Em terra de cego, quem tem um olho... nem é bom pensar!
quinta-feira, 3 de maio de 2012
domingo, 22 de abril de 2012
Paris em movimento
Costumamos ver as
cidades como se fossem um mapa. Uma extensão disposta no espaço. Ruas, casas,
prédios, praças, monumentos. Sob o predomínio do olhar. É compreensível. Para
nossa orientação talvez precisemos ver as cidades como algo acabado e estático.
É claro que o tempo pode aparecer aqui e ali como efeito de contraste: uma
construção mais antiga, outra mais nova, aquela outra caindo aos pedaços.
Tudo, no entanto, no
espaço. Sem o tempo.
Pois andei lendo um
livro que consegue, de um modo curioso e divertido, introduzir o tempo nessa
equação. Trata-se de Próxima estação,
Paris, (Paz e Terra, 2011), escrito por Lorànt Deutsch, tendo o seguinte subtítulo:
uma viagem histórica pelas estações do
metrô parisiense. Ator e filósofo, Lorànt une o grande amor que dedica a Paris
a outra de suas paixões, a história. O resultado é um livro instigante. Vira
pelo avesso a visão espacializada e atemporal de cidade que por razões
pragmáticas somos levados a adotar.
Trata-se de um passeio
– com suporte em grande conhecimento histórico – ao longo de vinte séculos. Cada
uma das estações de metrô – por onde multidões passam indiferentes – conta inúmeras
histórias e guarda os seus vestígios. Mas não se trata de livro descritivo ou
de um guia para turistas. O mote é investigar cada rua, viela ou palácio, como
o faria um historiador ou um arqueólogo.
A primeira estação, o
marco zero, é a da Île de la Cité. A
mais de vinte metros abaixo do nível do Sena, somos levados a um recuo no tempo.
É de lá que o autor emerge, seguindo uma velhinha parisiense e acompanhado pelo
leitor, na superfície onde se encontra o mundo que ali havia no século I a.C.
Somos apresentados a um
lugar onde não há nada. Ou quase nada. São ilhotas, seis ou sete, com meia
dúzia de cabanas e alguns pescadores. A Lutécia que os parisienses imaginam ter
existido ali se encontra em outro lugar, soterrada no subsolo de Nanterre.
A partir desse cenário,
o autor coloca Paris em movimento e conta suas histórias. Devo dizer que não
são histórias tranquilas e, na maioria, nada edificantes. Os romanos a
destruíram algumas vezes, os visigodos desceram em avalanche para saqueá-la, os
germanos, cumprindo velha obsessão, tentaram subjugá-la. E mesmo quando os inimigos
externos se vão, os franceses se encarregam de produzir encrencas, conflitos, guerras,
rebeliões, revoluções. Uma mortandade sem fim. Frio e fome e ratos servidos nas
refeições, temperados com pestes e epidemias várias.
Por ali desfilam tribos,
reis e príncipes que lutam entre si – e para os quais matar um pretendente ao
trono, mesmo que seja um menino de quatro anos, é mero detalhe tático. Em sua
loucura, derrubam palhoças, incendeiam casas e igrejas, demolem fortalezas,
derrubam abadias, torres, catedrais. Mas a cidade renasce. De seus destroços surge
outra muralha, novos palácios, igrejas. Um rei remodela o palácio do antecessor,
derruba paredes, acrescenta à construção alas num estilo diverso.
Paris é um terremoto
interminável. Um sobe e desce de edificações, um redesenhar de ruas e praças, movido
pelos ódios, doideiras e vaidades humanas. Uma torre se ergue, uma igreja desaba,
uma rua se fecha, uma praça se expande. Até ser entregue a seu urbanista mais celebrado,
o barão Huissmann, a cidade nos oferece o espetáculo de um movimento incontrolável.
Que não cessará depois dele.
Aquela praça era um
pântano. O Louvre não era o mesmo nem era para ser assim. Da Bastilha restou
uma pedra encalhada numa calçada. É verdade que todas as cidades sofrem
mudanças, mas aqui o tempo é muito extenso, os acontecimentos são incontáveis,
as alterações são radicais, a história se deposita em cada pedra do caminho e
repercute mundo afora. Eis como uma geografia pacificada se revela uma
avalanche. O ser humano, imitando a natureza, cria e recria em ciclos de
destruição e reconstrução, eis tudo.
Mas, como nossa aflição
exige chão firme para pisar, desejamos, exaustos, que Paris seja e continue
sendo Paris, aquela que ali está.
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Cachoeira abaixo, lá vai o Brasil descendo a ladeira
Escândalos já não causam
espanto a ninguém. Eclodem a cada dois ou três dias, alguns com nomes
engraçados, com a Polícia Federal investigando e denúncias na imprensa. As denúncias
da imprensa costumam receber severos desmentidos do governo e as ações da PF
são colocadas em questão por políticos e burocratas. Dias depois, um ministro
ou chefete de alguma repartição cai – quer dizer, a coisa fazia sentido. O que
não impede que se passe a mão na cabeça do derrubado. Vejam a coleção de
agrados de Lula e Dilma dirigidos a alguns dos que caíram em desgraça.
A Polícia Federal passou
meses investigando, juntando papelada, apreendendo computadores, acumulando
centenas de horas de gravações. Nada que impeça declarações de advogados declarando que aquilo que
está gravado não é o que está gravado, motivo pelo qual não se deve ouvir o que
se ouve, pois não havia autorização para quebrar sigilo. Na verdade, havia,
sim, mas advogados são assim mesmo e servem para isso mesmo. Já aconteceu de advogados
e políticos pretenderem transformar o que foi apurado em arma contra quem fez a
denúncia. O mesmo de sempre.
Até o momento em que
escrevo, o escândalo da hora é o do Cachoeira, que, além do nome engraçado, tem
algumas coisas que o tornam diferente.
Ao que tudo indica,
nasceu do desejo de vingança de Lula contra o episódio do mensalão (há nome
mais engraçado do que esse?), pois o ex-presidente jurou que ia mostrar que o “mensalão
era uma farsa” e que “todos os partidos fazem a mesma coisa”. A lógica de Lula
é mais ou menos a seguinte: se conseguirmos provar que os que nos acusam são
sujos, isso significa que todos são sujos, tanto nós quanto eles, portanto
ninguém é limpo, ou melhor, todos são limpíssimos, pois se trata de procedimento
próprio da política etc., coisa normal, só os ingênuos não querem aceitar.
Ocorre que, uma vez
disparado o míssil que Lula imaginou, começaram a se espalhar estilhaços para
todos os lados, inclusive na direção da cabeça de alguns companheiros. E agora?
Tentou-se voltar atrás, mas era tarde. Tentou-se segurar o congresso, mas a
chamada opinião pública e certo pudor residual em alguns setores passaram a
exigir que a investigação continuasse, pouco importando os alvos que fossem
atingidos.
Temos então a figura
central, o Cachoeira em pessoa. Trata-se de uma figura característica dos
tempos que a República vive. É meio jeca, é bronco, é debochado, é bicheiro, é
empresário de jogos de azar, teria uma rede de empresas, é influente em
nomeações, em patrocínios de campanhas, em propinas, em subornos etc.
Revendo imagens do
Cacheira dando depoimento no Congresso, me chama a atenção que ele tem um ar de
sorridente desafio nos lábios. Não sei se ele mantém a mesma empáfia após esses
meses de cana, quando, dizem, emagreceu 16 quilos. Suspeito que sim.
Tipos como o senhor
Cachoeira, sabem demais, têm uma lista com a relação dos subornados, com os
favores que patrocinaram, com as licitações que compraram, os cargos que disputaram,
as propinas distribuídas. Ou seja, ele sorri para mostrar a todos que sabe de
tudo isso e que, assumidamente, é uma bomba relógio. Se explodir, leva uma
multidão com ele. Que o defendam, portanto.
Outros personagens, em
outros escândalos, já estiveram em lugar equivalente ao que hoje ocupa o
Cachoeira. O marqueteiro Marcos Valério, por exemplo. Mas esse jamais posou com
cara de desafio. Aguentou o tranco, deu uns pontapés para garantir que fosse
protegido, aquietou-se. Continua solto e, quem sabe, bolando campanhas para
futuros candidatos. É do ramo.
Agora, ou eu muito me
engano ou esse Cachoeira está fazendo tremer as bases de políticos, burocratas
e empresários – a entrada na roda de Cavendish, da Delta, completa o triângulo
sem o qual não há corrupção. E se ele, para safar-se das safadezas que promoveu
ou das quais participou, resolve indicar seus asseclas (ô palavrinha adequada!)?
Em postagem anterior,
resumi minha perplexidade dizendo que no Brasil não existem políticos honestos,
existem políticos que ainda não foram investigados.
Sabe disso a maioria
dos políticos e partidos e empresários nacionais. Pelo que estarão todos com as
calças nas mãos, expressão que meu pai usava com uma malícia que só ele era
capaz de sugerir.
Quanto a mim, desejo
que o Cachoeira os carregue.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Meditações que me dito
No Brasil não há políticos honestos. Há políticos que ainda não foram investigados.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Que língua é essa?
A primeira vez que ouvi
falar em “voucher” foi numa conversa com uma dessas telefonistas de hotel com
voz de robô assexuado. Fiz uma reserva, mandei comprovante de depósito e ela me
disse que me mandaria o voucher.
Distraído, levei um
susto. Eu não havia encomendado nada, muito menos uma coisa que se chamasse
voucher. Perguntei do que se tratava, mas ela apenas repetiu:
- O voucher, Senhor. Estaremos
enviando o voucher.
Considerando o
gerundismo da moça, me ocorreu que deveria ser palavra inglesa. Como minha
lembrança era vaga, fui ao dicionário e encontrei:
Voucher – sentido (1) responsável,
fiador. (2) comprovante, prova. (3) recibo, certificado, certidão. (4) vale, ticket. Comprovar, dar
recibo, certificado ou comprovante. Comprovar com
documento.
Tratava-se, portanto, do antigo e conhecidíssimo comprovante,
o simpático recibo desde lusitanas eras. Acontece que a palavrinha virou outra
das pragas de linguagem que correm pelo Brasil corporativo. Hoje mesmo, numa
ligação a um banco, me pareceu reencontrar a mesma telefonista-robô com voz
assexuada.
- O senhor vai estar recebendo um voucher – me
disse ela.
Fico pensando por qual razão trocar o liso, claro
e direto recibo ou comprovante por um trambolho como voucher? Não entendo. Não
houvesse palavra correspondente em português, tudo bem. Mas, recibo,
comprovante, nada mais corriqueiro, prático e simples. Voucher?
Esclareço aos leitores
que não faço parte dos puristas que querem impedir a incorporação de palavras
estrangeiras ao vocabulário nacional. Nada a ver com o senador Aldo Rebelo, esse
triste dom Quixote da pureza do português castiço, nem com um certo ex-governador do Paraná
que pretendia decretar o fim de estrangeirismos em anúncios e placas. Sei, por
pensar com meus próprios neurônios, que todas as línguas fazem incorporações,
aquisições, canibalismo saudável e promíscuo, e que, analisadas com o passar do
tempo, todas roubam umas das outras. Nenhum purismo patrioteiro, portanto.
Mas sei também que
existem as bobagens, os cacoetes marcados por mera ignorância ou simples
pedantismo. No caso, algum executivo gerente de hotel dos EUA deve ter vindo
fazer palestras corporativas no Brasil e, no meio do falatório, largou um voucher
– que é o comprovante lá deles, não mais que isso – e os deslumbrados daqui
descobriram o voucher. A tribo tupiniquim tem dessas coisas.
Certa ocasião, um amigo
me provocou defendendo o uso do verbo deletar em português sob a alegação de
que não tínhamos palavra correspondente. Era um rapaz inteligente e simpático,
mas iludido pela informática. Tive que explicar a ele que havia – além do óbvio
apagar – o verbo delir, que significa exatamente apagar, ou seja, exatamente o
mesmo que deletar. E mais: deletar tem origem latina. Nunca ouvira falar em
“delenda Cartago”? E deleatur? Enfim, pelo que me dizem, deletar vem do latim
deletus, particípio passado do verbo deleo. Onde a língua inglesa foi buscá-lo.
Nada contra. Como temos
os verbos apagar e delir, deletar só entrou em circulação por conta de uma
tecla de computador. Tudo bem. Soa como latim.
Enfim, se é preciso
entender que as trocas entre línguas diferentes são justíssimas, é preciso
também entender que a língua é um campo de batalha. Tanto é legítimo fazer
aquisições, como é legítimo lutar contra aquisições tolas.
O mesmo acontece com
palavras portuguesas que, por automatismo, passam a ser uma espécie de cacoete,
como no modismo chatíssimo do uso de “diferenciado”. Ora, diferenciado quer
dizer apenas diferente, não mais. No entanto, o uso atual força a palavra a
significar que se trata de uma qualidade superior. Comentaristas de futebol
adoram dizer que um craque é diferenciado. Ora, um perna-de-pau também é
diferenciado por ser diferente dos demais em sua ruindade com a bola.
No mínimo, esses tipos
que usam demasiado a palavra diferenciado me parecem muito pouco diferenciados.
Os que usam voucher, idem.
Não passo recibo.
quinta-feira, 29 de março de 2012
Millôr do princípio ao fim
Millôr foi (é) um gênio. A mais viva das inteligências. O
estilo – ele que dizia ser um escritor sem estilo – mais límpido, direto, puro.
O humor mais demolidor e, ao mesmo tempo, mais refinado. Um ilustrador de rara
originalidade. O frasista mais que perfeito. Um homem que lutou sempre,
assumindo riscos diversos, pela autonomia e a liberdade num país de gregários
oportunistas.
O que dizer dessa morte, prematura mesmo aos 88 anos? Ele
merecia o dobro. Nós merecíamos que ele vivesse o dobro.
Perdemos e perde esse triste país no qual tantas antas
antológicas e múmias marqueteiras fazem carreira, ocupam lugares, ditam regras
idiotas, escrevem livros cretinos e deformam a consciência política, ética e
ideológica nacional.
Ler Millôr é um bálsamo, uma alegria. A descoberta de que a
retidão de caráter e o cultivo dos valores espirituais e intelectuais sempre
vale a pena.
Hoje todos nós morremos um pouco com essa morte.
terça-feira, 27 de março de 2012
Chico Anysio, o contador de causos
É admirável que Chico Anysio tenha
atravessado as mais de seis décadas de sua carreira percorrendo todas as
mídias. Começou no rádio e nele fez de tudo – foi imitador, apresentador,
comentarista de futebol, criador de programas e redator. Em tudo se saiu acima
do pedido. Chama a atenção o fato de que adquiriu do rádio uma voracidade
onívora. Tudo passava pelo seu filtro humorístico. Notícias do dia a dia,
grandes trapalhadas nacionais, personagens da política, do futebol, da chamada alta
sociedade e das classes populares. Nada escapava. E tudo, fosse um bordão, uma
piada, um chiste, um cacoete, uma canalhice, ele transformava em texto, em
personagem, em quadro, em narrativa cheia de humor e inteligência.
Outra coisa: Chico assumiu
inteiramente um personagem do folclore e dos costumes brasileiros, o contador
de causos. Acho que essa é a grande fonte de inúmeras narrativas brasileiras,
sejam elas eruditas ou populares. Se pensarmos bem, Riobaldo Tatarana (o
narrador de Grande sertão: veredas,
de Guimarães Rosa), é um contador de causos extremamente brilhante, assim como o
Coronel Ponciano de Azeredo Furtado (do delicioso O Coronel e o lobisomem, de José Cândido de Carvalho). O mesmo se
diga de vários narradores de obras de João Ubaldo Ribeiro, Lima Barreto, João
Antônio e tantos outros. No âmbito propriamente popular o contador de casos é onipresente.
Foi nesse personagem que Chico se inspirou, o que permitiu que se tornasse uma
espécie de romancista popular, desses que contam histórias para o prazer do
povo, na linguagem do povo e usando o povo como personagem central. Hoje,
quando os humoristas de uma nova geração vão buscar no standup norte-americano um modo de fazer humor, me parece que perdem
o rumo. O standup tem algo de
mecânico e cerebral, uma auto-esculhambação artificial do narrador e uma
escatologia próprias do humor americano e longe da tradição dos contadores de
causos brasileiros. O contador de causos jamais deprecia a si mesmo. Pode, no
entanto, ser irônico consigo mesmo e até não se levar a sério. É sobretudo um
observador refinado e um crítico mordaz das fraquezas e aventuras humanas.
E é nessa capacidade de criar
personagens saídos dos tipos populares – sejam eles ricos metidos a besta ou
pobres delirantes – que Chico construiu uma galeria que, dizem, chega a 209
personagens. É muito. Eis aí mais um talento de romancista popular. São tipos
únicos, em seus gestos, vozes, cacoetes, pensamentos e pequenos desastres ou
modos de superar as agruras da vida. Pode ser um jogador de futebol sem talento
e cachaceiro ou um velho professor que tem caspas e as atribui ao “suor do
cérebro”. São personagens de fato, não fantoches. Funcionam e vivem por si só.
Ficarão por aí, sem o Chico, como novos Quixotes.
Finalmente, Chico criou, à
sua maneira, um retrato panorâmico do Brasil. Um retrato cheio de humor, de
malandragem, de malícia, recuperando e preservando os ditos e a linguagem do
povo, a sabedoria popular e os equívocos de todos nós. Realizou assim um sonho
que muitos ficcionistas de nariz empinado fracassaram em realizar. Nesse gênero
mediático e popular Chico Anysio foi definitivamente imbatível.
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