quinta-feira, 27 de junho de 2013

Cadê o Lula? Cadê o cara?



Por uma dessas coincidências raras, ontem eu havia conversado com um amigo sobre o sumiço do Lula. Sempre tão falante, mesmo quando não tinha nada a dizer, sempre disposto a gargantear bravatas diante de câmeras, o Lula sumiu do mapa nesses dias em que o Brasil está em chamas, com o povo na rua reivindicando mudanças políticas, econômicas e de costumes.
Seu comportamento confirma o que penso dele: é o avesso de um estadista. Os estadistas são aqueles políticos que, nas crises, se agigantam e têm uma palavra a dizer à nação, não lhe faltando coragem e lucidez, mesmo com ventos desfavoráveis. Basta lembrarmos os exemplos de Abraham Lincoln, Charles De Gaulle, Winston Churchill, Nelson Mandela, Mijaíl Gorbachov. Não se trata de concordar com todos eles – trata-se de reconhecer que são de fato estadistas.
Mas, quando fui escrever sobre o sumiço do Lula, recebi naquele momento um link de um artigo da jornalista Eliane Castanhêde exatamente sobre esse assunto. Fico dispensado de escrever. Eliane é uma jornalista notável, com um texto preciso e precioso, além de ser uma mulher de rara coragem.
Portanto, a palavra é dela. Vai abaixo:



Eliane Cantanhêde (Folha de S. Paulo, 27/06/2013)

Cadê o Lula?
BRASÍLIA - Acossados pela pressão popular, Executivo, Legislativo e Judiciário sacodem e despertam num estalar de dedos, ou em votações simbólicas, uma lista quilométrica de reivindicações adormecidas. Além do tomate, há um outro grande ausente: o ex-presidente Lula.
O Brasil está de pernas para o ar e os Poderes estão atônitos diante da maior manifestação em décadas, mas o personagem mais popular do país, famoso no mundo inteiro, praticamente não disse nada até ontem.
Confirma assim uma sábia ironia do senador e ex-petista Cristovam Buarque: "Tudo o que é bom foi Lula quem fez; o que dá errado a culpa é dos outros". Hoje, a "outra" é Dilma Rousseff, herdeira do que houve de bom e de ruim na era Lula.
Na estreia de Haddad, Lula roubou a cena e a foto, refestelado no centro da mesa, dando ordens e assumindo a vitória como sua. Nos melhores momentos de Dilma, lá está Lula exibindo a própria genialidade até na escolha da sucessora. E agora?
Haddad foi obrigado a engolir o recuo das passagens, Dilma se atrapalha, errática, sem rumo. Nessas horas, cadê o padrinho? O que ele tem a dizer ao mais de 1 milhão de pessoas que estão nas ruas e, especialmente, aos 80% que o veneram no país?
Goste-se ou não de FHC, concorde-se ou não com o que diz, ele se expõe, analisa, dá sua cota de responsabilidade para o debate. Dá a cara a tapa, digamos assim. Já Lula, como no mensalão, não sabe, não viu.
Desde o estouro das primeiras pipocas, afundou-se no sofá e dali não saiu mais, nem para ouvir a voz rouca das ruas. Recolheu-se, preservou-se, deixou o pau quebrar sem se envolver. As festas pelo aniversário do PT e pelos dez anos do partido no poder? Não se fala mais nisso.
Como marido e mulher, companheiros e partidários prometem lealdade "na alegria e na tristeza". Mas isso soa meio antiquado e Lula é pós-moderno. Deve estar se preparando para quando o Carnaval chegar.




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