, resolvo fazer umas contas, eu que sou péssimo com números e com cálculos e com datas e endereços – quer dizer, com quase tudo.

Gasto um bom tempo procurando lembrar como tudo aconteceu e onde eu estava. Não preciso de muito esforço. Jamais esqueci. O quarto, a janela ao lado, o dia que acompanhei desde o início da madrugada. Meu filho estava comigo e nós dois esperávamos. Quietos, sem trocar palavra. Ele saia do quarto dele, vinha pelo corredor, chegava à janela do quarto, onde eu fazia de conta que lia um livro. Logo ele retornava a seu quarto, inquieto. Eu seguia de cara enfiada no livro.

Foi nesse dia, a data não consigo precisar. Mas creio que ela teria agora uns 27 ou 28 anos. Digamos que seja vinte e oito - os números pares me parecem sempre mais simpáticos.

Ela tem 28 anos. Já terá feito alguma faculdade, quem sabe fale inglês com fluência e, como todos os de sua geração, pense em estudar nos EUA. Tem namorados, como convém. Uns vão, outros vêm. Eu me divirto trocando de propósito o nome deles.

Não, tudo isso é clichê.

Ela seria uma bela jovem mulher de 28 anos, teria cabelos claros como os do irmão, e seria agitada, eis aí. Agitada, falante, metida. Adoro mulheres jovens e metidas, donas de seus narizes. E seu rosto seria muito bonito. Muitas vezes eu ficaria olhando para ela disfarçadamente em busca de traços de seu irmão, seus tios, avós, mas não encontraria nada disso. Por alguma razão que não entendo, ela seria diferente de todos, ou melhor, uma mistura inédita que dissolveria todas as semelhanças embora fosse capaz de lembrar todas elas.

Vou até a janela, como meu filho foi naquele dia distante, e acho que estou delirando. Melhor parar com isso. Aliás, essas lembranças começaram, sem que eu percebesse, quando rabiscava um rosto de mulher num pequeno pedaço de papel. Ao perceber isso, sou tomado por uma urgência de rever o desenho. Foi feito num pequeno papel de recados, desenhei no verso casualmente enquanto não pensava em coisa alguma e esperava que alguém atendesse ao telefone.

Reviro meus papéis, abro e fecho cadernos de anotações. Mas cadê o papel? Por quase meia hora me debato pela casa para afinal encontrá-lo caído prosaicamente junto ao pé da mesa.

Acontece que o desenho não me diz nada. O rosto que ali está é demasiado sério e com certeza não é o de uma jovem mulher de 28 anos. Não sei por que me lembrou de... Como se chamaria? Não consigo lembrar, o nome já estava escolhido, mas sumiu de minha memória.

Largo o papel sobre a mesa e digo a mim mesmo que preciso tomar um café. Preciso acordar dessas fantasias. Afinal, ela não existe e nunca existiu. Ou terá existido? Claro, existiu por uns meses.

A verdade é que poderia ter sido uma moça muito carinhosa, talvez tivesse paciência com minhas manias, compreendesse meus tormentos, quem sabe fosse ao cinema comigo. Quando, distraído, eu saísse de casa sem pentear os cabelos ou com os botões da camisa abertos, chamaria minha atenção.

Antes disso teria sido uma menina sapeca e faladeira. Uma pequena alma cheia de alegria.

Afinal veio o telefonema que esperávamos desde a madrugada. Foi breve e definitivo. Fui à janela, onde meu filho me aguardava imóvel, olhos perdidos no ar. Eu o abracei e não foi preciso trocarmos qualquer palavra.

Por isso não está hoje conosco essa bela jovem mulher de 28 anos, dona de seu nariz, linda, cabelos alvoroçantes, atrevida, capaz de me dar um abraço, de pular no meu pescoço e quase me estrangular com sua furiosa euforia.

Lembro: se chamaria Ana Carolina.
Fica vivendo em algum universo paralelo fabricado pela minha memória – é lá que costumo depositar o que poderia ter sido, mas que não foi. O que me permite pensar nessa filha que não tive e em minha história para sempre incompleta.






domingo, 24 de abril de 2016

Brasil lança novo esporte olímpico: cusparada à distância.









O Brasil, esse país de triste memória, acaba de criar uma nova modalidade esportiva: a cusparada à distância.
O pioneiro foi o deputado Jean Wyllys, ao devolver uma provocação do insano fascista Bolsonaro com uma cusparada. Bolsonaro é uma das mais nefastas criaturas que a política brasileira já produziu. No entanto, a cusparada só o coloca em evidência e mostra que, o cuspidor, Jean, não tem melhor argumento ou humor para enfrentar o provocador. Aliás, Jean cospe e sai em passos ligeirinhos na direção contrária daquela em que está o Bolsonaro. Não seria o caso de pelo menos avançar contra o oponente? Fugiu de qualquer argumentação e fugiu ao não encarar o adversário.
Agora, um ator – dito “global” – José de Abreu – assumindo-se como um discípulo de Jean Wyllys, largou cusparada ao ser criticado em público num restaurante. Também nesse caso, o ator Abreu, deu mostra de não ter outro argumento que não seja o seu catarro. Ao ser ofendido, não argumentou.  Chamou o seu agressor de coxinha e disparou o cuspe.
Não é de surpreender que esses dois casos lamentáveis possam ser considerados exemplares do nível intelectual e político de certos “debates” na cena brasileira.
E exemplares por vários motivos. Envolvem um notório provocador fascista, um deputado que cospe em outro em plena câmara, um suposto ator e um desconhecido que não consegue conviver com um petista no mesmo restaurante.
A meu ver, está tudo errado.
Mas faz sentido.
Vejam o presidente do PT, dito Rui Falcão, que repete há meses que todas as contas do partido foram declaradas à justiça etc., quando a questão não é essa. O que se exige dele é que explique de onde veio essa generosidade financeira.
Além disso, é bom lembrar certo Aristides Santos, da Contag, em pleno palácio do governo e diante da presidente, ameaçando ocupar propriedades, gabinetes e instituições, colocando em armas os seus comandados, que todos imaginávamos serem apenas agricultores sem terra. Seriam agora parte de um exército que iria às ruas caso o legislativo e o judiciário decidissem contra sua vontade? Não seria isso um clássico golpe?
E lembremos a própria Dilma Rousseff, a criatura mais desgovernada desse país. Entre os seus “malfeitos”, está o mantra de que está sendo vítima de um golpe em curso no país.
Mais um delírio dessa senhora e de seus fieis seguidores. Não há golpe algum. O que há é ausência de qualquer argumento razoável por parte dela e do PT. Se explicassem a origem do dinheiro que Vacari carregava naquelas mochilas e os dólares que um outro carregava na cueca etc., ninguém chatearia mais o Rui Falcão com perguntas constrangedoras.
No entanto, Dilma, além de repetir obcessivamente, como uma discípula de Joseph Goebbels, que “não vai haver golpe”, agora pretendeu largar falação nos EUA para anunciar ao mundo que está havendo uma ameaça à democracia no Brasil. Contida por assessores, desistiu de seu delírio maior, que seria falar em golpe na cerimônia da ONU, mas arrumou audiência de jornalistas do mundo todo para alardear seu bordão infeliz.
Ao voltar ao país, reassume o posto de presidente sem que o vice ou as forças armadas a chutem do palácio, como aconteceria no caso de estar havendo um golpe. Mas dispara pedidos de socorro às combalidas forças de países vizinhos, aqueles do Mercosul, sobretudo Venezuela, Bolívia etc.
Deveremos nos prevenir contra uma invasão do Brasil pela poderosa marinha boliviana?
Bom, nenhum país deu eco aos lamentos de Dilma.
Todo mundo sabe o que o PT fez e o que Dilma fez. E todo mundo sabe que está em processo no Brasil um processo legítimo de impeachment obediente à constituição e às leis e aos poderes legislativo e judiciário. O país poucas vezes viveu um período de tão ampla e irrestrita democracia – e não por concessão de algum partido ou poder central, mas por imposição direta da população desde 2013.
Só a Dilma não sabe disso. Só ela e o José de Abreu. Só ela, o José de Abreu e o Bolsonaro, que é um provocador cínico. Só ela e o sujeito que atacou o ator no restaurante; esse sujeito deveria saber que numa democracia os lugares públicos devem ser divididos mesmo com adversários. Só ela e o Rui Falcão, que, diante de qualquer novo questionamento irá repetir que já declarou tudo e que nada tem a declarar, olhando para a nossa cara como se fôssemos imbecis.
Aliás, era assim que reagia o autoritário e arrogante senhor Armando Falcão, xará de sobrenome do Rui do PT, durante os anos da ditadura: “nada a declarar”, rosnava ele.
Eis a entalada em que nos meteram todos esses personagens. Quando tudo de que precisamos é repensar esse triste país e colocar a casa em ordem e em paz.